Alegria Breve, de Vergílio Ferreira

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No ano em que se comemoram os 50 anos sobre a primeira publicação de Alegria Breve, a Quetzal disponibiliza uma nova edição deste importante marco da narrativa vergiliana.

«Ganharei o jogo? Perco sempre. Porque tentar ainda? Ganhar uma vez. Uma vez só. Às vezes penso: ganhar uma vez e não jogar mais. Esqueceria as derrotas, a memória do homem é curta. E no entanto… Começo a sentir-me bem, perdendo. Quer dizer: começo a não sentir-me mal. A capela de S. Silvestre já não brilha. Mas ainda se vê bem. É triste o entardecer, boiam coisas mortas na lembrança, como afogados. Uma nuvem clara passa agora não sobre o monte de S. Silvestre, mas sobre o outro, o pico d’El-Rei. É um pico menos aguçado, forma um redondo de uma cabeça. Há quanto tempo já lá não vais? Para o lado de trás, vê-se o sinal de uma aldeia (aldeia?), um sinal breve, trémulo, branco. Quando se olha, o tempo é imenso, e a distância — a vida é frágil e temos medo. Dou xeque duplo, vou-te comer a torre, Padre.»

Nas livrarias a 16 de Janeiro.

 

«A sua grandeza é autêntica. Há um apelo pungente que é real, uma desfibradora procura que entra também por nós, uma expectativa tensíssima até ao fecho de sua última frase. Conhecida a sua última frase escrita, Alegria Breve renova-se como um princípio. A sua memória continua e a sua palavra ouve-se, uma e outra carregadas de sentidos que encaramos já com sua verdade interrogativa, dolorosa e de esperança. Em Alegria Breve é- nos assim restituído um ciclo fechado e dinâmico, um todo orgânico e inteligível. O seu gravíssimo peso, a dramatização sombria – e grotesca, por vezes, de tão intensamente olhada de perto, de tão sem descanso debatida –, do seu friso humano, os símbolos excessivos da sua lucidez e da sua ilusão angustiadas, o duro e soberbo realismo em que se fixa, não são mais irrespiráveis, não são de maneira nenhuma destrutivos, não se consomem no sinal vingativo da desolação estéril. É em esperança e em força que se resolve a longa experiência de deserto, de provação, de agonia, que atravessamos com Alegria Breve. Um livro de plenitude.»

Maria Aliete Galhoz

O Tempo e o Modo, n. 36, Março de 1966

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