Eu, Guilhermina | Ou a Verdadeira História das Mães de Bragança | Jorge Monteiro Alves

Esta estória baseia-se numa série de acontecimentos extraordinários registados em Bragança no Outono de 2003. Contudo, qualquer semelhança entre ficção e realidade será pura coincidência.

Dedicado a todas as nordestinas, de um e do outro lado do Atlântico

A estória da nordestina Guilhermina e do seu marido Quitério, tentado por fragâncias de amores-perfeitos que depressa murcharam, ou como um homem com uma rica vidinha estraga tudo por um par de mamas.

Santo Amaro de Oeiras

Jorge Monteiro Alves é natural do Porto, desse Norte onde não corre sangue lusitano nem magrebino, mas sim suevo, vândalo e godo, e onde as gentes parecem paridas do granito que cobre a terra. Talvez por isso não haja vento que as dobre. Ali, muito cedo aprende-se com as árvores – antes quebrar que torcer. E também elas gostam de morrer de pé. Partilham um sonho desde crianças: ver o Benfica na 2ª divisão. Ainda não o concretizaram. Mas não perderam a esperança.

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I – A velha apontou o dedo indicador na sua direcção e os olhos fizeram um esgar trocista, assim como a boca, coberta de dentes podres. Que podia ela fazer, pobre cega, contra poções de raízes de amor-perfeito, restantes ervas do demónio e macumbas com água suja das partes? Nada! O feitiço era demasiado poderoso. Mas que não perdesse a esperança, que vinha aí luz por entre nuvens escuras! Guilhermina, chorosa, ainda se atreveu a perguntar àquela bruxa medonha, coberta de rugas e de um xaile negro, se não havia mesmo forma de matar a vadia. A curandeira soltou um grunhido de protesto e fez um gesto brusco com a mão esquerda, como se afastasse maus espíritos ou a mandasse embora. Na dúvida, foi isto que fez. Não sem antes largar uma nota no imundo copo de plástico verde que servia de ornamento único à mesa comida pelos ratos.
Guilhermina saiu do casebre para a rua com alívio, liberta do cheiro a mofo, olhos de morcego e rabos de lagartixa. Má ideia tivera a comadre Otília em recomendar-lhe aquela ida à Benfazeja. E lá se tinham ido 50 euros naquela história! Mais do que não arranjar forma de matar a outra, o que lhe doía mesmo era ter largado tal quantia. E em troca de quê? De nada, pois então, que é igual a coisa nenhuma! Ela sabia lá quando vinha a luz ou que história era aquela das nuvens escuras! Quais esperanças, qual carapuça! Certo, mas certinho mesmo, era que o dinheiro se estava a ir. E mais depressa do que um balão furado perdia o ar.
Cumprimentou à direita e à esquerda. Olá, Guilhermina, olá! Onde vais a esta hora? Tu, por aqui? Ora bons olhos te vejam, rapariga! E ela estugava o passo, respondendo ao acaso e fugindo a todas. Atravessou meia Bragança cosida com as paredes das casas, como se fugisse do sol daquela manhã de Outono. Passou pelo cabeleireiro, cheiinho de vadias a tresandarem àquele perfume, de esplanadas com moças bonitas de perna traçada que falavam alto. E decerto dela. E assim passava de cabeça baixa, envergonhada, quase a medo. Estava certa, chegada que estava às portas da Igreja de Santa Clara, que todas a apontavam agora a dedo. Correu os últimos metros que a separavam do portão de casa, que abriu com dedos trémulos.

Atravessada a porta de entrada, chegou com custo à sala, de estores fechados e envolta na penumbra, e deixou-se cair num sofá. Fechou os olhos e tentou recordar-se do que já fora. De como passeava em Bragança de cabeça bem erguida e de como toda a sociedade a respeitava. Tudo isso era apenas uma memória ténue, saída do que parecia ter sido outra vida que não a sua. Saiu daquele torpor e levantou-se. Tinha de preparar o almoço para o Quitério, que daí a pouco estaria a chegar e se não tivesse a comida na mesa… bom, seria o costume. Ou seja, o diabo. Atravessou um corredor a caminho da cozinha e mirou-se de soslaio ao espelho, acabando por parar e ali se deter uns segundos.
Olhos negros encovados, 54 invernos, rugas e olheiras profundas, cabelos fartos, todos brancos, apanhados num puxo, cordão de ouro e arcádias de Viana pendentes, rico trabalho de filigrana, prenda de casamento da mãe, que por sua vez já as tinha herdado da avó, queixo e nariz bem formados, sobrancelhas negras, sendo da mesma tonalidade o espesso buço que lhe cobria todo o lábio superior. Mulher inteligente, fizera o Ciclo Preparatório e só não fora mais longe porque o pai a proibira, preferindo-a mais à mão para ajudar na loja, cem metros quadrados de trapos e marroquinarias das mais finas que lhes trouxeram fortuna, trabalho para que parecia talhada, pois tinha o diabo de um jeitaço para impingir tudo e mais alguma coisa às freguesas.
Educara os três filhos com o maior esmero e vira-os partir, um a um, para paragens longínquas – o Manuel, doutor em Direito, tirado em Coimbra, trabalhava em Toronto, no Canadá, onde lhe dera já dois netos que nunca vira; o Luís, engenheiro, esse maroto estava em Benguela numa construtora havia já quatro anos, se calhar amigado com uma preta; e o Alberto, menino dos seus olhos e cuja imagem lhe fazia sempre rebolar uma lágrima teimosa entre as maltratadas faces, era pediatra em Austin, num Texas que ela só conhecia das séries americanas mas que sabia bem onde ficava, pois tinha pregado na loja, nas profundezas da casa onde guardava batatas, cebolas e vinho, um imenso mapa-múndi onde assinalara, com pioneses, todos esses sítios onde os seus rapazes ganhavam a vida. E não raras vezes ali ficava a chorar, matutando na razão de ser de um país que ensinava os seus filhos a cozer o pão e depois os mandava para o fim do mundo para o ganharem.
Como entretenimento tinha as novelas, de preferência brasileiras, e para consolo a Virgem, que lhe ouvia todas as queixas. E as que não ouvisse ficavam para o padre Fulgêncio, pároco de Vinhais com casa posta em Bragança, que herdara dos pais e ficava paredes-meias com a de Guilhermina, com quem partilhara os bancos de escola, brincadeiras inocentes e um beijo roubado quando ela fizera 10 anos. Entregava-se agora aos bordados e ao amor da Doly, uma cadelinha rafeira que nunca a largava e que recolhera só para si quando Quitério a trouxe um dia da caça pior que o chapéu de um pobre, ferida por um javali. Passava enfim os dias a tratar do jardim, da casa e do seu homem, corrida que fora da loja, por vergonha, quando um dia apanhou a vadia da Luísa, mãe solteira de trinta anos a querer subir na vida, a fazer coisas que não devia com o seu marido.

Os últimos meses tinham caído sobre Guilhermina como se arcasse com todos os pecados do mundo. Quitério tinha arranjado uma dessas vadias, sim, ela bem a cheirara nos perfumes sofisticados que ele trazia pela camisola interior e pelas ceroulas, e o pior é que andava a esturricar o pecúlio, que já fora farto e era agora mirrado, e a loja estava nas ruas da amargura, com as freguesas, fina-flor bragançana, a fugirem de quem fora assim tentado pelo diabo. Não que a incomodasse por aí além a traição – outra que levasse com o careca pançudo que a maltratava e que não tomava banno -, mas já quanto ao dinheirinho a cantiga era outra. Olá se era!
Nesse mesmo instante em que Guilhermina estava entre os seus pensamentos e a fritar fêveras de porco, vamos encontrar Manuel Quitério ali a dois passos, na Praça da Sé, refastelado numa cadeira de António Lameiras, barbeiro de meia cidade, a pintar de preto as guedelhas cinzentas dos lados da careca, tendo a seu lado Justino do Paço, amigo de longa data, companheiro da pinga e de outras cumplicidades.
Justino, 57 anos gastos pela tuberculose, pequeno de estatura e grande nos gestos, um dos mais respeitados proprietários bragançanos, dono de meia cidade e de farta cabeleira grisalha impecavelmente penteada para trás graças a quantidades industriais de gel e ao cuidado de Luisinha, ajudanta da casa, não pôde evitar um sorriso trocista quando viu o barbeiro espalhar a pasta preta pelas suíças do amigo. Ó Quitério, você vai sair daqui um rapaz novo!, afirmou, ao mesmo tempo que passeava, orgulhoso, os dedos pelos cabelos acabados de pentear pela ajudante de António Lameiras.
Ora deixe-se disso, amigo Justino! Diga mas é que notícias temos hoje!, retorquiu Quitério, algo corado pela observação e irritado pelo sorrisinho que também via bailar nos lábios do barbeiro. Acabou distraído pelo desfilar das novidades saídas do jornal do compadre: Esquerda israelita prepara acordo com palestinianos, Portugal e Espanha chegam a um acordo nas pescas, Guerra do gás faz novas vítimas na Bolívia. E a tudo isto ia respondendo com um hum-hum aprovador, de homem conhecedor daqueles e demais assuntos. E o Benfica? Não traz nada do Benfica?, perguntou.
Olhe aqui esta, prosseguiu Justino, ignorando-o. Governador civil de Braga quer detectores de droga à porta das discotecas! Quitério passou os dedos pelo bigode e perguntou: E como é que vão fazer? Vão pôr lá cães a cheirar o cu de quem quiser entrar? Logo o barbeiro acudiu: Cá por mim acho muito bem! Era isso e apanhar quem usa champô dos chineses e lâminas usadas! E dito isto lançou um olhar venenoso para o outro lado da rua, onde estava o novíssimo cabeleireiro unissexo da Esmeralda, que lhe roubara meia Bragança.
Enfim, os americanos dizem que precisam de dinheiro para reconstruir o Iraque, prosseguiu Justino, já algo saturado daquela ladainha. Olha que grande porra!, atirou o barbeiro, homem experiente que gostava de meter a sua colherada. Então primeiro destruíram aquilo e agora querem pôr tudo novamente de pé?, perguntou com ar espantado. Ó Lameiras, você cale-se que não percebe nada de construção civil e passe mas é aí a graxa, que tenho mais que fazer!, cortou Quitério, que se voltou para o amigo e perguntou, em voz baixa: Olhe lá, trouxe aquilo que lhe pedi?
Justino, acabado finalmente de pentear, levantou-se da cadeira e dirigiu-se a um móvel da entrada da barbearia, onde tinha deixado um pequeno embrulho, que logo entregou ao amigo e compadre dizendo: Vindo directamente de Zamora! Quitério pegou naquilo a custo, como se queimasse, e ordenou a António Lameiras: Ponha lá isso. E sem comentários! O barbeiro abriu o papel, curioso, e não pôde evitar abafar uma gargalhada, que logo engoliu ao ver o olhar furioso do cliente.
Passados poucos minutos Quitério era um homem novo. Aquele que ainda há poucos meses percorria triste e alquebrado as ruas de Bragança de fato completo e colete, fizesse chuva, fizesse sol, era agora um garboso rapaz de 55 anos, com uma cinta que lhe encobria aquela barriga capaz de fazer roer de inveja a filha da Otília, viçosa rapariga que já ia no sexto mês de gestação.
Quitério deu duas voltas sobre si mesmo e admirou-se ao espelho. Bigode-espanador bem espetado, guedelhas cinza a cobrirem-lhe as orelhas peludas agora pintadas de preto, capachinho à maneira trazido de Zamora pelo Justino, calças de ganga já sem ceroulas, bota alentejana de tacão alto, grosso cordão de prata ao pescoço e camisa verde ornada com flores amarelas aberta até ao umbigo.
E então, o que dizem?, perguntou, mirando-se ainda ao espelho e espalhando pelo pescoço meia embalagem de colónia Pizza-Hut, dando ainda uma voltinha aqui e outra acolá. O barbeiro fez um ar aprovador, Luisinha também e Justino do Paço deu-lhe uma amistosa palmadinha no ombro. Está catita!, exclamou o amigo. Quitério ficou babado. Acha que ela vai gostar?, e perguntou isto com um ar enlevado, graças à lembrança da sua Danizinha, a mais que tudo por quem se sujeitava a todas estas coisas. Claro que sim, respondeu Justino.
Com Quitério ainda a admirar-se ao espelho, sentiu um pequeno vulto a espetar-se-lhe nos quartos traseiros. Quem tiver cu que fuja!, gritou uma voz roufenha. Ele voltou-se. Sorriso maroto a brincar-lhe nos lábios gastos pelo tempo, beata ao canto da boca, cinquenta centímetros de largura de ombros, 1,55 de altura, fato de corte duvidoso, cabelo grisalho, farto dos lados e puxado para cima, lambido, a tapar a careca. Filho de uma bragançana rica que se perdera de amores por um malandro do Cais do Sodré, saíra da sua Lisboa após a morte dos pais, já há uns bons quarenta anos, para administrar as propriedades herdadas e, para se entreter, para fundar a Voz de Bragança, um quinzenário que dizia mal de tudo e de todos e que já lhe tinha valido uns bons enxertos de porrada e duas balas em distintas ocasiões. Era um macho a valer sem medo de nada, de resposta pronta e por todos temido. Picolé para os amigos, Senhor Picolé para todos os outros.
Porra, homem, que você é uma besta!, gritou Quitério, fugindo do encosto. Picolé gabou-lhe o capachinho. Sim senhor, de uma coisa assim é que eu precisava para impressionar a Fernandinha… Todos sorriram em volta. Era sabido que a Fernandinha era um Fernandinho e, diziam as más-línguas, que atendendo a determinados pormenores chegava mesmo a ser um Fernandão. Mas para Picolé isso era pouco relevante, até porque o homem via mal. A Luisinha, já nervosa, via-o espalhar cinza por todo o lado e antevia já a hora em que a barbearia começaria a arder. Não vos cheira a fumo?…
Todos cheiraram. O filho do Cais do Sodré também. Aproximou-se dela e disse: A mim cheira-me é a outra coisa… Luisinha estremeceu e fugiu para junto do patrão. O jornalista voltou à carga: Ó jóia, anda aqui ao ourives… Ela protestou: Ó senhor Picolé, com franqueza. Sempre com essas brincadeiras… E dito isto deu meia volta e foi refugiar-se no interior da barbearia, não sem antes ouvir: Ó filha, usas cuecas TMN? É que tens um rabinho que é um mimo! Gargalhada geral, à excepção de António Lameiras, que fez ar de caso e avisou que a barbearia não era sítio para se ter aquele tipo de brincadeiras. Muito menos com a menina Luisinha.
Picolé encolheu os ombros, despeitado, e saiu, esbarrando com uma jovem bragançana já no passeio. A rapariga, embaraçada ao reconhecer semelhante figura, fez menção de seguir o seu caminho, mas ainda teve tempo de ouvir: Só queria ser um patinho de borracha para passar o dia na tua banheira! Ofendida, a moça deteve-se e sugeriu-lhe que tivesse mais tento na língua. Indiferente, o velho voltou-lhe as costas e disse para quem o quis ouvir: Ora, ora, só não sou teu pai por quinhentos paus! E lá seguiu o seu caminho.

