1/8 | Breve História da Europa. Do Século XX aos nossos dias | Carlos Matos Gomes in “Medium”

Raquel Varela escreveu a «Breve História da Europa, da Grande Guerra aos Nossos Dias» (Bertrand, Lisboa, 2018). Tive o prazer de apresentar o livro em Lisboa. Raquel Varela é uma jovem e talentosa historiadora social. Aborda a História pelas dinâmicas sociais. Eu sou um velho militar reformado e a leitura da obra da Raquel Varela incentivou-me a alinhar velhas e novas ideias a partir das dinâmicas que conduzem ao poder, à sua conquista e à sua manutenção. Serão 8 textos que colocarei aqui diariamente. Não uma crítica, nem uma análise da História. Empirismo assumido. Acientificidade. Apenas ideias soltas suscitadas por uma obra, essa sim fundamentada.

O esqueleto da obra é um roteiro de pontos a visitar que a autora nos propõe. Eu vou segui-lo com a minha visão e com as minhas interpretações. Vou aproveitar a riquíssima informação para partilhar interrogações.

O motor da História

Até que ponto são as “massas” (abrangente rótulo atribuído aos que ao longo dos séculos foram designados como o povo, os servos, os camponeses, os proletários, os que vivem do seu trabalho, os que se vendem ou se oferecem) o sujeito da História? Até que ponto são as massas o determinante da História?

Até que ponto as dinâmicas sociais são o motor da História? Ou serão essas dinâmicas o resultado de outros factores e quais? Mas, como além de um motor, ou motores, a História toma rumos, por vezes surpreendentes, quem lhe impõe as mudanças?

Como a História não se desenrola a uma velocidade constante: quem a acelera, ou a trava?

E, quanto aos sujeitos da História, até que ponto classificações convencionais como burguesia, burguesia capitalista, proprietário dos meios de produção, ou trabalhadores, ou classe trabalhadora são hoje operacionais para a análise social e histórica?

Podemos analisar o presente com as ferramentas do passado? Ou estas ferramentas mantêm a sua operacionalidade para análise?

Não deviam os cientistas sociais trabalhar numa nova tabela de termos de referência?

Perceber a história da Europa do século XX é perceber como esta chegou à situação de, no início do século, ser a potência dominante a nível mundial — o império mundial era europeu — e de, no final da II Guerra Mundial, cinquenta anos depois, ser um continente subordinado, quase irrelevante no jogo de forças mundiais pela disputa do poder.

Terá a posição de domínio sido fruto da capacidade de intervenção das suas forças sociais, das suas massas de trabalhadores? E que responsabilidade têm estes quanto à sua decadência?

Por outro lado, o domínio mundial da Europa consagrado na Conferência de Berlim (1884/85), com a partilha de África pelas potências europeias, foi obra da burguesia capitalista? E o que era a burguesia capitalista em Inglaterra, ou na Holanda, ou na Alemanha, ou na França? Uma unidade? A burguesia de proprietários agrícolas, de comerciantes para consumo interno nestas nações era a mesma que a burguesia industrial ante e pós-revolução industrial?

Não terá a formação dos impérios coloniais originado novas classes, ou uma nova burguesia, ligadas ao import-export, à especulação financeira, à dívida pública, aos seguros e resseguros, à navegação? Até uma burguesia ligada às forças armadas?

Podemos classificar estes grupos num único bloco, unificar-lhe interesses e estratégias sob uma designação única de burguesia?

Podemos centrar a História da Europa no pós-revolução industrial na luta de classes e nas dinâmicas sociais resultantes do antagonismo entre uma classe exploradora do trabalho e outra que o vende e se vende?

Mas quem ou o que desencadeou a revolução industrial?

O livro da Raquel Varela provoca interrogações como esta: até que ponto as movimentações sociais são o motor das transformações nos equilíbrios de poder — até que ponto são necessárias à História? Até que ponto a explicam? São causa, ou são efeito?

Carlos Matos Gomes 

Medium: https://medium.com/@cmatosgomes46/breve-hist%C3%B3ria-da-europa-do-s%C3%A9culo-xx-aos-nossos-dias-99125cf5c0ef

(Próximo texto — O Estado)

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