ANGOLA | OS MASSACRES DE MARÇO DE 1961 | Os sinais que Salazar não quis receber | Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes in “Os Anos da Guerra Colonial”

carlosdematosgomesSoares e a descolonização. Circula por aí um texto de propaganda negra de pretensas afirmações de Mário Soares sobre a descolonização com o título de uma frase referente aos colonos: “Atirem-nos ao mar”, ou qq coisa do género, que há uns anos aparecia atribuída a Rosa Coutinho. O texto é uma manifestação de estupidez de quem os publica. Acreditar que algum dirigente político faça uma afirmação daquelas em público é estupidez, ninguem faz. Tive divergências políticas sérias com a forma como as opções políticas do doutor Mário Soares após o 25 de abril, mas há a verdade, a descolonização tem outro responsável.  Tentar que alguém acredite é tomar os outros por estúpidos. Agora o que é verdade é que Salazar sabia que os massacres de Março de 1961 iam ocorrer naquela data e nada fez. E isso sim é verdadeiramente criminoso. Eu e o Aniceto Afonso publicámos o seguinte texto na obra “Os Anos da Guerra Colonial” – Edição QuidNovi Porto 2010 com 9 (Nove) notícias do que ia acontecer e que eram do conhecimento do governo de Salazar, que não agiu.

Aqui estão: (pg 65):

Em 6 de Dezembro de 1960 reuniu o Congresso dos 81, em Moscovo, que contou com a presença de oitenta e uma delegações de países comunistas, partidos comunistas e vários movimentos de libertação. As deliberações anunciavam um certo número de países como alvo de actividades subversivas e Portugal e as suas colónias estavam no primeiro lugar da lista. Anunciavam também que a estratégia para derrubar a ditadura em Portugal seria perturbar a situação nas colónias, através do apoio a organizações nacionalistas (…) As antigas colónias francesas, belgas e inglesas que se tinham tornado independentes deviam cercar e isolar as colónias portuguesas e isolar Portugal. O plano previa o desencadear de uma guerra debilitante nas colónias que facilitasse o derrube da ditadura e a independência das colónias portuguesas.
As actas da reunião foram publicadas na revista Notícias da Nato e dadas a conhecer ao governo português ainda em Dezembro.

Ainda em finais de 1960, um informador da PIDE em Leopoldville informou o seu chefe por carta que “dentro em breve explodirá na nossa terra de Luanda uma grave revolta, pois todos os naturais de Angola aqui residentes estão preparados para o assalto” e acrescentava: “Informai todos de que dentro em breve, vai espalhar-se uma grave onda de revoltas…”.

Em Janeiro de 1961 realizou-se uma reunião em Nóqui, na fronteira com o Congo, entre o comandante militar, o administrador da circunscrição e o responsável da PIDE. O responsável da PIDE informou que as actividades da UPA se tinham intensificado junto à fronteira com o Congo e que estaria a ser preparado um plano de terror.

A 4 de Janeiro, um telegrama do chefe do posto de Porto Rico, Santo António do Zaire, referia correr com insistência entre os indígenas da região que a independência de Angola ocorreria por aqueles dias.

Ainda a 4 de Janeiro, a PIDE informava o governador-geral de Angola de que constava estar a UPA a enviar emissários a Angola para subornarem militares de raça negra, convencendo-os a desertarem para o Congo.

A 2 de Fevereiro, a delegação da PIDE de Luanda noticiava várias atitudes suspeitas dos indígenas na região de Santo António do Zaire.

A 7 de Março, a PIDE informou sobre a concentração de grande número de elementos militarizados da UPA em Kiangolo, Congo, para conquistarem Maquela do Zombo.

Em 7 de Março 1961, os Estados Unidos avisaram Portugal através do seu embaixador em Lisboa, Burke Elbrick. O embaixador transmitiu a Salazar o documento enviado pelo Secretário de Estado Dean Rusk, por ordem de Kennedy: os Estados Unidos prevêem convulsões graves em Angola, do tipo das do Congo ou piores, e vão votar contra Portugal em 15 de Março.

Em 13 de Março de 1961, um informador da PIDE, na povoação de Cuimba, norte de Angola, junto à fronteira, informou que os homens da UPA se preparavam para fazer “grande confusão”, matando todos os brancos.

Em 14 de Março de 1961, o posto da PIDE de S. Salvador do Congo difundiu a informação de que, no dia seguinte, se verificaria um ataque da UPA.

No momento em que Mário Soares está numa situação crítica, há as verdades que ficam…

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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