Estava ainda Quitério a dar a última voltinha no espelho, já com meio palito às voltas nos dentes podres, quando João Horácio entrou esbaforido na barbearia, trazendo na mão o que parecia uma revista amarrotada, daquelas com capa às cores. O recém-chegado deixou-se cair numa cadeira, sendo logo rodeado pelos que ali estavam e por um copo de água acastanhada acabada de tirar da torneira pela ajudante de António Lameiras para ajudar a limpar os bofes.
Horácio, compincha de Quitério e de Justino, também ele um homem novo aos 58 anos, estava ainda arrocheado quando revelou: Vocês nem imaginam! Todos se entreolharam. Pois havia novidade? Talvez fruta fresca? E logo o outro, já mais recomposto, lhes atirou com a revista: Pois leiam! E foi assim que a Time voou dois metros, indo parar, com a capa para cima, no armário das tesouras, dos pentes e das lâminas de António Lameiras. E ali estava, escrito em inglês garrafal: When the meninas come to town.
O primeiro a olhar para aquilo foi Quitério, que logo rebolou com a revista: Mas que porra quer dizer isto? Você julga que eu sei francês? Justino, devagar, pegou na Time com todo o cuidado, com dois dedos apenas, e logo sentenciou: Estamos lixados… Para espanto de todos, menos de Horácio, que já sabia a história, revelou o que ali vinha – uma mega-reportagem dos americanos sobre tudo o que se passava em Bragança, o novo bairro vermelho da Europa e de que como as meninas brasileiras tinham virado a cidade do avesso.
Entreolharam-se durante um breve momento. Pois paciência!, sentenciou finalmente Quitério. Podem dizer e escrever o que muito bem quiserem, mas isto não diz respeito à minha Danizinha, que a partir de hoje vai ser uma senhora a sério! Os outros olharam-no. Horácio e António Lameiras gabando-lhe a coragem e pensando nas curvas da dita-cuja, enfim, Justino do Paço dando-lhe os sinceros parabéns por tão nobre gesto e revelando que também ele estava a pensar em juntar os trapinhos com a sua Simone e mandar às malvas a Adozinda.
Feitas as contas com o barbeiro, Quitério saiu para a rua e deparou com uma Bragança em reboliço, tropeçando com grupos de rapazes que agitavam cópias acabadas de tirar da reportagem, com o filho de Horácio cercado por quatro homens que lhe queriam comprar à viva força e por qualquer valor a edição da revista, que entretanto surripiara da barbearia, com os taxistas da postura ali contígua a ignorarem os clientes e a discutirem, aos gritos, a desgraça que não tardava ia acontecer à cidade, com as mulheres de bem a irem a correr para casa ou para a igreja, cujos sinos tocavam a rebate. E o caso não era para menos. Era a terceira vez na sua longa história que a Time trazia Portugal na capa – a primeira fora para falar do rei dos ditadores, Salazar, em 1946, a segunda para expor os perigos do comunismo, em 1975, e agora, finalmente, naquele dia 14 de Outubro de 2003, ali estavam as meninas de Bragança!
Tudo isto, porém, passava ao lado de Quitério, que abriu o trinco do portão do jardim com o peito cheio de ar, o que logo o fez soltar um sonoro traque, simplesmente porque lhe apetecia, porque era um homem novo. E livre. Tirou um cigarro sem filtro do maço, levantou uma perna e acendeu-o na lixa que colara num dos enormes tacões da bota alentejana, imagem que sempre impressionava a sua Danizinha. Chegado à porta da sala, pensou mesmo em tomar banho, mais porque, rebelde como se sentia, lhe apetecia urinar para o imaculado ralo do duche do que por higiene. Seria o seu grito do Ipiranga. Depois falaria com Guilhermina.
Meia hora se passou até que Quitério, banho tomado e vestido de fresco, grito do Ipiranga dado e com uma T-shirt onde se lia Se fosses um tijolo tapava-te os buracos todos, se sentou à mesa da sala, esperando pela comida. Solícita, como sempre, Guilhermina apareceu com a travessa das fêveras e as batatas, que quase deixava cair ao ver o marido naquela figura, guedelhas pintadas de negro e capachinho castanho-escuro a cobrir-lhe a careca.
Guilhermina não sabia se havia de sentir pena de Quitério se havia de lhe atirar com a travessa das fêveras às trombas. Ainda na dúvida, pousou-as na mesa e desatou a rir, a tal ponto que depressa ficou com as cuecas molhadas. Com ar despeitado, mais fingido que sentido, o marido bebeu um trago de vinho e fez-lhe sinal para que se sentasse, o que ela muito estranhou, porque as mais das vezes comia sozinha na cozinha.
Temos de falar, disse finalmente Quitério, cofiando o bigode-espanador. E Guilhermina ouviu-o, sem abrir a boca. Que ia sair de casa naquele mesmo dia, que pediria o divórcio, pois queria ser um homem livre, e que lhe deixava tudo, ou quase, levando com ele apenas 200 mil euros que já levantara e outro tanto que gastara a comprar um telhado onde se abrigar.
Talvez por raiva, talvez por despeito, Guilhermina manteve-se em silêncio. Sentia-se traída, é verdade, não pelo amor que não tinha por Quitério, mas sim por direito de propriedade, porque lhe roubavam algo que era dela, mesmo que, como neste caso, se tratasse de um marido de qualidade mais do que duvidosa. Fosse como fosse, a tudo anuiu, até porque sabia fazer contas e não ignorava que iria ficar com o suficiente para si, mesmo com o pecúlio mirrado, sem necessidade de recorrer à caridade dos filhos.
Pelas quatro da tarde, sem discussões nem espaventos, Quitério atravessou o portão daquela casa pela última vez. Chegado à rua, com uma mala contendo meia dúzia de peças de roupa e 200 mil euros, rebolou o palito na boca, deitou um olhar em volta, coçou os tomates à vista das vizinhas que o espreitavam e pôs-se a caminho do T4 que comprara, para si e para a sua Danizinha, num dos melhores prédios da cidade, ali a dois passos.

 

II – Dois dias depois, vamos encontrar Guilhermina sentada na mesma cadeira, da qual, aliás, ainda não se levantara. Ali se deixara ficar, orando à Virgem e ruminando vinganças. As muitas lágrimas que derramara tinham-lhe encovado as olheiras e as rugas tinham-se vincado ainda mais com a raiva que sentia. Baixou a cabeça e pela enésima vez repetiu: Celeste tesoureira de todas as graças, Mãe de Deus e minha Mãe, Filha Primogénita do Eterno Pai cuja omnipotência está em Tuas mãos, tem piedade da minha alma e concede-me a graça que Te suplico com todo o fervor…
Mal acabara de dizer aquelas palavras, ouviu a sineta da porta, o que logo fez Doly, a seus pés, espevitar as orelhas. Esperou uns segundos e ouviu-a outra vez. A cadela, uma pequena rafeira de pelagem rala acastanhada e de grandes olhos meigos, levantou-se e começou numa grande agitação a morder-lhe o vestido que lhe chegava aos pés e, a rosnar, a procurar arrastá-la para a porta.
E finalmente Guilhermina levantou-se. Sentia-se tonta e teve de se apoiar a uma cadeira para não cair. E lá estava a sineta outra vez. Não sem custo, arrastou-se para a porta, ao mesmo tempo que dizia, numa voz que pretendia firme e lhe saiu sumida: Já vai! Já vai! E enquanto se aproximava da entrada os seus pensamentos giravam em turbilhão. Meu Deus! Teria a Virgem ouvido a sua prece, mil vezes repetida? Chegara a hora da vadia? Ter-se-ia finado o seu Quitério? Ou teriam ido os dois para as profundezas do Inferno, levados por qualquer providencial desastre?
Abriu a pesada porta e deparou, lá ao fundo no portão de ferro do jardim, com as amigas Otília e Clotilde, que lhe acenavam. Então, rapariga? Bons olhos te vejam!, disse uma delas. Guilhermina pôs uma mão em pala à frente dos olhos, para se proteger daquele sol que teimava em brilhar e fez-lhes sinal para que entrassem, logo se refugiando dentro de casa.
Jesus, Virgem Maria, que isto aqui parece uma capela mortuária!, exclamou Clotilde assim que assomou à entrada. Guilhermina não se deteve e continuou a andar em direcção à sala, seguida pelas amigas, que vendo-a assim abatida logo imaginaram que havia ali caso. Finalmente sentadas, ela no cadeirão de couro que fora de Quitério e as outras num sofá, perguntou-lhes ao que vinham.
Clotilde olhou para ela e depois para Otília, um pouco surpresa, e afirmou: Pois ao que vimos? Então, mulher, tu nem à missa foste! Mas que se passa? Estás doente?, e perguntava isto com absoluta sinceridade e legítima preocupação, pois era amiga de Guilhermina desde sempre, ainda antes dos primeiros bancos de escola. Uma, a que tomara a palavra, era a mais afortunada das três, pelo menos assim a via agora Guilhermina, finado que fora o falecido há cinco anos. Parecia mesmo rejuvenescida, com o cabelo arranjado e sempre vestida que era um mimo. A outra, casada há uma eternidade com Horácio, era também uma desgraçada como ela, vítima dos amores-perfeitos e das ervas do demónio, embora se visse nela a resistência inquebrável das nordestinas, calejadas por sofrimentos capazes de dobrar qualquer um. Mas não a elas.
Face à pergunta de Clotilde, não foi capaz de dizer palavra. Ainda quis pôr um ar determinado, mas não conseguiu. E ali teve um momento de fraqueza, desfeita em lágrimas que julgava terem finalmente secado, junto das amigas com quem tudo partilhara – os desgostos, os maus-tratos, as pancadas, enfim, as traições. E contou-lhes como Quitério lhe aparecera numa figura que não lembrava ao diabo e de como saíra de casa para ir viver com a piranha.
Põe-te fina, menina!, disse finalmente Clotilde, que tudo escutara em silêncio. Tu o que tens a fazer agora, até porque estás sozinha e os teus filhos estão longe e lá na vida deles, é olhar para a frente! Guilhermina secou as lágrimas e enfrentou as duas. Uma, determinada e de fronte bem levantada, a outra muda e calada, revendo-se nas desditas reveladas pela amiga.
Clotilde levantou-se do sofá e pegou-lhe na mão calejada. O que tu vais fazer é ir a uma reunião que há mais logo no salão paroquial. Guilhermina arqueou uma das espessas sobrancelhas e perguntou: Na igreja? E para que é essa reunião? A amiga pegou na mala e, sempre com passos seguros, encaminhou-se para a saída. Logo verás! Às seis horas, menina! Livra-te de não apareceres porque nesse caso sou eu quem te vem buscar. E dito isto fez sinal a Otília para que se levantasse.
Ainda atordoada, acompanhou-as à porta, perguntando a Otília: Tu também vais? A amiga baixou os olhos e fez que sim. E já desapareciam as duas pelo jardim quando ouviu o portão de ferro bater e a voz firme de Clotilde a dizer: Às seis horas! Voltou para dentro, com Doly a abanar a cauda à sua frente. Baixou-se e fez uma festa à cadela. Minha pequenina. Ai que a dona estava maluca! Vamos comer as duas?…
Em menos de um ai as experimentadas mãos de Guilhermina fizeram aparecer à mesa uns ovos mexidos com presunto. Deitou uma porção no prato da cadela e bebeu um longo trago da reserva que fora buscar à loja, néctar sempre deixado para o belzebu. Assim comida e bebida, subiu as escadas, rebuscou cómodas e armários e fez uma grande trouxa com roupas e calçado. Desceu, colocou aquilo no espaçoso e bem cuidado jardim e regou tudo com petróleo. Acendeu um fósforo e num ápice viu as chamas retorcerem cuecas e peúgas, calças, casacos e camisas 56, sapatos 40, chapéus de fino feltro destinados a cobrir carecas. Reentrou em casa e desinfectou as mãos com lixívia, ansiosa por se livrar daqueles cheiros de amores-perfeitos.
Deitou-se no sofá, não sem antes ter posto o despertador de corda para dali a duas horas, e depressa adormeceu, num sono profundo, o primeiro em dois dias, embora agitado por pesadelos, pois via Quitério a passear num descapotável, com um saco contendo 200 mil euros numa mão e a outra pousada numa morena saída de capa de revista, ao mesmo tempo que conduzia com os joelhos. Fosse por isso ou lá pelo que fosse, o que é certo é que viu, com aqueles olhos que a terra havia de comer, o carro esborrachar-se contra uma árvore, ali ficando espalmadinho. E foi com um sorriso nos lábios que ouviu o despertador tocar, chegadas que eram as cinco da tarde.

