O mundo dos homens sob o olhar feminino | Adelto Gonçalves

Eltania-capa - 200                                                           I

A história da rivalidade entre dois irmãos é tão velha quanto a Humanidade. A Bíblia nos conta a história de Caim e Abel, os dois filhos de Adão, criados e educados da mesma maneira, mas com caráter e personalidades diferentes. E a de Esaú e Jacó, história dos filhos de Isaque e Rebeca, que inspirou Machado de Assis (1839-1908) a escrever um romance sobre a rivalidade entre irmãos gêmeos, tendo a mãe no centro da disputa. Recentemente, ainda na literatura brasileira, Milton Hatoum (1952) publicou Dois irmãos (2000), excepcional romance que relata um drama familiar em cujo centro estão dois filhos de imigrantes libaneses, os gêmeos Yaqub e Omar.

O tema serve agora para a escritora Eltânia André lançar o seu primeiro romance, Para fugir dos vivos (São Paulo, Editora Patuá, 2015). Mas, ao contrário dos romances citados, aqui se trata de um mundo exclusivamente masculino que é visto detidamente por um olhar feminino. E essa é a grande diferença.

Como se sabe, nos dias de hoje, é difícil encontrar um escritor que, por mais genial que seja, construa imagens insólitas, que não sejam conhecidas. Já as escritoras costumam escrever de maneira distinta, têm imagens completamente novas, constituem janelas para outro mundo, outra sensibilidade e outra forma de ver as coisas. E isso se constata exatamente quando uma autora compõe personagens masculinos. É exatamente o caso de Para fugir dos vivos.

Neste romance, tanto no “Livro Um” como no “Livro do Miguel”, capítulos que constituem o livro, o leitor entra na intimidade dos narradores, os dois filhos de Ismália, a Maria Comprida, e do coveiro Fonseca, que viviam à beira do rio Pomba, no interior de Minas Gerais, pessoas secas e incapazes de passar momentos de ternura aos rebentos, que crescem vítimas de injustiças e castigos exagerados cujas consequências acabam por carregar para a vida adulta. Como observa Ricardo Ramos Filho no texto de apresentação, a falta de delicadeza presente é cortante como a navalha Monserrat Pou, que o filho mais velho ganharia de um barbeiro, à época em que, ainda adolescente, trabalhava numa barbearia em sua cidade natal. E essa constitui a principal metáfora do romance.

II

Com extremo lirismo e uma linguagem, às vezes, crua, nascida das ruas, Eltânia André consegue criar dois personagens distintos: um pensador, destinado a escrever romances e contos, e outro ganancioso, intelectualmente limitado, cujo sonho seria o de se tornar um jogador de futebol famoso.

Do primeiro dos filhos, fica-se sabendo que deixou a casa paterna aos 17 anos, voltando apenas durante alguns natais, “mais para cumprir uma obrigação social do que por vontade ou prazer”. E foi lutar sozinho pela vida, custeando seus estudos com o suor do próprio rosto. Talvez por isso não tivesse uma leitura do mundo muito agradável: “não acredito nos homens, não acredito nas religiões, nem na política ou na filosofia, sequer no alívio material do consumo”, escreve em seu relato. “Ando assim, envergado, quase genuflexo, submetido à vida e aos seus horrores. Convivo com o vazio”, acrescenta.

Dos tempos de estudante, ainda em sua pequena cidade, não carregava boas lembranças: “Fiz parte do Grêmio Literário Machado de Assis e do Centro Acadêmico, mas, com o tempo, percebi que eram associações inócuas, sem força política, meras instâncias para organizar festinhas para estudantes e mimeografar um jornalzinho medíocre”.

Desse tempo de adolescente, tinha melhores lembranças da barbearia do Dário, onde lia os principais jornais do País. “Foi nesse mar de informações que recebi os primeiros bafejos intelectuais, lendo as colunas de Clarice Lispector, as crônicas de Carlos Drummond de Andrade e Carlinhos Oliveira, os textos de Manuel Bandeira, a coluna Incrível, Fantástico, Extraordinário, assinada por Almirante”.

Depois, já escritor conhecido, mas não consagrado, admite que seu maior prazer vem da literatura e que uma resenha com crítica positiva de sua obra num diário de circulação nacional equivale a “uma descarga de libido superior a uma boa trepada”.

Já Miguel, depois de fracassar como jogador de futebol, carrega um misto de admiração e inveja pela carreira literária do irmão e não perde uma entrevista ou reportagem em que ele é citado. “Ele sempre diz a mesma lengalenga, que a literatura é a sua sobrevivência”, diz. Mas não deixa de ridicularizá-lo, ao lembrar que ele não subiu na vida, “continua com aquele salariozinho de merda”. E que “a literatura não salva ninguém nem muda o mundo nem paga as contas do mês”.

Ao contrário dele, que fez cursos de Economia e MBAs, seguiu carreira num banco, conseguiu ganhar dinheiro e garantir um patrimônio, o irmão mais velho continua na pobreza. Acrescenta: “No Brasil, os escritores são menosprezados até pelos editores, ele me contou, numa entrevista, que tem uma coleção de nãos. (…) Pior, ganha apenas 10% sobre as vendas, num país de poucos leitores, isso é uma ninharia, são ignorados pelo grande público que só quer saber de linguagens frouxas, celebridades da televisão, duplas sertanejas, conjuntos eletrizantes ou de ritmos da Bahia”. Só faltou acrescentar: recebe 10% sobre as vendas dos livros, quando não ganha um calote do editor, o que é comum no mundo das pequenas editoras.

Por aqui se vê a maturidade literária que Eltânia André já alcançou e que o leitor não perderá seu tempo em conhecer a sua obra, a não ser que seja adepto de duplas sertanejas ou de conjuntos eletrizantes…

III

Nascida em Cataguases, pequena cidade do interior do Estado de Minas Gerais que constituiu extraordinário celeiro de artistas da mais alta relevância para o País ao longo do século XX, Eltânia André, formada em Administração e Psicologia, tem uma obra que já se destaca entre os autores da Literatura Brasileira.

É autora de Meu nome agora é Jaque (Belo Horizonte, Editora Rona, 2007), seu livro de estréia, e de Manhãs adiadas (São Paulo, Editora Dobra, 2012), ambos de contos em que destaca uma linguagem coloquial permeada de muito lirismo. Mantém inéditos dois romances, um dos quais em parceria com seu marido, o poeta, contista e crítico literário Ronaldo Cagiano, que tem por título Diolindas, e Desde o ventre, romance juvenil. Tem ainda outro romance em elaboração, Da varanda vejo o mundo.

Um de seus contos, “Pedir pode, roubar não”, foi selecionado para integrar uma antologia que reunirá textos de autores brasileiros a ser publicada em edição bilíngue russo-portuguesa pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, sob os cuidados do professor Vadim Kopyl, diretor da instituição, com o apoio da Embaixada do Brasil em Moscou.

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Para fugir dos vivos, de Eltânia André. São Paulo: Editora Patuá, 192 págs., 2015, R$ 38,00. Site: http://www.editorapatua.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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