O “quando” do “colapso” europeu | Francisco Louçã in “Público”

francisco loucaHá dias discuti aqui o “se” do que Assis chamou, também no PÚBLICO, de “colapso” europeu (ele referia-se ao “colapso moral” se for aprovado esta semana o acordo com a Turquia). Agora refiro-me ao “quando” de um outro colapso, o do sistema financeiro, onde se acumulam riscos vários importantes. O risco é tão evidente que o governador do BCE não fala de outra coisa.

Esse perigo tem duas facetas: deflação e estagnação. O risco de queda sucessiva da procura, em particular do investimento (esse é o primeiro efeito da deflação), mas também dos salários e pensões e portanto do consumo, conduz à redução das perspectivas de recuperação económica. É o que se está a passar nas principais locomotivas europeias que aterraram na estagnação, depois de um longuíssimo período de recessão (ou de duas recessões seguidas) em que se manteve sempre um nível elevado de desemprego. O desespero de Draghi é por isso compreensível: ele sabe que reduzir as taxas de juro tem resultados insignificantes, que a política de dinheiro barato já não tem impacto, e pede aos governos que façam o que ele não pode fazer, que aumentem a despesa … mas os governos não podem usar políticas expansivas por causa das regras orçamentais, que entre outros são drasticamente impostas pelo próprio BCE. É o círculo vicioso perfeito.

Olivier Blanchard, que foi até há poucos meses o economista-chefe do FMI e um dos homens que justificou a austeridade para Portugal e para a Zona Euro, parece agora ter caído em si e procurar soluções fora da norma austeritária: propõe, pelo menos para o Japão, um aumento de 5 a 10% nos salários, para relançar a procura e procurar evitar a recessão. Boa ideia, podia pensar na Europa também.

Os Estados Unidos, cujas autoridades conduziram desde muito cedo uma política expansiva, não nos salários como sugere Blanchard mas ao menos favorecendo a recuperação da procura agregada por via do investimento e consumo público, conseguiram algum efeito, mesmo que pouco: oito anos de taxa de juro próximo de zero e compras de activos no valor de 3,8 biliões de dólares pela Reserva Federal. O resultado foi um crescimento médio anual de 2% e uma redução do desemprego, mas as condições são diferentes de todas as outras economias (e moedas) e o preço foi imenso. Consequência mais ameaçadora dessas taxas de juro muito baixas e do pagamento dos resgates bancários: o relançamento dos mercados de risco, a inflação dos activos financeiros. Voltamos sempre ao mesmo.

Na Europa, o problema é ainda mais difícil. A austeridade agravou a recessão, era a sua função, e também provocou deflação, o que não era nem esperado nem desejado. Mas ao mesmo tempo aumentou a dívida pública, que passou na zona euro, desde a recessão do subprime até hoje (2008-2015), de 66% do PIB para 93% (também aumentou de 64% para 104% nos EUA, e no Japão de 176% para 237%). E a dívida privada disparou no mesmo sentido. O agigantamento da dívida prejudica ainda mais a resposta que os governos deviam promover, a recuperação do investimento, e leva ao pior dos erros, a venda de activos, ou seja, privatizações.

Entretanto, a resposta de emergência está a esgotar-se, porque deixou de ter efeito e Draghi bem sabe disso: quem é que vai decidir um investimento porque lhe oferecem passar de uma taxa de juro de 0,01% para 0,00%? O investimento que faltava é o investimento que continuará a faltar e, entretanto, a injecção de liquidez pelo BCE tem uma implicação perversa que ele bem percebe: o dinheiro não entra na produção e portanto vai para os mercados financeiros, eleva o valor dos títulos (o que tem um efeito riqueza que agrava a desigualdade social, porque são os de cima quem tem activos financeiros, não são os de baixo) e promove assim uma nova bolha. Ora, cada bolha é uma crise, é a lei da vida.

Estamos então à beira do abismo, como grita o normalmente circunspecto banco Crédit Suisse? O que é certo é que os bancos estão aflitos. Alguns esconderam nas suas contas muito do que compraram por preços errados ou que sobrevalorizaram artificialmente, outros estão simplesmente pressionados pela deflação e pela redução das margens e portanto dos seus lucros.

Outros ainda sofrem dificuldades específicas: o Santander e o BBVA, os dois maiores bancos espanhóis, são dos menos capitalizados da Europa e estão expostos a problemas previsíveis (o Santander obtém 20% dos seus lucros no Brasil e o BBVA detém o maior banco mexicano, o Bancomer, recebendo 40% dos seus lucros dos mercados emergentes, que estão agora em crise). Percebe-se bem porque é que o Santander saudou com entusiasmo mesmo o que à sua escala é uma pequena operação, a compra do Banif – com um lucro de 190% em 11 dias, que bem jeito lhe fazem. No entanto, não é com operações desta dimensão que recupera.

O Deutsche Bank, um dos maiores bancos europeus, que registou um prejuízo de mais de 5 mil milhões de euros no ano passado, está a vender o PostBank, uma das suas unidades e que é importante banco de retalho na Alemanha. A exposição da casa-mãe ao mercado de derivados é, em valor nocional, quinze vezes superior ao total das economias da zona euro. Por outras palavras, uma pequena perda bastaria para ameaçar o banco.

Ou seja, a política do dinheiro barato já não basta para evitar uma nova estagnação; a deflação agrava todos os riscos e sobretudo o da recessão; falta o investimento e falta consumo, temos uma crise da procura agregada; o sistema financeiro está a absorver a liquidez injectada pelos Bancos Centrais, sobretudo o BCE, e os preços dos títulos aumentam, criando uma bolha especulativa; a banca está esmagada por margens reduzidas, o que é ainda agravado pela deflação, e isso incentiva os processos de fusão e as operações de risco; as pressões da dívida e das dificuldades de alguns agentes financeiros conjugam-se para novas pressões no sentido de privatizações que assegurem rendas que protejam os seus donos.

O “quando” da crise está escrito nestas pedras. Não há resposta a estes elementos de crise ou, pior, todas estas respostas estão a agravar a crise.

Francisco Louçã in Público

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