Sem pressas, Guilhermina foi buscar secos para a Doly, sempre de cauda a abanar e de olhos brilhantes por ver a dona de alma renovada. Depois subiu as escadas, lavou-se, deu um jeito ao cabelo, vestiu um vestido azul com bolinhas brancas e ia já a sair do quarto quando viu na cómoda o Creed rosa que Alberto lhe enviara das Américas no seu último aniversário e que nunca ousara abrir, limitando-se a achar a embalagem uma beleza e a usá-la como peça decorativa. Encolheu os ombros, abriu o frasco, borrifou umas gotas para o pescoço e sentiu-se logo outra, olhando-se ao espelho de forma voluptuosa e fazendo uma careta quando deparou com o buço. Correu à casa de banho, rebuscou um armário e encheu o bigode de creme depilatório. Dez minutos depois, aplicou aloé vera para aplacar o ardor e pintou os lábios, o que já não fazia pelo menos há vinte anos.
Foi assim uma mulher nova que atravessou o portão de ferro do jardim. Determinada, cumprimentou as vizinhas de cabeça bem erguida e encaminhou-se para a Igreja de Santa Clara, espalhando flagrâncias que a todos fez virar as cabeças quando se cruzou com eles, velhos e novos, sentados que estavam nos bancos de jardim da Praça da Sé. Ao chegar às proximidades do salão paroquial hesitou, pois ali deparou com uma multidão de mulheres, a maioria das quais da sua idade, que enchiam o adro. E no meio delas estava Clotilde, tentando impor a ordem com a sua voz clara e autoritária: Vamos entrando que está na hora!
Ela, a custo, também entrou. Logo o salão ficou repleto de um vozear monumental de quatrocentas conversas simultâneas, mulherio por todo o lado, muitas das quais conhecia – a Cecília, a Josefina, a Leopoldina, enfim, a Otília, que a chamou para junto de um grupo numeroso que estava junto à mesa do fundo, onde se sentavam o senhor prior, magro e severo, de lunetas, hábito negro e respectivo colarinho branco, Clotilde, sempre bem aprumada o diabo da cachopa, e a comandanta, chefe da polícia de Bragança, cabelo grisalho maltratado, nariz afiado e caído como o de um abutre, olhos azuis-claros esbugalhados, enfim, uma boca torta, cujo marido também a trocara por uma dessas vadias das ervas do diabo.
O prior levantou a mão e pediu silêncio, mas o vozear continuou, ensurdecedor. Então, Clotilde levantou-se e gritou: Estejam caladas, fosga-se! E logo todas silenciaram e se sentaram naquele mar de cadeiras, ao mesmo tempo que duas voluntárias distribuíam um folheto de uma só página, um dos quais chegou às mãos de Guilhermina. E ela leu:

“Queremos evitar fazer justiça pelas nossas
mãos, mas se a isso formos obrigadas
não nos esquivaremos, pois queremos,
necessitamos e merecemos ter paz nos
nossos lares, nos nossos corações.
Somos agora invadidas e fustigadas por
dezenas de prostitutas aquarteladas em
boites, mesmo durante o dia, em bairros
residenciais, em todo o canto e esquina da
nossa cidade. Como é possível permitir-se
a continuada abertura de casas de alterne,
onde o flagelo da droga e da prostituição
é incrementado?
E nós, filhas da terra, aconchegamo-nos na
tristeza e destruição dos nossos lares, com
o peso do sofrimento, porque elas vieram aliciar
os nossos maridos com falinhas meigas,
canas-de-açúcar e droga à mistura!”

Estamos aqui, mães de Bragança, prosseguiu Clotilde, para analisarmos este documento e dizermos o que nos vai na alma para acabarmos com esta sem-vergonhice. E vejam que não estamos sozinhas – temos aqui o senhor prior e a chefe da polícia. Quatrocentas cabeças espreitaram para a mesa, viram as figuras sinistras do padre e da comandanta, e todas disseram: É verdade. Não estamos sozinhas. Temos as autoridades connosco.
Convidadas a falar, fez-se silêncio geral. E então, porra! Ninguém tem nada a dizer?, gritou Clotilde, lançando um olhar gélido sobre o mulherio. A medo, um, dois dedos levantaram-se acima das cabeças. E foi então que tomou a palavra a Berta de Gimonde, carão largo e curtido pelo vento, dona de grossa manada barrosã e de abastado pecúlio, ameaçado de ruína pelas loucuras de Jacinto, acabado de fazer 82 viçosas primaveras.
O diabo do velho anda maluco e só me cheira a putas e vinho!, bradou Berta erguendo o cajado com que apascentava o gado no planalto. Derrete-me o que tanto me custou a ganhar com uma dessas vadias, completou, já chorosa, amparada pelas que a ladeavam. Outra, mais afoita, logo completou: Isso foram flores que lhe puseram no cruzamento dos caminhos. E todas disseram que sim, pois que não havia dúvida, só podia ser obra do diabo.
E logo uma dúzia de vozes se ergueram, denunciando umas as necessidades que já passavam em casa e outras o pé-de-meia que ameaçava derreter-se como manteiga ao sol. Quiseram ouvir a posição do senhor prior. O padre sacudiu as mãos amarelas e bolorentas. Eu só estou aqui para ouvir e transmitir o que se passa ao senhor bispo, defendeu-se. E a comandanta? O que pensa a comandanta?, bradou o mulherio. A chefe da polícia entortou ainda mais a boca e lá fez saber: Nós vamos defender as pessoas de bem.
Palmas. Festa no salão paroquial. Ensaiavam-se uns passos de dança e gritava-se A comandanta está connosco! quando Clotilde deu a palavra a uma mulher ainda jovem que levantara a mão a pedir a vez. Todas a olharam, a maioria com azedume porque além de nova era bonita, o diacho da cachopa. E pelos quatro cantos ouviu-se: Olha a professora de Samil, mas o que é que esta quer?

Com serenidade, ignorando os olhares de soslaio, quase hostis, que lhe lançavam, Ana Rita, 28 anos, cabelo bem penteado cor de cobre, perna e busto torneados, óculos último modelo, lábios pintados, salto alto, professora de Matemática, perguntou: E se a culpa for nossa?… E logo caiu o céu e a terra em forma de impropérios para todos os gostos, o que levou Clotilde a pedir ordem, conseguindo-o com dificuldade, não sem que ainda se ouvissem um Ordinária, estás feita com essas vacas! num canto e Querem lá ver que esta também é puta? no lado oposto.
Sem perder a calma, a professora conseguiu fazer-se ouvir: Aquilo que eu acho é que ninguém aponta uma pistola aos nossos homens. E se lá vão não será para encontrarem algo que não têm em casa? Silêncio geral. Todas se entreolharam. E foi o prior quem voltou a falar, indignado. Aquilo que a senhora doutora propõe é uma imoralidade! Saiba que está a falar com senhoras de sólida moral e bons costumes! Foi o mulherio, pasme-se, quem o silenciou. Cala-te, ó sacristona, e deixa a rapariga falar! Amuado, o padre depressa perdeu o pio. E logo se voltaram de novo para Ana Rita.
Vocês sabem aquilo que quis dizer, prosseguiu a professora. Eles vão lá à procura de mimos, de agrados. Ora isso também podemos nós dar. Ou será que não? Ouviram-se quatrocentas vozes: Mas claro que sim! O que têm elas que nós não tenhamos? E logo ali se agitaram mamas, menearam ancas e rebolaram quadris, cada uma querendo mostrar à outra o que de melhor tinha. A um canto, ouviu-se mesmo gritar: Ó filha, por mim acho muito bem. Eu sempre quis ser uma lady na mesa e uma vadia na cama! E logo outra se ouviu: Já sei como é que vai ser com o meu Zé. Ó filho, queres? Dinheiro na mão, calcinha no chão; dinheiro sumiu, calcinha subiu! E outra ainda: Ai que eu bem queria, mas o motor de arranque do meu Manel já não pega!
E estava assim a reunião quase desvirtuada quando Clotilde lembrou ao que vinham e antes que a coisa descambasse ainda mais sugeriu que se passasse à votação do documento, o que foi feito sem surpresas quanto ao resultado – aprovado por unanimidade e aclamação, tendo ficado também decidido enviá-lo ao senhor bispo, ao senhor presidente da Câmara e ao senhor governador civil. Quanto ao resto era esperar, ver até onde aquele tsunami iria e quantos iria afogar.
E foi assim, em clima de festa, que quatrocentas bragançanas saíram do salão paroquial da Igreja de Santa Clara às 20 horas e dois minutos daquela quinta-feira. Exactamente naquele instante, a 170 quilómetros em linha recta, 210 por estrada, Quitério e o seu grande amor entravam no Airbus que os havia de conduzir a essa Paris que ela tanto queria ver. Olhos castanhos enormes e rasgados, muito pintados, cabelo escuro anelado a cair-lhe pelo meio das costas, impecáveis dentes brancos, pagos em tempos que já lá iam por um coronel do Nordeste do outro lado do mar, vestido de alças de cabedal quarenta centímetros acima do joelho, três quartos das avantajadas mamas de fora, casaco de pele curto a mostrar tudo, sapato aberto de salto fino, lábios carnudos, pulseira de brilhantes e relógio Cartier oferecidos pelo mais que tudo, curvas mais do que muitas em corpo violão, Danizinha não cabia em si de contente, espreitando o saco em que seguiam, acabadinhos de comprar no free-shop, a mala Dior e o frasquinho Red Door, de Elizabeth Arden.
A hospedeira da executiva ofereceu-se para lhe colocar o casaco no compartimento dos arrumos, mas Danizinha recusou e foi ela mesma quem se esticou para o guardar, o que fez levantar o palmo do vestido que lhe tapava o fio dental e virar as cabeças dos dois homens, certamente empresários ou quadros superiores, que seguiam nos bancos do lado. Já Quitério, agora de calça de couro preto, cinto largo com grande fivela dourada, as botas de tacão alto que já conhecemos, e com uma T-shirt branca nova, com os dizeres Faz-me um bico, não gostou daquelas liberdades e lançou um olhar assassino àquelas hienas, prontas a roubar o pedaço de carne que ele, leão de Bragança, caçara com tanto sacrifício.
Arrumado o casaco, Danizinha sentou-se à janela e bateu palminhas. Estamos indo, meu amoorrr… Ai, estou tão ansiosa para ver Paris. E dava-lhe beijinhos no pescoço a cheirar a Pizza Hut, fazia-lhe festas nos bigodes e nas orelhas peludas. Quitério, mais satisfeito, endireitou-se no banco e olhou triunfante para os abutres, que baixaram o bico. Conta para mim, amooorrr, como se chama mesmo esse hotel para onde vamos? Incomodado porque aquelas coisas do francês não eram o seu forte, lá respondeu: É qualquer coisa assim lá para os lados dos Campos Alíseos.
Com os motores já a ronronar, Danizinha voltou à carga: Amoorrr, você me leva a ver a Mana Elisa? Quitério olhou-a, surpreendido. Xuxu, não sabia que você tinha uma irmã em Paris! Ela sorriu, com ar condescendente, e esclareceu: Não, amoorrr, isso é um quadro muito famoso, pintado aqui há uns anos por um tal de Leonardo que todo mundo conhece. Ele voltou a mexer-se no banco. Que grande porra!, mas ele sabia lá quem era essa tal Elisa! Ainda se ela lhe fizesse perguntas sobre o Benfica, isso é que era! Mas não, vinha com aquelas coisas da cultura! Queres lá ver que ainda havia de querer ir à Torre do Fel? E ele que arquitectara reduzir aquela viagem de uma semana, caríssima!, às quatro paredes do quarto!
Olhou-a. Apesar de tudo, não podia levar a mal fosse o que fosse à sua xuxu, uma mulher assim tão culta, tão prendada. E ainda por cima com um par de mamas que valha-me Deus! E estava ele nestes pensamentos, já com o avião no ar, quando a hospedeira se voltou a aproximar para perguntar se queriam beber alguma coisa. Quitério fez que não, pois já gastara uma fortuna no free-shop, mas quando soube que nada teria de pagar logo pediu um whisky. Novo ou velho? Pois que novo, assim sempre dava um ar mais moderno. E com gelo! Danizinha soprou-lhe ao ouvido: Amooorrr, dá um champanhinho para mim, dá? Ele fez um sorriso amarelo, coçou o bigode e fez que sim. Me traz um Dom Pérignon, por gentileza, pediu ela. E a garrafinha lá veio, vintage, pois claro, e com a mesma a conta de oitocentos euros que logo o fez entalar-se e cuspir os cubos de gelo para cima das hienas, que sorriam.

Uma hora depois, já a meio da viagem, ainda com Quitério em estado de choque, Danizinha levantou-se para ir no banheiro, o que fez rebolando uns quartos traseiros que só lhe faltavam falar, pelo menos era assim que ele os via e ao que parece também os abutres, agora com um torcicolo a espreitarem para o corredor. Resignado, Quitério encolheu os esquálidos ombros. Pois que olhassem! Olhar não tira pedaço! Apesar destes pensamentos, não pôde evitar girar ainda com mais força o meio palito, já podre, que trazia na boca.
Danizinha regressou ao lugar a fazer biquinho. Incomodado, perguntou-lhe o que tinha, mas ela continuou amuada. Ao fim de mais 10 minutos de silêncio, já desesperado, insistiu: Xuxu, o que é que você tem? Ela ergueu os enormes olhos e, com ar dengoso, murmurou: O meu amooorrr já não gosta mais de mim… Mas porquê? Que não, que disparate! Tinha ficado apenas um pouco aborrecido com aquela conta calada. Mais nada. Festinha nos pêlos da orelha. Jura para mim? E ele jurou, beijando mesmo repetidas vezes o dedo médio e o indicador em sobressalto.
E o resto da viagem foi passado cabecinha com cabecinha, calça de couro a roçar aquela escandalosa pernoca ali tão à mão. Já perto de Paris, Danizinha voltou a fazer um ar triste. O que foi agora, xuxu? E ela contou, saudades de casa que eram tantas que a felicidade deles jamais poderia ser total. Quitério sorriu. Pois não seja por isso! Marca-se já uma viagem para o Brasil! Pois se fosse isso, mas não. E então era o quê? Após um breve momento de silêncio, ela pegou-lhe nas mãos e disse: Amooorrr, você me ama? Ele disse logo que sim, pois que dúvida! Eu tenho uma coisa para contar a você…
E contou. De como tinha dois nenéns lá longe, que morriam de saudade da mamãe e ela deles. Quitério tudo escutou em silêncio, fazendo hum-hum. Cofiou o bigode espanador, coçou os tomates e sentenciou: Pois venham de lá esses bezerros! Dito isto Danizinha saltou-lhe para o colo e fez-lhe um cafuné que chegou mesmo a deslocar o capachinho. Já com dores nas cruzes, sugeriu-lhe que se voltasse a sentar. Vendo-o assim dorido, já mais calma, embora com o coraçãozinho ainda aos saltos naquele peito que ai Jesus, perguntou: Amoooorrr, você trouxe os comprimidos? Que sim, pois claro. Para a ciática, para a tensão, para o colesterol… Nova pergunta, agora com as hienas de ouvido bem à escuta, E o azul, amooorrr, trouxe o comprimidinho azul?…

 

