CREDO, elas são perigosas | Francisco Louçã in Jornal “Expresso”

Não é o único dos maiores escritores do nosso tempo que se comporta como um pateta, mas talvez Vargas Llosa seja particularmente exibido e insistente. Autor de livros magníficos como a “Conversa na Catedral” ou “A Guerra do Fim do Mundo” e tantos outros, Vargas Llosa teve sempre uma intervenção pública ativa: foi castrista, foi amigo e inimigo de Gabriel Garcia Marquez, redescobriu-se conservador. Mas foi recentemente que escolheu tornar-se protagonista: foi o candidato da direita à presidência do seu Peru natal, foi feito marquês por Juan Carlos I e as suas aventuras não terminaram aí, ainda há pouco andou pela Catalunha em prol do rei. Prémio Nobel da literatura em 2010, continuou a publicar e, já com os seus 80 anos, deu à estampa “Cinco Esquinas”, que deve ser o seu pior livro. A um grande escritor perdoa-se toda a escrita.

Talvez Llosa escusasse, no entanto, de perseguir fantasmas e ódios de estimação. Há duas semanas, levou para a sua coluna no El Pais um desses ódios, desta vez contra o feminismo. A acusação é tremenda: são as “Novas Inquisições”. Sentencia: “o feminismo é o inimigo mais feroz da literatura”, pior do que Trump e Putin, pior do que as religiões e ditaduras. Por causa do feminismo e nada menos do que o feminismo, a “literatura pode desaparecer”. Desaparecer? A literatura? O homem perdeu a cabeça, perguntará a leitora mais moderada? O feminismo vai terminar com a literatura? Acabam os livros, os poemas, o teatro, as conversas, a comunicação, a vida? Por força do feminismo, esse monstro tremendo cujas garras rasgam a Terra?

Sim, responde Vargas Llosa. Querem um exemplo? Ele tem um. É que a Gallimard tinha previsto publicar a obra completa de Céline e desistiu, porque incluiria textos antissemitas de um escritor monumental que foi partidário dos nazis. Só que esta recusa nada tem que ver o feminismo ou com as feministas, mas unicamente com o medo daquela editora de aparecer associada a um discurso de ódio. De passagem, Llosa cita outro caso, o de uma escritora que criticou o Lolita de Nabokov. Também é fraco exemplo pois, mesmo sendo uma narrativa sobre a pedofilia, pouco sentido fará sugerir-se a sua ocultação. A literatura, como toda a arte, deve ser livre de se exprimir em todas as facetas da vida e das opiniões humanas, porque não deveria estar sujeita a um critério de gosto, ou de preferência moral, ou de ensinamento público. A literatura é simplesmente o que os autores escrevem.

Só que nunca foi assim. O livro As Vinhas da Ira, de Steinbeck, foi proibido em alguns dos estados dos EUA ao mesmo tempo que John Ford fazia dele o filme que ganhou vários Óscares. Livros de Darwin e Sartre foram apreendidos sob Salazar, bem como Cardoso Pires, Ary dos Santos, Jorge de Sena ou Jorge Amado. Harry Potter foi proibido mais recentemente nos Emirados Árabes Unidos e Alice no País das Maravilhas já foi proibido na China. Lembra-se do CDS a manifestar-se na rua pela proibição do Je Vous Salue, Marie, de Godard? Culpa das mulheres e do feminismo? Olhe que não.

O que o feminismo tem questionado é a violência e a discriminação. Esse seu pulsar universalista contra a exclusão e o desprezo tem sido um dos contributos mais fecundos para a democratização dos tempos modernos. Por isso mesmo, a literatura que regista todas essas razões e emoções, as dos sequestradores da liberdade, as dos abusadores, as das vítimas, as da dignidade, todo esse caldo de vida humana é uma voz essencial para nos conhecermos. Vargas Llosa, cada vez mais perdido nos seus pequenos ódios e no medo pela outra, dá-nos aqui um magnífico exemplo de como podemos aprender com a fronteira escorregadia entre a arte e a vida. Ele, que gosta pouco da liberdade para os outros (e outras), tem um medo do feminismo e da voz das mulheres que é uma esplêndida homenagem do vício à virtude.

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

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