Já não se pode dizer nada! – as armadilhas do politicamente correcto | Carlos Matos Gomes in blog “Incomunidade”

É na parte do mundo onde os habitantes podem expressar-se mais livremente, na Europa Ocidental e nas Américas, que mais forte é o sentimento de alguns assuntos não deverem ser referidos, ou não serem referidos em determinados termos, ou abordados por certos pontos de vista por serem politicamente incorretos.

É politicamente incorreto afirmá-lo, mas o Politicamente Correto (PC) é, em grande medida, um fenómeno urbano importado por contágio da cultura anglosaxónica. Uma moda mais do que uma justa luta contra graves situações de violação de direitos fundamentais. As situações criticáveis existem, mas não são o alvo das críticas politicamente corretas. O politicamente correto não resulta de faltas, mas de excessos.

O PC segue o princípio da anedota dos 3 escuteiros que foram necessários para realizar a boa ação de ajudar uma velha (sacrilégio, não existem velhos na novalíngua do PC, mas idosos, ou seniores!) a passar uma rua, porque a senhora (senhora também não é muito politicamente correto, denota machismo subtil) não precisava de ajuda, não queria passar e porque assumia a sua idade.

As vítimas que o PC elege são por norma das que menos necessitam de proteção e de inserção, ou porque não necessitam mesmo – caso de mulheres adultas, informadas, autónomas dispondo de meios consideráveis de defesa e afirmação, ou porque recusam a inclusão e defendem a sua especificidade – caso de comunidades étnicas, como os ciganos, ou porque, como os machos islâmicos no ocidente, pretendem impor a sua lei.

O PC não assenta na lógica, mas no preconceito, rejeita a universalidade dos valores essenciais. Em Roma seria um direito reservado aos patrícios, em Atenas apenas à minoria privilegiada dos cidadãos livres. Para o PC, como para os patrícios romanos, os bárbaros não têm direitos. Têm costumes!

Em nome do respeito pelos costumes locais, foi politicamente correto até quase ao final do império da Índia os ingleses aceitarem a queima das viúvas na pira onde era cremado o marido, ou o sistema de castas. Hoje, em Inglaterra, a poligamia é politicamente correta, desde que praticada entre islâmicos, assim como a violência contra as mulheres, desde que de acordo com sharia. Politicamente inadmissível é o encosto do corpo a uma colega de trabalho ocidental!

É politicamente incorreto afirmar que um religioso islâmico pregador da guerra santa é um criminoso. É PC defini-lo como um “clérigo radicalizado”.

O PC é um deturpador antropológico. A-científico. A invenção do conceito de afroamericano é paradigmática. Os negros do politicamente correto nos Estados Unidos são afroamericanos. Acontece que não existe uma cultura afro, africana. A África é tão multicultural, como os ouros continentes, Entre um egípcio e um congolês o que há de comum? E entre um ovimbundo e um sudanês, ou um felupe? Já agora, é politicamente incorreto o conceito de arianoamericano!

No entanto um índio mexicano, ou peruano, para o politicamente correto anglosaxónico, é um latino, ou um hispânico!

O PC defende a desigualdade perante a lei. É reaccionário e seletivo: É oportunista e populista: aplica-se consoante os interesses e as oportunidades dos e das que o promovem e não de um princípio geral de equidade e universalidade. É politicamente incorreto defender a proibição do véu islâmico nos locais e serviços públicos das cidades europeias, mas é PC aceitar que um marajá ou um príncipe saudita faça compras de armamento na Europa ou nos EUA trazendo um harém atrás de si. Só não pode é celebrar com champanhe, para não ofender as convicções religiosas de amor à paz!

O PC é racista, preconceituoso e manipulador. O caso da comunidade cigana é exemplar. É politicamente incorreto noticiar que um grupo de ciganos entrou de roldão nas urgências de um hospital para acompanhar um familiar ferido numa rixa com outra família cigana. Os ciganos não podem ser identificados como ciganos, embora o queiram ser e lutem para sê-lo e se recusem a integrar-se num grupo neutro de cidadãos que depreciativamente designam por gadjós. Não podem ser apresentados como tendo comportamentos clânicos, embora invoquem as suas tradições e as suas especificidades culturais e civilizacionais para justificar as suas práticas, como casamentos forçados de mulheres menores ou a proibição de frequentarem a escola.

A igualdade de género constitui um importantíssimo fator civilizacional, mas só é politicamente correto defendê-lo para mulheres que pertençam a grupos pré-definidos e em determinados contextos. Não é politicamente correto defender a igualdade de género para mulheres de grupos islâmicos, ciganas, ou emigrantes latino-americanas, mas o movimento meToo veste-se de negro contra o assédio de homens ocidentais, quase sempre de elevado estatuto profissional, a mulheres ocidentais, ou ocidentalizadas, de elevado estatuto profissional. E o PC chega ao ridículo de exigir que as palavras que contenham o radical man – lá está a matriz anglo-saxónica – sejam alteradas. Chairman não é politicamente correto. Retirar o man ao woman é que ainda não foi resolvido, mas quem inventou a «portavoza», a «presidenta» ou a «inteligenta», encontrará uma solução como ente em enta e até uma sementa! Esta novalingua é tão politicamente correta como contestar a queda de consoantes mudas no Acordo Ortográfico.

É politicamente correto denunciar o assédio sexual dos homens, mas não os gestos de sedução das mulheres. O PC é radicalmente machista: a mulher é sempre a assediada, nunca tem capacidade de iniciativa. Referir a perversidade feminina é politicamente incorreto. A shakespiriana Lady Macbeth não existe no politicamente correto, nem a portuguesa Leonor Teles.

A denúncia da bestialidade humana também é politicamente incorreta. Uma turba conduzida ao estádio dentro de uma jaula para assistir a um jogo de futebol não pode ser descrita como uma manada de bestas que abdicaram da sua dignidade enquanto seres humanos. O PC relativiza e normaliza comportamentos aberrantes.

Um apalpão a uma mulher num meio onde se trocam favores que incluem sexo é politicamente incorreto, mas o abandono na rua de uma homem ou de uma mulher por carência económica é o resultado de regras aceitáveis. Não há um meToo para as ofensas aos sem-abrigo, sejam homens, sejam mulheres!

O PC é uma atitude hipócrita na sua essência. O PC não trava a luta pelo respeito, mas pelo benefício. O PC não defende os direitos fundamentais dos mais fracos, mas os interesses de grupos entre os mais fortes. O PC não considera o ato em si, mas o sexo ou o poder de quem o praticou.

O PC não apoia vítimas, mas causas na moda dos grupos dominantes. As mulheres sofisticadas que se queixam de assédio no meToo são as mulheres do nosso imaginário. Os adeptos que se autobestializam enjaulando-se para assistir a um jogo de futebol são os adeptos dos nossos clubes, dos nossos desportos. Os peregrinos que se autoflagelam e arrastam em peregrinações são os fiéis dos nossos deuses.

Politicamente correto é não mexer no que dói e é perigoso.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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