III – Duas horas depois de aterrarem no aeroporto, eis que vamos encontrar Danizinha e Quitério devidamente instalados na esplanada do Le Sault du Loup, restaurante chiquérrimo com vista para a Torre Eiffel. E estavam assim aboletados, com o Leão de Bragança a tirar as medidas às vistas, que é como quem diz às pernocas que por ali andavam, quando deles se abeirou um empregado de porte impecável, fato preto, camisa branca, lacinho, sapato devidamente engraxado. Bonjour, Madame et Monsieur. Qu’est-ce que vous voulais? Ele mediu-o de cima abaixo e logo retorquiu: Bolos agora não, obrigado. Nós queremos mesmo é comida. E dito isto acendeu um cigarro na lixa do tacão da bota, o que fez derreter a sua mais que tudo, impressionada com a queda para as línguas do seu xuxu.
Imparável, Quitério pigarreou, aclarando devidamente os gasganetes, e atirou: Nu quer manja. Palavras que tinha decorado e que, está bom de ver, denotavam um nível de aprendizagem que não está ao alcance de qualquer um. Imperturbável, o criado respondeu: Biensur, Monsieur. Ratatouille où coq au vin? Ele arqueou o sobrolho. Fosga-se, ratos e cocó? Mas que merda é essa que vocês comem, carago? O outro retorquiu: Monsieur, je suis desolé, mais je ne comprends pas. E dito isto lançou um sorriso a ambos, especialmente a Danizinha. O Leão de Bragança empertigou-se. Ouve lá, ó frufu, tu aqui não compras coisa nenhuma, ouviste? A sua mais que tudo tentou apaziguar a situação, que acabou por ser salva de forma airosa porque o menu tinha fotografias, acabando por vir para a mesa uma quiche lorraine, degustada com três garrafas de Chablis e para acabar profiteroles, café e dois cognacs.
Depois do repasto, Quitério fez menção de recolher ao hotel, não porque lhe apetecesse comer mais alguma coisa, mas porque estava esgotado de todas aquelas andanças e, acima de tudo, em estado de choque com a conta que lhe fora apresentada. Talvez por tudo isso, nada lhe parecia agora mais apetecível do que uma boa sesta, até porque havia que fazer render aquelas almofadas de seda, parcela de uma diária que lhe custava uma pequena fortuna.
Danizinha fez que não. Que gostaria de ir visitar a Esplanada dos Inválidos, que a Simone, conhecedora como poucos de Paris desde que saíra da não menos cosmopolita Arapiraca, farol de Alagoas, e que fora para a Cidade Luz por amor, levada pela mão de um varonil gaulês de 94 anos, que entretanto morrera na hora da coisa e tal e a fizera rumar a Bragança, assegurava, dizíamos, que era sítio de um encanto sem par.
Quitério torceu o nariz. Bocejou, esperando que a sua mais que tudo se condoesse de tamanha fraqueza, mas Danizinha insistiu. Que não tinham vindo a Paris para irem agora passar o tempo a dormir. Que não senhor! Iam aos Inválidos e depois às Tulherias, zona também muito recomendada pela Simone. Ele esbracejou. Ver aleijadinhos e depois montes de entulho. Ora adeus! E tinha sido para esta porra que tinham saído de Bragança…
Para sua grande surpresa, Quitério abriu a boca de espanto mal se apearam de táxi nos Inválidos. Sim senhor. Que largueza! Aquilo é que eram vistas!… Relva aparadinha a perder de vista, capaz de sustentar duas manadas de bois, e das grandes, e um casarão que dava para albergar meia Bragança, isto na altura do Verão, em que há mais gente com os emigrantes. E depois aquele pináculo, daquela igreja ou lá o que era aquilo, tão alto que lhe fazia lembrar o castelo de Tourão, pendurado ali para as bandas da serra da Nogueira.
Atraído pelo pináculo, já despeitado por ver a grandeza da sua Bragança assim desafiada, deu-lhe vontade de trepar até ao alto daquela coisa, o que fez com grande esforço e com Danizinha a bufar atrás de si escada acima, seguida por duas dúzias de turistas, todos machos e também eles a arfar, embora por outros motivos. Chegado lá acima, Quitério espreitou as vistas e fez um trejeito de menosprezo. Nada que se comparasse a Tourão. Dali não se via um palmo de Vimioso, Outeiro ou Miranda. E de Espanha nem sinal. Bah! Valha-nos que, pelo menos, não havia ali aleijadinhos.

Visitados os Inválidos, foi um corre-corre para as Tulherias, até porque Quitério não via a hora de fisgar as bifanas e o meio salpicão que, à cautela, trouxera lá da terra. Mais uma viagem de táxi, desta feita por entre tamanha multidão de carros que eram mais do que todas as ovelhas, cabritos e bois bragançanos. E é preciso ter em atenção que estes últimos eram muitos. Especialmente desde a chegada das meninas vindas das partes quentes deste mundo.
Chegados às Tulherias, nova boca de espanto. Uma avenida que dava cinco em largura das maiores que conhecia, erva que depois de cortada daria de comer a todo o gado transmontano, e no meio um lago que levava mais água do que o Sabor e com esguichos para dar banho aos peixes. Sim senhor, aquilo é que era gente asseada! Quanto a entulho, nem vê-lo.
E foi já derreado e com a noite a cair que regressaram ao hotel. Ali chegados, atirou-se para cima da cama, tirou as botas – e esta foi a primeira verdadeira alegria do dia, que os pés doíam-lhe que se fartavam – e esticou uma manápula em direcção à mesinha de cabeceira, onde repousavam as bifanas e o meio salpicão, mas a única coisa que encontrou foi a mão delicada da sua fofura, que logo lhe foi dizendo que não tinham vindo a Paris para comer aquelas porcarias.
Com a morte na alma, Quitério sentou-se na cama e ali se deixou ficar uns segundos, cabeça entre as mãos, a olhar para a unha imunda do dedo grande do pé que emergia da meia rota. E então haviam de ir onde? Danizinha foi à mala Dior e dali tirou a lista fornecida por Simone. Restaurante para jantar? O Goumard, pois então. Ele concordou. Ai vão gamar, vão. Isso é certinho! E isso fica onde? Ela pronunciou: na Madeleine. Fosga-se!, pensou. Coçou uma orelha com a unha do dedo mindinho e dali retirou um pedaço de cera. Daqueles bem escuros. Madalena só conhecia a de Gimonde, que fazia uma posta barrosã que era de comer e chorar por mais. Está-se mesmo a ver que há nomes fadados para estas coisas da culinária. Pois então ala que se faz tarde!
Lá foram para a Madeleine. Sítio fino o tal Goumard, sim senhor. Pena o criado com billy cream, delicadérrimo, aperaltado com lacinho, que olhou com ar reprovador para os pêlos que lhe saíam do umbigo, entretanto postos à mostra pela T-shirt que acompanhava as curvas da pança. Se fosses sapateiro olhavas-me para os sapatos!, rosnou, ao mesmo tempo que se refastelava no cadeirão e olhava em redor com ar feroz, pondo em respeito os abutres de bico afiado que tiravam as medidas a Danizinha.
O rameloso do criado estendeu-lhes uma lista e colocou na mesa duas taças com bolinhas pretas por cima de pequenas bolachas. Quitério, poliglota dos sete costados, logo atirou, apontando para a iguaria com ar de nojo e suspeitando que era caca de borrego: Que zeza? Desdenhoso, o mariconço respondeu: Caviar… Furioso, o leão de Bragança levantou-se de um salto e atirou-se aos gargomilos da criatura: Tu vais aviar mas é o raio que te parta! E foi com grande esforço que funcionários e clientes o impediram de cometer ali uma loucura, acabando ambos por ser postos na rua, o que muito entristeceu Danizinha.
Foi assim com a pena em baixo que Quitério regressou ao hotel, onde se atirou com vontade ao meio salpicão e às bifanas, tudo devidamente regado com água da torneira com cheirinho a formol. Danizinha, desgostosa quer pelo escândalo quer por não ter provado as delícias do Goumard, deixou-se ficar num canto a ruminar uma sandes de carne de porco impregnada de óleo, cujas gotas lhe caíam, gulosas, pelo generoso regaço.
Com a alma assim reconfortada, Quitério rendeu-se ao cansaço causado por semelhantes afazeres e depressa se encontrava a resfolegar de bandulho para o ar, sem sequer reparar na beleza do estuque que recobria o tecto. E estava em semelhante estado de inocência quando deu com a sua mais que tudo a brincar aos cavalinhos. Credo, filha, que me partes as cruzes! Foi aliás feito num oito que o fomos encontrar, manhã cedo, de penacho caído e ainda dorido de corpo e alma.
Para aquele dia, mais exactamente o segundo em Paris, Danizinha seguira um esboço que lhe fora aconselhado por Simone – visitar o Louvre de manhã, almoçar no carérrimo L’Ambroisie e seguir em passeio até à catedral de Notre-Dame, acabando tudo com um jantar num bateau-mouche em pleno Sena. Isto se o tempo estivesse de feição, como aliás parecia ser o caso. Quitério propôs um plano alternativo – dar uma volta pela beira-rio, ganhar apetite para o almoço num sítio onde se comesse a sério, ir ao Parque dos Príncipes, e com sorte ainda veriam o Pauleta a dar uns chutos na bola, e pela noitinha, ceia no Pital, onde parece que havia um moinho em que se comia que era uma maravilha e, pormenor não despiciendo, se regalava as vistinhas com umas moçoilas que valha-me Deus. Pelo menos fora o que lhe afiançara Picolé, conhecedor como poucos dos segredos de Paris.
Danizinha sacou do livrinho onde apontara minuciosamente todos os conselhos de Simone. Pital, Pital, Pital. Nada. Pois estava decidido – iriam para o Louvre. E não havia tempo a perder. Depressa para o banho e vestir. Quitério, desarmado, lavou os olhos com as pontas dos indicadores e, homem asseado, pôs para lavar a T-shirt que trazia e vestiu outra, onde se lia a toda a largura do mirrado peito: Aqui vai um lésbico assumido! Já reanimado, foi com ar de grande senhor e a coçar os tomates que transpôs o lobby do hotel, levando com sobriedade e elegância pelo braço a sua Danizinha, saia de pele encarnada a esconder dois quartos das bamboleantes nádegas, indo o restante a descoberto.

Atravessado o Sena e entrados no Louvre, ali admiraram uma senhora maneta, embora com lindos seios e melhores curvas, estátuas de belas raparigas, embora sem narizes, outras de magníficos cavalos e homens nus com pilas pequeninas, rabiscos antigos sem interesse nenhum da Babilónia, fosse lá onde isso fosse, vasos mal pintados que nem sequer eram novos com figuras esquisitas, caixões de rico mármore mas estragados, acabando mesmo por se verem numa grande fila de gente para espreitarem uma lambisgóia de sorriso estúpido e cabelo escorrido que lembrou a Quitério a santinha de Baltar.
Com a manhã perdida, puseram-se então a caminho do L’Ambroisie, embora só depois de ele ter jurado à sua mais que tudo que desta vez se iria portar como um senhor. Resignado, Quitério engoliu num ápice o primeiro prato, um minúsculo lagostim com sementes de sésamo; mais depressa do que um colibri depenica uma flor, o segundo, um ovo com a porcaria das bolinhas pretas; e finalmente desistiu do terceiro, cascas de caracóis regadas com anis. Desalentado, comeu a sobremesa, dois morangos com chantilly, bebeu o resto da garrafa Saint-Hilaire e pediu mais duas, engoliu o café e saíram. Chegado à rua vomitou. Não saberia dizer se pelas porcarias que emborcara se pela conta de 1.700 euros.
A caminho da Île de la Cité, já nas proximidades do Hotel de Ville, na margem direita do Sena, Quitério não pôde evitar abrir a boca de espanto face à proximidade de Notre-Dame. Sim senhor, aquilo é que era uma obra! Fazia até lembrar as rendas da mãe de Guilhermina, essa megera que a terra já engolira. Lindas janelas, ricos tectos e turistas para todos os gostos, especialmente para ele, entendedor daquelas artes – belas caixas torácicas, pernas postas de pescada do Chile número cinco, quadris de parideiras. Um mimo!
Quem também chamou um mimo aos turistas – e com proveito, suspeita-se – foi Danizinha, especialmente quando deles se abeiraram dois argentinos, cabelos a escorrer azeite, rostos afilados, barbas de três dias, óculos de sol à matador e T-shirts do Maradona, enfim, gingões que logo fizeram suspeitar que dali não vinha coisa boa. Queriam saber como se ia para as Tulherias. Quitério fez saber que de espanhol nada sabia e que o melhor seria desandarem. Ela, porém, sabia umas coisas da língua de Cervantes, aprendidas nas noites de Zamora, e logo ali, alma generosa, se prontificou a mostrar-lhes o caminho.
Quitério, desconfiado de semelhantes abutres, fez menção de continuar o caminho para a catedral, pois tinha sido para isso que para ali tinham ido. Danizinha mostrou-lhe o indicador em riste. Que estava a ser indelicado com gente que precisava de ajuda, que estava perdida em terra estranha e que isso era uma grosseria, especialmente tendo em atenção que se tratava de dois senhores tão educados e bem-postos.
Ele anuiu, contrariado. Mas que se quisesse mostrar-lhes o caminho que o fizesse sozinha, que ele não estava para esse trabalho. E depressinha. Danizinha fez-lhe uma festinha nos bigodes e num ápice desapareceram os três no Quai de Gesvres. Quitério decidiu-se a esperar. Fumou um cigarro, depois dois, logo três. Bufou primeiro. Suspirou depois. Afinal que sucedera à sua mais que tudo? Teria sido apanhada pela ladroagem? Mas não. Ei-la que chega, mais radiosa que nunca, embora com um andar um pouco trôpego. Seria decerto do Saint-Hilaire.
Quem também ficou tonto foi ele quando entraram na catedral. Deslumbrado com os azuis e os dourados, foi ainda atordoado que conseguiu sentar-se, o que só fez porque foi ajudado pelo seu docinho, a qual, ao debruçar-se para o amparar, ficou com quatro quintos das nádegas à vista, o que fez dois velhos esborracharem-se contra uma coluna e um padre estatelar-se ao comprido no chão de mármore. Acharam por bem benzer-se e dar a visita por acabada. À saída, cruzaram-se com um casal de católicos portugueses. A senhora, tiazoca de Cascais, abriu a boca quando leu os dizeres da T-shirt Aqui vai um lésbico assumido! Despeitada, deixou escapar um Ordinário. Sem deter o passo, Quitério atirou-lhe: O que querias tu sei eu… e dali saiu com a sua mais que tudo para a rua.
Era chegada a hora, enfim, do passeio no Sena. Quitério entrou a medo no bateau mouche. E se aquilo fosse ao fundo? Impossível, sossegou-o Danizinha. E se viesse uma onda alterosa e os atirasse àquelas águas tão escuras? Não, aquilo era um rio calmo, feito para aquelas coisas. Veio o jantar, acompanhado ao piano. Tudo muito fino. Ele não gostou. A agitação suave da embarcação enjoou-o. Começou por ficar amarelo e finalmente verde quando viu a conta. Paris era uma festa, pois então!

E estava Quitério já cá fora, procurando descobrir qual o melhor caminho para o hotel, a amparar-se debruçado como podia a uma parede, com Danizinha à ilharga, quando sentiu alguém encostado aos quartos traseiros. Aquele Quem tiver cu que fuja! ecoou por meia Paris. Era, está bom de ver, o amigo Picolé, acompanhado pela Fernandinha, que fora aliás quem denunciara a presença dos dois por aqueles arrabaldes.
Abraçaram-se. Picolé todo ele emoção por encontrar o companheiro dos sete costados tão longe de Bragança, Quitério ainda enjoado, não saberia dizer se pela conta do restaurante se pela caspa que cobria as ombreiras do casaco do amigo. Fernandinha, ou melhor, Fernandinho estendeu-lhe a face e ele apertou-lhe a mão. Que ainda via bem, obrigado. Quem não se fez de rogado foi o ilustre jornalista, que deu duas sonoras beijocas a Danizinha, ao mesmo tempo que lhe punha a mão onde não devia e dizia: Ó filha, tens uma carinha de modelo, mas o teu rabinho é um continente!
Despeitado, Quitério quis tirar desforço logo ali, abrindo os braços e gritando: Ai que eu mato-o! E logo se engalfinharam os dois, embora sem grande convicção, o que não obstou a que despertassem a natural curiosidade de quem passava e que chamassem mesmo a atenção de uma jovem gendarme que deles se aproximou com cara de poucos amigos. Mais qui se passe t’il? Bon, bon… Eles, à vista de tal autoridade, logo se apartaram. Danizinha e Fernandinha, aflitas, faziam de conta que não era nada com elas, não fosse o diabo tecê-las e serem recambiadas de volta para os paradisíacos Brasis.
Que não era nada, pois então, explicou um atrapalhado Quitério. Apenas um reencontro de amigos. E ao dizer isto procurava arranjar o ralo penteado lambido do seu parceiro de andanças, ao mesmo tempo que o estreitava num sentido abraço. Já Picolé, com a língua de fora, olhava com ar guloso para a prateleira da gendarme. Chiça, que com umas bóias dessas o Titanic não ia ao fundo… A agente mirou-o, de cima para baixo, e grunhiu: Quoi?…
Quitério, aflito, procurou silenciar o amigo. Sabia-se lá se naquelas paragens os franciús não teriam tradutores automáticos. Que se calasse de uma vez, que ele não estava para sarilhos e Bragança ficava longe. E logo levou troco: Pois que ficasse! E o Cais do Sodré ficava ainda mais! A ele, Picolé, ninguém o calava! E dito isto desabraçou-se e num só olhar tirou as medidas à gendarme. Ó filha, tu com um rabinho desses deves fabricar bombons…
A gendarme, mulherão de um metro e oitenta, deu um passo em frente e o rosto magro e encovado de Picolé desapareceu no meio da prateleira, ficando só com a careca à mostra. Quoi?, grunhiu ela outra vez olhando para baixo. Com voz abafada por tantas carnes, lá se fez ouvir a resposta: Eu só disse que tens um rabinho que parece uma cebola. É de comer e chorar por mais… A mão dela agarrou-o pelo colete e fê-lo subir uns vinte centímetros do chão, ficando com os pezinhos a dar e dar. O bofetão que levou, apesar de valente e de o ter projectado a uns bons três metros, não evitou que todos ouvissem as suas palavras: Eu sou filha de emigrantes, minha grande besta!
Dois minutos depois, lá iam todos algemados numa carrinha da Gendarmerie. Elas chorosas, Quitério como um leão enjaulado e a espumar. Como lhe pudera suceder semelhante coisa? O que ia pensar dele a sua Danizinha? E Picolé a olhar para a prateleira da gendarme, transformada num baloicé com os solavancos da estrada. E já lhe ia a dizer que se caísse tinha onde se agarrar quando ela, adivinhando o que ia em tão impura mente, lhe deu novo e brutal estalo. E se já não via bem, pior ficou com a bofetada que o atirou para cima dos outros. E foi assim que passaram, feitos embrulho, pelos portões que davam acesso à cadeia.
Foi com natural desgosto que Danizinha se viu assim separada do seu mais que tudo, dando entrada chorosa na cela para onde foi conduzida e onde a aguardavam olhares gulosos de fêmeas com os gostos trocados. Já Fernandinha não pôde evitar bater palminhas quando a trancaram com dois calmeirões que lhe chamaram um figo. Quanto a Quitério e Picolé, acabaram por ficar com uns galfarros com um ar que fez o primeiro apertar as bordas dos quartos traseiros e o segundo gritar: Quem tiver cu que fuja!
Três dias depois, todos os quatro compareceram perante uma juíza velha, feia e com ar de quem não estava ali para brincadeiras. Danizinha ia lacrimosa e de olheiras profundas; Fernandinha com um ar radiante e a suspirar, já com saudades dos dois nigerianos com quem a tinham trancado; Picolé a dar um jeito à careca, a encher o peito de ar e a tossir, ao mesmo tempo que dizia à guarda que os tinha prendido e os levava agora a tribunal: Podia ficar um mês a cagar trapos, mas comia-te com farda e tudo!; já quanto a Quitério, deu ali entrada cabisbaixo, com um andar novo, e tendo recusado mesmo, por motivos que não vêm agora ao caso, o convite feito pela meretíssima para que se sentasse.

O que a juíza tinha para lhes dizer durou pouco – que era inadmissível o seu comportamento e que só não ficavam mais tempo presos porque seriam recambiados sem demora para Portugal. Nenhum percebeu patavina do que ali se passou. Convidados a pronunciarem-se, todos se calaram. Foi apenas quando a meretíssima insistiu: Mais, parlez!, que Picolé, ainda com um olho fechado do bofetão que levara, se lhe dirigiu: Olha, filha, já comi pior do que tu e a pagar… Quitério, desesperado, pensou se ao menos o deixariam comprar vaselina quando regressassem à prisão. Valeu-lhes que a velha abriu os braços, como que a dizer que não tinha percebido nada, e mandou-os embora, sempre escoltados pela gendarme, com ar de poucos amigos e a bufar, desta vez direitos ao aeroporto.
Já no corredor, Picolé deixou-se ficar um pouco para trás e ficou a tirar as medidas à gendarme que seguia à sua frente. Passa-se alguma coisa?…, grunhiu a guarda. Ele respondeu: Tanta carne e eu em jejum… E pronto! Mais um bofardo. Desta vez no olho que ainda pouco via. Logo acorreu a Fernandinha. Sua bruta! Dito que também lhe valeu um estalo, ficando logo ali a chorar baba e ranho. Estendido ao comprido e aos tombos, o filho do Cais do Sodré lá se levantou. Abrindo a custo um dos olhos, o arauto da imprensa de Bragança fez-se ouvir: Chiça, que a rapariga é uma besta!
Escusado será dizer que foi um Picolé esfrangalhado que foi atirado para bordo do avião que os haveria de trazer de volta a este Portugal que deu novos mundos ao mundo e tantos ensinamentos levou a tantas partes. Apesar desse estado, amparado pelos amigos, isso não o impediu de dizer à passagem da primeira hospedeira: Ó filha, o teu pai devia ter a régua torta para te fazer com curvas assim… A rapariga, claro, não gostou e foi queixar-se aos comissários. E foi assim, com o filho do Cais do Sodré amarrado a uma cadeira e amordaçado, qual brutal censura a lembrar a mais escura das noites, que regressaram a solo pátrio.

 

IV – Uma semana e três dias depois dos acontecimentos acabados de relatar, Bragança estava virada do avesso – a comandanta recebera reforços e multiplicava as rusgas por todo o lado; dezenas de jornalistas, vindos de Lisboa e de outras partes do estrangeiro, interrogavam meio mundo sobre como era viver no novo bairro vermelho da Europa; autocarros de excursionistas estacionavam onde quer que fosse para ver as meninas e, se possível, prová-las; vários prédios e casas da cidade ostentavam agora grandes cruzes vermelhas, marcas de sangue pintadas pela calada da noite pelos esquadrões de caça das mães de Bragança.
Sob orientação de Clotilde tinham-se criado, de facto, vários pequenos grupos de mães robustas e destemidas, num dos quais pontificava, está bom de ver, a nossa Guilhermina, que de trincha em punho pintava madrugada alta as casas das piranhas, para que todos soubessem onde morava o demónio e quem ali entrava. Ao mesmo tempo, o senhor bispo desdobrava-se em entrevistas e clamava que era preciso acabar com aquele despautério, no que era seguido pelo presidente da Câmara e pelo governador civil, argumento logo aproveitado para que fossem espancadas, em plena luz do dia e à vista das autoridades, meia dúzia de amores-perfeitos. O que era uma tristeza que metia dó. Pelo menos era assim que os bragançanos o viam.
Mas havia algo mais nessa nova Bragança – as mulheres estavam vistosas, muitos maridos iam cedo para casa e havia mesmo sorrisos na cara das consortes quando, manhã cedo, saíam à rua. O mais satisfeito de todos era, sem dúvida, o Manuel da Farmácia, que vendia Viagra como quem vende bifanas em dia da bola. Porém, fosse pelas rusgas da comandanta, fosse pela perseguição dos jornalistas, fosse pelo medo causado pelos esquadrões de caça de Clotilde, a verdade é que pelo menos meia centena de meninas tinham decidido abandonar a cidade com armas e bagagens, mudando-se para Zamora.
Alarmados por este estado de coisas e pelo que o futuro augurava, decerto nada de bom, cabeleireiras, floristas, empresários de restauração, senhorios, vendedores de trapo e de calçado, taxistas, bruxas e curandeiras, enfim, meia Bragança, tinham decidido reunir-se no maior restaurante da cidade, com sala para 300 cabeças, propriedade de António das Gaitas, também ele já com a mioleira a desapertar para a esquerda antevendo escassez de clientela.
E é assim que vamos encontrar esta gente ali espremida, logicamente que à hora de almoço, sob a tutela do promotor da iniciativa, Valdemar das Pombas, também conhecido por O Pinóquio, dono de cinco das 12 casas de alterne de Bragança, e do mirrado Justino do Paço, amigo do peito de Quitério e, na qualidade de lídimo representante dos senhorios, naturalmente preocupado com a míngua das rendas, face à deserção das meninas.

Tomado o café, engolida a aguardente, Valdemar, antigo futebolista do Vinhais Futebol Clube, onde angariara os tostões necessários para, há 20 anos, pôr a primeira pomba no ninho, ou seja, a render no monte, pigarreou para aclarar a voz, escarrou para o lado e deu um último jeito ao impecável fato de seda cinza, à gola da imaculada camisa branca, ao grosso cordão de ouro que trazia ao pescoço com uma placa onde se lia Amor de filhos e atirou para trás os cabelos encaracolados e pintados de louro que lhe desciam até meio das costas.
Amigos e vizinhos, começou o Pinóquio, pondo-se de pé à cabeceira da mesa que ocupava. Todos sabemos os motivos que nos trouxeram aqui – porque nos querem impedir de ganharmos a vida de uma forma honesta! E dito isto olhou em redor, à espera de palmas que não ouviu. Bom, prosseguiu, o que importa saber é que decisões vão sair daqui para que essas papa-hóstias não levem a delas avante! Dou a palavra ao senhor Justino do Paço.
Espremendo-se na cadeira contígua à de Pinóquio, com as cruzes feitas num oito pelas brincadeiras havidas na noite anterior com a dominadora Simone, a sua mais que tudo e com casa posta na Rua de Santo António, junto aos Correios, Justino lá se pôs de pé e endireitou-se do alto do seu metro e cinquenta e oito. Tossiu, escarrou sangue para o lenço branco que trazia no fato, e falou: Confrades, todos sabemos que o momento é grave. Como disse e muito bem o amigo Valdemar das Pombas, aqui presente, que vai ser de nós se as meninas, fruto das acções dessas beatas, decidirem abandonar a cidade? Quantas lojas, cafés e restaurantes vão fechar por falta de clientela? E logo 150 dos presentes disseram que Sim, senhor. É bem verdade. Será uma tragédia! Quantas floristas e taxistas vão ver as suas flores murchar e os motores apodrecerem por falta de uso? E mais 150 logo gritaram, pondo-se de pé: Isso não pode ser! Era só o que faltava! Temos de acabar com esta merda!
Justino abriu os braços e pediu calma. Os espoliados, pelo menos era assim que se sentiam, resfolegaram, mas lá acabaram por se voltar a sentar. Temos de ser espertos, muito espertos, pois as papa-hóstias estão bem escudadas. São, como sabem, apoiadas pelo senhor presidente da Câmara (assobios), pelo senhor governador civil (patadas), enfim, pela comandanta (berraria: Machona! Morra a machona!). O que importa saber é que apoios temos nós, continuou o palestrante. Será que o senhor bispo nos apoia? E nessa altura voltou-se para o prior, presente nesta reunião porque fora convidado, porque todas as ovelhas fazem parte do rebanho do Senhor e porque, enfim, também ele ia às meninas. O padre limitou-se a endireitar as lunetas, a sacudir as mãos amareladas e a dizer: Eu só estou aqui para ouvir e transmitir o que se passa ao senhor bispo. Logo se ouviu, vindo do fundo da sala: Vai-te embora, ó sacristona! Tu e o bispo vão mas é levar na bilha!
Justino, homem ponderado, serenou as hostes e voltou à carga: Já se viu com que apoios contamos. Ou seja, com nenhuns! Mas temo-nos a nós e a nós ninguém nos quebra! Aplausos. Ouvem-se os primeiros Viva Bragança!, do fundo da sala grita-se Matem as papa-hóstias! e no meio floristas e cabeleireiras bradavam: Ninguém nos tira as nossas meninas!, enfim, dos lados berravam: Corra-se com esses jornalistas de Lisboa!
Aos poucos, no meio da sarrafusca, a tese de que a origem daquele estado de coisas partira da capital levou 150 cabeças, adeptas do Fê-quê-pê, já tinha de ser, a gritarem: Marchemos sobre Lisboa! Ouviu-se um mar de palmas, o que os animou e os levou a entoar: Nós só queremos ver Lisboa a arder! Ver Lisboa a arder! Ver Lisboa a arder! Ouvido isto, outros 150 torceram o nariz, receando pelo estádio do glorioso SLB e perceberam a finalidade de tudo aquilo: queriam arrasar a catedral, isso é que era! E logo choveram bofetadas, puxões de cabelos e bordoadas, o que levou Valdemar das Pombas a saltar para o pandemónio e a mandar uma cabeçada num e um pontapé nas partes de outro, aproveitando a ocasião para pôr as mãos onde não devia na Sãozinha das perucas, pomba que há muito ambicionava levar para o ninho.
Com o tumulto ainda em efervescência, foi Justino do Paço quem retomou a palavra. Amigos, eu acho que devíamos combater as papa-hóstias com as mesmas armas! Logo se interromperam os estalos e as caneladas. Palmas, muitas palmas. Vamos dar-lhes umas bolachadas?, perguntou um. Mandá-las para casa cozinhar e lavar roupa?, disse outro. Não, vamos fazer um manifesto e enviá-lo ao senhor Presidente da República. E por toda a sala se ouviu um imenso ohhh!. Sem dúvida, isso é que era! O fogo combate-se com fogo! E ali ficou decidido elaborar um documento onde diziam de sua justiça – pediam a legalização imediata de todas as casas de alterne de Bragança, ganha-pão para centenas de famílias de bem. Justino, homem de letras que tinha concluído o 5º ano do liceu, ficou encarregado de o redigir e os restantes ali presentes de o distribuírem por todos os recantos do distrito e recolherem as respectivas assinaturas, findo o que as suas pretensões seriam enviadas para o Palácio de Belém, assim devidamente legitimadas.
Com aquela decisão tomada, todos debandaram para os respectivos afazeres, que eram múltiplos e assim divididos porque era domingo: 150 foram ver na TV o jogo do Benfica, outros tantos sintonizaram o aparelho no jogo do Porto e dois foram fazer companhia às mulheres, uma vez que era dia de os sogros lá irem e não queriam fazer fraca figura. Muito menos ficar sem as terras que tencionavam herdar.

Ali a dois passos, porque como já vimos em Bragança tudo é perto, vamos encontrar na mesa de uma esplanada contígua à Igreja de Santa Maria um pequeno grupo de mulheres a tomar café. Clotilde, Otília e Guilhermina faziam o balanço de mais uma noite de razia e contabilizavam quantas piranhas tinham decidido partir nas últimas horas.
Pelo menos quatro!, disse Otília. Essas vi eu com estes olhos que a terra há-de comer apanharem a camioneta! E outras duas saíram de táxi para Zamora, acrescentou Guilhermina, agora de vestido cinza aos folhos pelo joelho, última moda Outono-Inverno saído da montra da sua loja, que voltara a funcionar em pleno, escorraçado que estava o mafarrico, pulseira de prata no pulso esquerdo, botas modernas para os primeiros chuviscos, óculos de sol Ray-Ban, cabelo de fino corte e pintado de negro, rugas tapadas por uma fina camada Redemic, de La Roche, e, claro, duas gotas de Creed, o suficiente para ter posto o empregado de cabeça à roda. A escassos metros, passavam duas meninas, rápidas, com medo, a tapar a mini-saia e o decote. Tinham ousado sair à rua porque, em virtude do corre-corre para Bragança e da escassez de fruta, precisavam mesmo de ir ao Manuel da farmácia, esgotado que estava o stock de camisinhas, cremes, bisnagas e demais precisões. Logo ali espreitava a comandanta, dentro de um carro da polícia, acompanhada por dois pasmas e sempre de olhos esbugalhados, que logo lhe saltaram das órbitas quando viu quem se aproximava.
Mais rápida que um abutre, travou o passo às meninas, que era uma riqueza vê-las, tão lindas, tão cheirosinhas, tão cheiinhas de carnes, e, de cassetete em punho, escanzelada como um espeto, rosnou: Os vossos documentos! As pequenas, atarantadas, já de lágrimas nos olhos, coitadinhas, foram às malas e entregaram-lhe os passaportes. Desgrenhada, cabelo espetado, boca sempre torta, a comandanta exigiu: Os vistos! E depressinha! Já em desespero, as mocinhas ainda tentaram argumentar que os tinham deixado em casa. De nada valeu. Perante os aplausos de pelo menos cem das duzentas pessoas que assistiam à cena, e face ao desconsolo dos restantes, foram metidas no carro-patrulha e levadas para a esquadra.
Ai que a comandanta é um mimo!, exclamou Clotilde, vendo, deleitada, as imediações finalmente livres de amores-perfeitos. Olá se é!, concordou Guilhermina. Em menos de nada vocês vão ver que nos vamos ver livres destas vadias! A seu lado, Otília não perdeu a oportunidade: Olha lá, menina, por falar em vadias, tu sabes que o teu Quitério abriu conta com aquela megera?
Guilhermina semicerrou os olhos e tentou disfarçar a irritação que lhe ia na alma. O raio do homem estava mesmo doido. Sabes, respondeu, antes de mais nada eu não tenho homem. E se essa besta quer derreter o pouco que tem, o problema é dele, não meu. A outra voltou à carga: Sendo assim, não ficaste incomodada por ele a ter levado a Paris? Clotilde ainda tentou evitar males maiores, dando uma pisadela à amiga, que logo se calou, embora tarde de mais. Estas coisas da solidariedade entre mulherio são assim um pouco para o estranho e, não obstante os esforços da ciência, um enigma por esclarecer.
Por muito esforço que fizesse para se controlar, a Guilhermina só lhe faltava espumar. Uma lágrima bailava-lhe já por detrás dos óculos Ray-Ban. A Paris! A ela o mais longe que a levara fora a Chaves, ainda por cima para ver um jogo com o Benfica para a Taça. E isto em 35 anos de casamento. Ai o estupor! A tremer de raiva, chamou o empregado, pagou e levantou-se da mesa, logo seguida pelas outras duas.
Tomaram o caminho da Praça da Sé, Guilhermina à frente, passo apressado ainda a ruminar injúrias e juras de vingança. E seguiam assim quando foram interpeladas por uma escanzelada jornalista da capital que ali estava a entrevistar quem se lhe deparava no caminho. Cabelo escorrido em franja para a testa, pintado de laranja, óculos de massa para dar um ar mais intelectual, tez amarelada, mala de couro a tiracolo, mini-saia a tapar-lhe os mirrados quartos traseiros, a querer mostrar o que não tinha, camisa aberta até ao umbigo, mamas a sair ao pai, coitadinha, nunca vira uma sandes de presunto nem uns rojões à maneira, lata para dar e vender. E dessa forma lhes travou o passo.
De bloco de notas em punho, esferográfica em riste, perguntou-lhes: As senhoras fazem parte das mães de Bragança? Sempre desembaraçada, Clotilde logo respondeu: Fazemos, sim senhora. E a lambisgóia insistiu: Mas afinal o que é que querem? E então foi Guilhermina quem rosnou, narinas dilatadas encostadas aos óculos da sofisticada jornalista da capital e a resfolegar como uma vaca bravia barrosã: Aquilo que nós queremos é acabar com as putas! A periquita engoliu em seco, guardou o bloco de notas, a esferográfica, balbuciou um Muito obrigada e foi com um suspiro de alívio que foi pregar para outra freguesia.

De novo com o caminho livre, retomaram a marcha. A uma esquina, chegadas à praça, pejada de povo, Guilhermina tornou-se escarlate. Clotilde tentou perceber a razão de tamanha alteração na amiga. E de súbito tudo se tornou claro. Do outro lado do passeio, saída do cabeleireiro da Efigénia dos Caracóis, seguia Danizinha, mala Dior a tiracolo, Cartier no pulso, meneando-se e de sorriso aberto face aos galanteios e olhares de que era alvo por parte dos homens que passavam.
Roxa de raiva, Guilhermina atravessou a Praça da Sé com pose de rinoceronte à carga, sem ligar aos cumprimentos da pequeno-burguesia bragançana de que era alvo. Boa tarde! Onde vais, rapariga, que nem falas com a gente? A nada ligava. Meia dúzia de passos à frente, mesmo junto aos primeiros degraus da Igreja de Santa Clara, barrou o caminho à outra.
Como por magia, todo o centro de Bragança parou – os casais que ali passeavam, velhos que apanhavam sol, fedelhos que brincavam, moços de recados sempre com pressa, automóveis, bicicletas e motorizadas, enfim, até mesmo cães e gatos, todos olharam para as escadas de Santa Clara. Danizinha estranhou a ausência de piropos e assobios e estacou ao ver diante de si a figura de Guilhermina, que fazia muita sombra. E não pôde ver mais nada, pois logo levou tamanho bofardo que a fez cair no cimento, com os joelhos rasgados, o que fez desviar de horror os olhares dos duzentos homens que ali se encontravam.
Já segura por Clotilde e por mais meia dúzia de bragançanas, Guilhermina espumava, querendo esmagar a outra, que gatinhava por terra, chorosa e com a face ainda a arder. Sua badalhoca! E, mesmo agarrada, deu-lhe um pontapé nas costelas, fazendo-a rebolar e gemer. Grande cabra! Sua puta! Sua galdéria de dinheiro fácil! Dito isto, Danizinha voltou-se para ela, mais depressa do que uma gata acossada, e ainda no chão ripostou, como uma leoa ferida: Ah! Isso não! Puta sou, sim senhora! Mas galdéria de dinheiro fácil isso não lhe admito! E, de dedo indicador espetado, continuou: Dinheiro fácil uma porra! Deixe a senhora os filhos lá longe, irmãos e amigos, o homem que ama, e vá matar a miséria para o fim do mundo! Vá e abra as pernas ao primeiro bêbedo porco e barrigudo que lhe apareça! Vá, e fuja dos polícias que a querem comer! Vá, e cure as doenças que lhe pegarem! Dinheiro rápido, sim senhora, mas fácil é nunca! E agora bata, porra! Bata que eu não quero nem saber! E desatou num choro convulsivo, sem deixar de fitar, desafiadora, quem a agredira de forma tão humilhante.
E ali estava meia praça a torcer para que a porrada continuasse e a honra da cidade fosse lavada com o sangue daquela piranha, enquanto outra meia, cães e gatos incluídos, tapava os olhos com mãos e patas, para não verem o que se adivinhava. Guilhermina, ainda de punho levantado, viu a mulher que tinha de gatas a seus pés, baixou a mão e estendeu-a a Danizinha, ajudando-a a erguer-se. Mediram-se bem nos olhos, apenas a um palmo uma da outra, lágrimas de dor e raiva, e cada qual seguiu o seu caminho sem dizer mais palavra.

 

V – Os primeiros dias de Novembro amanheceram tristes. Fosse pelo tempo, chuvoso e frio, fosse porque o Benfica não ganhava, fosse pelo que fosse, a verdade é que meia cidade andava de nariz no chão e a dizer mal da vida. Taxistas, cabeleireiras, bruxas e curandeiras, senhorios, comerciantes e demais empresários conheciam horas negras. O Manifesto dos Trabalhadores de Bragança lá tinha seguido para Belém, mas não lhes tinham ligado patavina. Pior: as meninas tinham partido, restando agora uma meia dúzia, ainda por cima parte das quais já amancebadas, com apartamento montado e, em consequência, indisponíveis para o truca-truca em prol da comunidade.
Com os jornalistas a perderem o interesse pelo que se passava e os amores-perfeitos a partirem em massa para Zamora, até já os excursionistas, acabada que estava a fruta fresca, tinham deixado de aparecer. Adeus corridas para cá e para lá, adeus brushings, madeixas e unhas de gel, adeus tarots, feitiços e bolas de cristal, adeus prédios sempre ocupados, adeus cafés, bolos e laranjadas, adeus, enfim, champanhes, whiskies e licores, pois até a maioria das casas de alterne tinham fechado, reduzidas que estavam à fruta da época.
Não admira assim que Quitério e Horácio estivessem algo intrigados com as obras de remodelação que estavam a ser feitas numa das casas, o Vapor da Noite, ali para os lados do Museu Abade Baçal, que Valdemar das Pombas decidira encerrar por falta de clientela. Olhavam e tornavam a olhar para os electricistas que montavam néons ultramodernos, para os decoradores que entravam e saíam sem dizer palavra do interior e que negavam satisfazer-lhes a curiosidade.

Quitério, ainda cheio da barrigada de mundo que vira lá pela França, irritado com aquele enigma, coçou os tomates, ainda mal adaptados às calças de fazenda roxa que ele, homem moderno e viajado, trouxera de Paris a conselho de Danizinha, juntamente com casaco desportivo da mesma cor, camisa branca aberta até ao peito, barriga ao léu fazendo adivinhar os pêlos do umbigo, cachucho de ouro com esmeralda no anelar, botas de pele também brancas e chapéu de abas preto, à cowboy. A juntar a tudo isto, não se libertava agora da bengala adquirida numa loja perto das Folis Berjeiras, ou lá como aquilo se chamava, e dos óculos de lentes azuis e massa igualmente branca, chovesse ou fizesse sol.
João Horácio, como já vimos quase a fazer os sessenta, deitou uma olhadela invejosa à indumentária do amigo e ao chapéu de cowboy. Não é que ele, em si, fosse uma pessoa invejosa, mas como era coxo e corcunda decerto que aquilo não lhe assentaria como a Quitério. Não que estivesse mal. Pelo contrário. Fato de corte impecável, devidamente adaptado à marreca, sapatos italianos deformados pelos joanetes, comprados pela sua mais que tudo, Heloísa, 22 anos, canela cor de pecado, curvas a condizer, nordestina dos confins do Ceará e agora com casa posta, por ele, claro está, paredes-meias com Danizinha, num dos sítios mais finos de Bragança.
Ah!, amigo, o que nós nos divertimos naquela casa. Grandes noites, hein?, disse Horácio, lançando um olhar nostálgico ao Vapor da Noite, onde agora era colocado um cartaz onde se lia Grande Inauguração no dia 14. Quitério concordou: É bem verdade. E o que gozámos! Logo tornou o outro: Você sabe que eu não sou homem para me gabar, mas olhe que a mim ninguém me levava a melhor… E dito isto levou as mãos aos rins, onde sentia uma pontada por causa das diabruras de Heloísa.
Quitério cofiou o bigode-espanador, sacudiu um moscardo que lhe cagara em cima da aba do casaco, e confidenciou: Oh, então e eu?… E logo ali trocaram uma série de feitos imaginários, pormenor em que os homens são pródigos. Horácio olhou-o de soslaio, deixando adivinhar os dentes podres num sorriso cínico, limpando a ponta da bota branca à calça. Quitério passou um braço sobre os ombros do corcunda e ciciou: Grandes tempos, amigo. Grandes tempos… Dito isto despediu-se e encaminhou-se a passo rápido para casa, pois a esta hora a sua mais que tudo já devia ter regressado de ir buscar, no Audi acabadinho de comprar, os bezerros ao Aeroporto de Pedras Rubras.
Ainda antes de entrar no espaçoso apartamento que comprara na Avenida Humberto Delgado, e que colocara em nome de Danizinha, merecedora deste mundo e do outro, Quitério ouviu semelhante algazarra que julgou estar a travar-se ali uma luta entre cães e gatos. Rodou a chave na fechadura e, mal espreitou, ainda na soleira da porta, levou com um ovo mesmo no meio dos sofisticados óculos de lentes azuis e massa branca, comprados no Jardim da Entulharia, ou lá como aquela porra se chamava. Ainda sem ver nada, uma bisnagadela de água fria, que lhe encharcou o fato, ajudou-o a perceber o que se passava – dois fedelhos pretos estavam na sua frente a rirem-se a bandeiras despregadas e com todos os dentes que tinham, que ainda eram poucos.
Já Quitério lhes tinha deitado a luva, pronto a arremessá-los do quarto andar para a rua pela janela aberta da varanda, quando se ouviu uma voz vinda da cozinha: Amoorrr, é você? Largou os fedelhos, um debaixo de cada braço, e olhou-os de alto a baixo, o que não demorou muito, porque como já vimos eram pequenos. Bezerros pretos? Grande gaita! Os vizinhos iam achar aquilo assim um bocado para o esquisito. Entre este e aquele pensamento, os fedelhos aproveitaram para se pôr ao fresco, escapulindo-se para onde puderam – uma para a casa de banho, ainda com ovos no bolso do bibe, o outro a esconder-se num armário, de bisnaga em riste.
Estava Quitério ainda aturdido e a tirar a gema dos óculos quando ouviu o toc-toc-toc dos saltos de Danizinha que se aproximavam. Mal o viu, ficou um pouco perplexa por o ver naquele estado, mas logo percebeu o que se passara e fingiu um ar de zangada. Ele pôs um sorriso amarelo e abriu os braços, como que a dizer que aquele tipo de coisas estava sempre a acontecer. Meu amoorrr, sempre tão compreensivo. Vem, vou apresentar os guris para você. E dito isto gritou: Jafa! Benvindo! Venham à mamãe! A resposta foi silêncio total, pois a memória recente da varanda ainda estava bem presente nos fedelhos. Tou mandando, porra! Três, quatro segundos depois, ouviram-se passinhos pelos corredores.

Danizinha bateu palmas à vista dos guris e logo passou às apresentações. Amooorrr, esse aí é o Benvindo e essa a Jafa. E eles ali estavam, duas pestes escuras como carvão, uma com seis anos, outro com sete. Ela de bibe branco, cabelo encarapinhado, olhos como tições; ele carequinha, como se fosse um presidiário, que era decerto onde deveria estar. Vá, garotos, cumprimentem como mamãe ensinou. Os dois entreolharam-se e disseram em uníssono: Oi, babaca! Quitério abriu muito os olhos e sorriu. Aquilo decerto devia ser uma forma de papá lá para os lados de Campina Grande, dessa Paraíba que os tinha parido.
Que é isso, garotos!, exclamou Danizinha dando uma palmada a cada um. Digam: Bom-dia, senhor. E os gurus lá disseram. Babado, Quitério cofiou o bigode-espanador e, quase a medo, achou que era chegada a hora de fazer uma festa aos garotos. Olhou para ambos e escolheu o careca. Estendeu dois dedos e tocou-lhe ao de leve no nariz ranhoso, ao mesmo tempo que dizia: Benvindo… Aprumado, hesitante entre a palmada da mãe e nova ida à varanda, o fedelho respondeu: Obrigado, senhor. Ele sorriu. Obrigado de quê, pequeno? Ainda em sentido, disse o guri: Por ser bem-vindo, senhor. Ai que grande porra! Mas não fui eu que te pus o nome!
Ainda um pouco confuso, Quitério não queria deixar a pequena triste por ver tanta atenção dedicada ao irmão. Foi assim que se baixou, a custo, porque lhe doíam as cruzes, e perguntou: Como é mesmo o teu nome? A menina olhou-o com os olhos escuros enormes: Jafa. Que raio de nome puseram à miúda. Pobrezinha, disse lançando um olhar de censura para a sua mais que tudo antes de logo voltar à carga. Olha lá, querida. E tu és Jafa quê? A criança fez um gesto de enfado: Jafa Lei. É o quê? Jafa Lei. Fosga-se, se falaste eu não ouvi nada. Diz lá outra vez aqui para o babaca. Já a revirar as órbitas, a pequena insistiu: Jafa Lei! Disfarçando a irritação, levantou-se e disse à sua mais que tudo: Um bocadinho teimosa essa aí, hein? Danizinha esclareceu: Amooorrr, eu sou Daniela Lei, o guruzinho é Benvindo Lei e a menina Jafa Lei.
Esmagado, Quitério resolveu desistir. Sentou-se num sofá e pegou na Bola para ler as últimas do Benfica, com as pernas esticadas, como costumava fazer, num pequeno banco. E logo Benvindo lhe saltou para um dos pernis e começou a fazer cavalinho, ao mesmo tempo que Jafa se emboscava atrás dele e, com um só puxão, lhe arrancava o capachinho do cocuruto. Ele pôs-se de pé de um salto, bradando: Mas o que é isto, carago? E logo desatou a perseguir os fedelhos sala fora, procurando agarrar o disfarce capilar que os bezerros atiravam um ao outro ao mesmo tempo que cantavam: Babaca!, babaca!
Nenéns!, exclamou a voz autoritária de Danizinha. Vocês assim vão cansar o senhor. Amoorrr, você está todo suado, disse passando a mão delicada pelo casaco de fazenda roxo. Jafa, quer fazer um favor para mim, quer? E logo a pequena disse que sim, toda ela sorrisos. Pois vá ali ao quarto e traga uma das camisolas que estão em cima da cama para o senhor Quitério vestir.
Em menos de um fósforo, a criança desapareceu e, como por magia, logo regressou, trazendo uma das T-shirts de Quitério. Mamãe, o que quer dizer Faz-me um bico? Danizinha, algo corada, respondeu: Querida, isso quer dizer que você precisa ter um nariz assim bem afiadinho, como se fosse um bico, viu? E logo a pequena se atirou para o colo de Quitério, já em desespero, e começou a espremer-lhe a penca, perguntando: Assim como aqui o do babaca?
Vendo o olhar de Quitério, já meio roxo, Danizinha achou por bem repor a ordem. Assim, bateu palmas e com voz firme ordenou: Guris, vão brincar para o vosso quarto! Os bezerros esboçaram um gesto de protesto, mas acederam quando ouviram: Olha aí! Uma bala para cada um. E logo desapareceram, metendo à boca os rebuçados assim recebidos para que fossem bons meninos.
Finalmente sós, Danizinha sentou-se ao lado de Quitério e começou a fazer-lhe festinhas nos pêlos das orelhas, o que, como já vimos, tinha o condão de dissipar eventuais más disposições. Amooorrr, eu vou ter que sair. Ele faz cara de amuo. Outra vez? Mas agora aquilo era um hábito? Todos os dias a mesma coisa? E ainda por cima à hora dos morfes? Mas o que ia ele comer?
De facto, desde há pelo menos uma semana que Danizinha saía todos os dias, um pouco antes da hora do almoço, usando sempre as desculpas mais variadas, o que já trazia Quitério desconfiado. Seriam aquilo hábitos antigos? Será que não lhe chegava o vigor do leão de Bragança? Por falar nisso o melhor seria ir ao Manuel da farmácia, porque o vigor andava assim um pouco que, digamos, cabisbaixo.
Não seja ciumento, amoorrr. Você sabe que eu só tenho olhos para o meu benzinho, não sabe? E depois que mal tem que eu vá ver as minhas amigas?…, e enquanto assim falava Danizinha massajava-lhe o bigode, o que desarmou Quitério e o levou a ceder: Está bem, querida. Mas olhe, e quanto ao almoço?
Ai, amooorrr, isso vai você ter que fazer que eu não tenho tempo. Já estou até é atrasada. E dito isto levantou-se, pegou na mala Dior e encaminhou-se para a porta, gritando para dentro: Guris, mamãe vai sair. Se cuidem, hein? Quitério ainda fez um último gesto. Mas, mas… e eles? Danizinha atirou-lhe um beijo e saiu. Derrotado, deixou-se cair no sofá. E se a seguisse? Pensando nisto, o ciúme começou a tomar conta de todo o seu ser, da ponta das botas de pele branca ao capachinho, que entretanto voltara ao sítio.

Estava Quitério ainda a pensar o que fazer quando entrou na sala um dos fedelhos, Jafa, que lhe puxou uma das mangas do casaco roxo e disse: Senhor, senhor… Incomodado pelos pensamentos que o atormentavam e por tudo que lhe caíra em cima, sacudiu-a: O que é que tu queres, bezerro do demónio? A pequena, aflita, apontou na direcção do quarto: O bilau do Benvindo está a sair-lhe das calças! De um salto, pôs-se de pé e levou as mãos à cabeça. Isto não me está a acontecer!
Chegado ao quarto, viu Benvindo com ar de dor e o bilau a sair-lhe das calças. Fosga-se que o fedelho tem potencial…, disse passando a mão pelo bigode-espanador. Ficou um pouco preocupado, porém, quando viu o bezerro contorcer-se. Mas que porra é esta? O que é que tu tens, fedelho do inferno? Sem resposta, voltou-se para Jafa, que apontava para a caixa que estava na mesinha de cabeceira. Ele tomou todas essas balas azuis, senhor.
Em desespero, arrancando o capachinho, Quitério fugiu do quarto. Estava decidido! As pestes negras que se cuidassem. Ele ia mas é atrás de Danizinha e sem demora! Já na saída, berrou: O babaca vai sair! Livrem-se de fazer mais asneiras! A única resposta que obteve foi o som de uma algazarra infernal vinda do interior. Porra! Já falei! E as estas últimas palavras logo lhe apareceu a pequena Jafa à frente. O senhor chamou? Pronto a estrangulá-la, conteve-se no último instante, bateu a porta e abalou. Irra que já era de mais! Os bezerros iam dar com ele em doido!
Correu para a rua. Ali chegado, ainda esbaforido, espreitou para a direita. Nada. Para a esquerda. E lá estava, ao fundo, Danizinha, meneando-se com aquele rabinho que era um mimo, a seguir na direcção dos Correios. Cem metros os separavam. Coseu-se com as paredes, seguindo-a, com os ciúmes já a passarem do coração para os gargomilos. Viu-a chegar à Praça da Sé e virar à direita. Seria ali que se iria encontrar com o amante? Já a desfalecer, viu-a parar em frente a uma vivenda espaçosa e tocar a sineta de um portão de ferro. Mas espera aí, aquela não era sua casa? E não era a própria Guilhermina que via agora, a encaminhá-la para dentro depois de a ter cumprimentado com dois beijos, toda sorrisos? Mas que porra era aquela?…

 

VI – No dia 14 de Novembro desse ano de 2003, às dezassete horas e três minutos, Bragança assistiu a um acontecimento extraordinário – exactamente nesse momento ali deu entrada, pela Rua do Senhor dos Perdidos, um cortejo que iria mudar a vida da cidade. Montados nos bancos de trás de dois descapotáveis Ferrari 400, com matrícula de Espanha, seis garanhões besuntados de óleo, todos eles bíceps, tríceps e quadríceps, vestindo apenas uma tanga de leopardo, arrostavam com o frio e, sorridentes, saudavam quem encontravam.
Em poucos minutos, toda a Bragança foi alertada do que estava a suceder. Num ápice, o povo convergiu para o centro da cidade, onde nesse momento davam entrada, sem pressas, os dois cabriolets, conduzidos por motoristas fardados a rigor, camisa branca, casaco, boné, gravata e sapatos negros e cuecas rosa-choque. Saído das gargantas de 800 mulheres, velhas e novas, ouviu-se um imenso Ai que queridos! Dezoito donas de casa exemplares, casadas há pelo menos 25 anos, atiraram-se para a frente dos carros, querendo morrer ali mesmo; outras 11 desmaiaram; quatro velhas, entre os 87 e os 94 anos, tiveram um ataque de coração e bateram a bota; duas paralíticas voltaram a andar, na ânsia de serem as primeiras a tocar nos matulões; seis cegas abriram os olhos e disseram: Ohhh!, como são bonitos!, enfim, cadelas e gatas desataram a ladrar e a miar de tal forma que Espanha entrou em estado de alerta.
Escoltados pelos polícias e pela comandanta, os garanhões a todas saudavam – lançavam beijos às novas, piscavam o olho às mais velhas, faziam, enfim, festinhas à bicharada com quem se cruzavam no caminho. Perplexos, mais de 500 homens e rapazes deitavam olhares despeitados aos matulões assim besuntados, não percebendo a razão de tanta excitação. Entre estes, estava Quitério, também ele apalermado, acompanhado por Valdemar das Pombas, dito O Pinóquio.
Calça de veludo vermelha, T-shirt verde com os dizeres SLB for ever, botas texanas, chapéu à cowboy, óculos de sol de lentes azuis e massa branca, enfim, meio palito na boca e a coçar os tomates, Quitério murmurou ao amigo: Devem ser é bichas. Valdemar, sempre impecável no seu fato cinza de seda, atirou os caracóis pintados de louro para trás e respondeu: E você ainda duvida? Aquilo é bichanice pela certa. E se não forem que um cão me mije já aqui para os sapatos! Dito isto, sentiu a calça molhada. Baixou o olhar e viu um canídeo de pata levantada, o que o levou a murmurar: Fosga-se…

Com o mulherio atrás, e seriam agora já bem mais de mil, os carros seguiram com dificuldade para a Praça da Sé e, dali, para a rua do Museu Abade Baçal, onde se detiveram à porta do que fora o Vapor da Noite, agora rebaptizado como Ai Gostas Pouco, Gostas. E foi com grande dificuldade que os garanhões ali conseguiram entrar, o que teria sido mesmo impossível se não fosse a acção determinada dos polícias da comandanta, que montaram eficaz cordão de protecção e evitaram que pelo menos duas velhas, uma com 89 anos e outra com 97, arrancassem as tangas a dois dos matulões com as dentaduras postiças.
Também com grande dificuldade, Quitério e Valdemar, ex-rei das pombas e agora quase reduzido à criação de periquitos para vender nas feiras, conseguiram chegar às imediações do Ai Gostas Pouco, Gostas, onde já brilhavam os néons, porque a noite se aproximava, e ali conseguiram ver, em enormes cartazes, a descrição dos seis garanhões acabados de entrar – Carlão 28, Lucas 26, Davi 24, Gabriel 22, Fábio 20 e Edinho 17. Logo abaixo, um aviso: For Ladies.
Mas de quem é esta merda?, grunhiu O Pinóquio. E logo respondeu Quitério: Não sei, mas pelo nome deve ser estrangeiro, talvez russo. Sim, deve ser russo. E afirmou isto com ar muito seguro de si. Por que diz isso?, voltou a perguntar o outro. Olhe ali, Forladis soa a russo. Valdemar das Pombas abriu muito os braços e, homem viajado, conhecedor de muitas paragens, esclareceu: Ó homem, isso quer dizer que é só para mulheres!
Quitério coçou os tomates, indignado. Onde é que já se tinha visto em Bragança uma porra daquelas? E com ele muitos também protestavam, sentindo-se feridos, até ultrajados, na sua qualidade de machos transmontanos, assim preteridos por aquelas abéculas musculadas acabadas de chegar. Valeu na altura, mais uma vez, a acção firme da comandanta, que logo ali rachou três cabeças à bastonada e manteve toda a gente na ordem.
Indignado, Quitério interpelou a chefa: Tem de acabar já com esta sem-vergonhice! Desgrenhada, a comandanta semicerrou os olhos esbugalhados e perguntou: Ai sim, e porquê? Enchendo o peito de ar, logo tossindo, ele respondeu: Porque estão ali a trabalhar menores! E apontou para o cartaz, mais exactamente para a parte onde se lia Edinho 17. Um pouco confusa, a agente também leu. Com um sorrisinho maldoso a bailar-lhe na boca torta, elucidou: Aquilo não tem a ver com a idade, mas sim com a medida de outra coisa. E agora andamento. Borinha, é circular, é circular… E ele circulou, embora não deixasse de olhar para o cartaz e lesse: 24, 26, 28… Fosga-se…, assobiou baixinho.
À porta do Ai Gostas Pouco, Gostas, ainda ouviu um mestre-de-cerimónias anunciar: Logo à noite, às 22 horas, não percam a grande inauguração! Venham ver a fruta fresca de Bragança! E logo se seguiu um imenso bruaaá da multidão de mulherio. Ainda traumatizado, ferido na sua macheza, Quitério foi beber uns copos para a taberna do António das Iscas. O mundo estava mesmo nas ruas da amargura! E ele para lá caminhava – o dinheiro no banco estava reduzido a metade, as festinhas nos pêlos da orelha e no bigode eram agora racionadas, as meninas tinham partido, os bezerros estavam infernais e agora aquela porra da boite de gorilas besuntados! Mas onde é que a cidade iria parar? Triste, acabrunhado, deitou pés ao caminho e recolheu a casa, onde já desistira de obter de Danizinha uma explicação cabal para as visitas a Guilhermina, com ela sempre a limitar-se a dizer que não via motivos para não serem amigas.
Já com a chave na porta percebeu que havia clima de festa em casa. Será que lhe estavam a preparar uma surpresa? Ah!, a sua mais que tudo era capaz disso e de muito mais! Abriu e entrou, sendo logo puxado para a sala por Benvindo, que ainda tinha um andar algo esquisito por causa das balas azuis que enjorcara. Papai, esse aqui é o tal babaca! Olhou e viu um preto enorme à sua frente. E viu mais – Danizinha pendurada no ombro daquela montanha de carvão e a dizer-lhe: Benzinho, apresento-lhe meu marido, Carlão Baitabilha. Fosse pelo nome, fosse pelo que fosse, Quitério achou por bem apertar a patorra que o escarumba lhe estendia.

Benzinho, precisamos de falar… Quitério suava. Benzinho? Mas que porra era aquela de benzinho? Então o amoorrr? De bigode eriçado, ia a sentar-se no lugar do costume, o sofá individual, quando Carlão Baitabilha, ou Carlão 28 ou lá o raio que o partisse, de indicador a abanar, lhe fez sinal para que não o fizesse. Danizinha continuou: Benzinho, a partir de hoje, com Carlão cá em casa e os nenéns, você não pode cá ficar. Você compreende, né, benzoca? Com vontade de explodir, olhou furibundo para os dois, mas depois pensou no Baitabilha 28 e achou por bem mudar de táctica.
Muito bem, eu vou-me mudar, mas agradeço que me devolva todos os cartões do banco. Danizinha sorriu, foi à mala Dior e entregou-lhos, embora o avisasse: Benzinho, hoje de manhã levantei todo o dinheiro que lá havia. Você compreende, os guris têm de comer, né?… Já sem os óculos de sol de lentes azuis e de massa branca, com o capachinho na mão, atreveu-se a gritar: Pois então vai devolver esse dinheiro! Risada geral. Já falei, porra! E dito isto logo apareceu Jafa Lei, que lhe mandou um valente pontapé nas canelas e disse: Estou aqui, senhor!
Desarmado, vendo-se assim rodeado de uma tribo hostil, Quitério ainda balbuciou: Mas… Devagar, com muita calma, Carlão aproximou-se, encostou-lhe o seu metro e noventa e dois à careca e ciciou: Mas?… Já de chapéu de cowboy na mão, que torcia desesperadamente, apelou à misericórdia da sua Danizinha: Eu fico sem nada. Estou reduzido à miséria! Mas que vou eu fazer? Ela olhou para o marido e este afirmou: Não se aflija, vou fazer de si um empresário rodoviário. Deus era grande! De olhos brilhantes, perguntou: Vai mesmo?… Baitabilha 28 tranquilizou-o: Vou, sim senhor. Apareça logo às 22 para a grande inauguração do Ai Gostas Pouco, Gostas. E dito isto conduziu-o à porta, que logo fechou atrás de si.
Quitério chegou à rua já noite cerrada. Sem o chapéu de cowboy, que deixara no apartamento, agora entregue à tribo, a chuva batia-lhe em cheio no capachinho, que depressa ficou encharcado. Esmagado, arrancou-o do cocuruto e atirou-o para a sargeta com fúria. Olhou para o relógio. Sete horas. Ainda faltava um pedaço para o encontro marcado com Carlão no Ai Gostas Pouco, Gostas. O destino levou-o até à Praça da Sé. Passou pela sua antiga loja e ali tentou abrigar-se. Logo apareceu a gerente, a Luísa dos Melões, mulher enorme e peituda, íntima de Guilhermina, que, vendo-o assim naquele estado, o escorraçou sem piedade: Fora daqui, seu vadio, que isto não é para vagabundos! Vá lá para junto da sua amásia! E ele foi. Não para junto de Danizinha, mas pela Rua 5 de Outubro abaixo, fugindo aos olhares de quem com ele se cruzava, certo de que era alvo de todas as chalaças de Bragança e arredores.
Assim chegou às águas do Fervença, encharcado, com fome e sem um cêntimo no bolso. Ali matou o tempo, pensando que aquilo não lhe estava a acontecer. De súbito, uma centelha de esperança brilhou-lhe nos olhos. Talvez ainda houvesse solução. Sim, podia ser que Guilhermina, a sua mais que tudo, a sua xuxu, o aceitasse de volta. Afinal de contas, tudo não passara de uma aventura! Levantou-se, sacudiu a água que lhe escorria das calças de veludo vermelho e, assim renovado, pôs-se a caminho do Ai Gostas Pouco, Gostas, que já eram horas do encontro com Carlão, que o iria transformar num empresário rodoviário.
Chegado às cercanias do Museu Abade Baçal, foi com dificuldade que conseguiu romper entre a multidão que ali se encontrava – de um lado da rua, duas mil mulheres, muitas vindas de Vinhais, do Mogadouro, de Miranda, enfim, até de Freixo de Espada à Cinta, não viam a hora de entrar no Ai Gostas Pouco, Gostas. E, apesar do frio e da chuva, ali estavam, cheirosas, de mini-saia de palmo e meio, tacão alto e decotes até ao umbigo. Do outro lado, a bufarem e a espumarem de raiva, dois mil homens, chapéus na cabeça, fatos puídos ou rotos, encharcados e a cheirarem a bois. No meio, desgrenhada, boca torta e olhos esbugalhados, estava a implacável comandanta e três dúzias de pasmas, separando as águas.

E tudo isto Quitério viu, assim como a chegada de um BMW último modelo, vidros fumados e a comandanta a gritar: Abram alas! Abram alas! E todos olharam. Quem vinha aí? E eram exactamente vinte e uma horas e cinquenta e oito minutos quando o carro se deteve à porta do Ai Gostas Pouco, Gostas. De imediato, o mestre-de-cerimónias correu a abrir a porta de trás. Saiu um dos matulões, que ele reconheceu pelos cartazes como sendo o Lucas 26, corpo lambuzado e a brilhar aos holofotes, cabelo negro escorrido e penteado para trás, tanga de leopardo, lacinho preto de seda ao pescoço, só trapézios, deltóides e peitorais, dentes imaculados a sorrir para o mulherio, que gritava: Lu, faz-me um filho!

Indiferente a esses apelos, Lucas 26 estendeu uma mão para o interior do carro e dali saiu a patroa do Ai Gostas Pouco, Gostas. Uma mulher toda ela curvas, provocador vestido prateado cravejado de brilhantes que lhe caía até ao joelho, deixando antever umas pernas provocantes, ombros à mostra, mamas que valha-me Deus, enfim, cabelo penteado com requinte e óculos Dolce & Gabbana, devidamente ornamentados com uns mini-pára-brisas para afastar os pingos de chuva. Ambos se encaminharam para a entrada da boite, passando pelo meio de centenas de flashes das mil invejosas que aproveitavam para tirar fotografias com os telemóveis em riste. Outras mil estendiam em frenesim pequenas folhas de papel e suplicavam: Gigi, um autógrafo!

Ao ouvir aquele nome Quitério ficou petrificado. Gigi? Mas que diabo! Olhou melhor. Aquela era Guilhermina! A sua Guilhermina, agora levada pelo braço daquele bruto, daquele gorila! Ainda mal refeito, viu-a desaparecer no interior do Ai Gostas Pouco, Gostas, não sem que antes, à entrada, beijasse com fervor Lucas 26, o que logo enlouqueceu a multidão de mulherio e a fez bradar: Gigi, nós também queremos! Dá-nos um bocadinho, Gigi!

E estava Quitério assim esmagado, a escutar o vozear do mulherio que dizia: Ai a Gigi é que tem sorte! e Meu Deus, com um pedaço daqueles até eu me derretia!, quando ouviu uma voz de trovão a chamá-lo: Você aí, ó babaca! Virou-se e viu Carlão 28, que lhe acenava. Endireitou-se. Sacudiu a água das calças de veludo vermelho, deu um jeito à T-shirt onde se lia SLB for ever, endireitou os óculos de sol de lentes azuis e massa branca e dirigiu-se para a entrada do Ai Gostas Pouco, Gostas. Era chegada a hora. Guilhermina, agora Gigi, fora-se. Mas ele ia ser empresário rodoviário!

Chegado junto de Carlão 28, Quitério logo ouviu: Está esperando o quê, ó babaca? Algo perplexo, disse que estava pronto a começar as suas funções. Acho bom mesmo! Então vá!, ordenou Carlão Baitabilha. Mas onde é o escritório? Vou onde?, perguntou atarantado. Arrumar carros, porra! E dito isto voltou para dentro do Ai Gostas Pouco, Gostas, agora já de portas abertas e uma loucura de mulherio que se atropelava para apalpar os bíceps dos meninos e, se possível, mais alguma coisa.

Esvaído, de ombros mirrados caídos, com frio na careca, embora ainda de óculos de lentes azuis e massa branca, viu ao longe o amigo Horácio, também ele uma lástima, à chuva, a gritar: Pode vir! Pode vir! Está bom! E a estender a mão para receber 20 cêntimos de duas mulheres que acabavam de estacionar o carro. Com o bigode-espanador murcho, Quitério foi ao bolso e só viu pó. Até a pança estava a mirrar, encolhida pela falta de morfes. Enfim, para grandes males, grandes remédios. Encheu o peito de ar, deu uma coçadela aos tomates e agitou um braço, gritando: Aqui! É aqui! Olha aqui um lugar! Pode meter! Venha, venha! Estou a mandar, porra! Pronto, já bateu…

Duas horas depois, com o Ai Gostas Pouco, Gostas ainda na maior loucura, o mulherio extasiado, com os carros todos estacionados e dois euros no bolso, que as bragançanas são forretas que até dói, sentou-se num pequeno muro lado a lado com Horácio, agora ainda mais corcunda, também ele trocado por Heloísa, que acolhera em casa Davi 24 e o deixara reduzido à mais negra penúria. E ali estiveram uma meia hora, à chuva, sem trocar palavra, a partilhar uma beata que tinham apanhado do chão. Pois é, disse finalmente o marreco de cabeça baixa, primeiro vieram as vacas, agora chegaram as galinhas. Você acha que falta vir alguém? Quitério, indeciso entre comprar um naco de broa ou a Bola com o dinheiro acabado de angariar, respondeu: Pois acho que não falta ninguém, amigo. Veja que até os bois já cá estão.

Jorge Monteiro Alves | 05-01-2019

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