Eu, Guilhermina | Ou a Verdadeira História das Mães de Bragança | Jorge Monteiro Alves

Esta estória baseia-se numa série de acontecimentos extraordinários registados em Bragança no Outono de 2003. Contudo, qualquer semelhança entre ficção e realidade será pura coincidência.

Dedicado a todas as nordestinas, de um e do outro lado do Atlântico

A estória da nordestina Guilhermina e do seu marido Quitério, tentado por fragâncias de amores-perfeitos que depressa murcharam, ou como um homem com uma rica vidinha estraga tudo por um par de mamas.

Santo Amaro de Oeiras

Jorge Monteiro Alves é natural do Porto, desse Norte onde não corre sangue lusitano nem magrebino, mas sim suevo, vândalo e godo, e onde as gentes parecem paridas do granito que cobre a terra. Talvez por isso não haja vento que as dobre. Ali, muito cedo aprende-se com as árvores – antes quebrar que torcer. E também elas gostam de morrer de pé. Partilham um sonho desde crianças: ver o Benfica na 2ª divisão. Ainda não o concretizaram. Mas não perderam a esperança.

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I – A velha apontou o dedo indicador na sua direcção e os olhos fizeram um esgar trocista, assim como a boca, coberta de dentes podres. Que podia ela fazer, pobre cega, contra poções de raízes de amor-perfeito, restantes ervas do demónio e macumbas com água suja das partes? Nada! O feitiço era demasiado poderoso. Mas que não perdesse a esperança, que vinha aí luz por entre nuvens escuras! Guilhermina, chorosa, ainda se atreveu a perguntar àquela bruxa medonha, coberta de rugas e de um xaile negro, se não havia mesmo forma de matar a vadia. A curandeira soltou um grunhido de protesto e fez um gesto brusco com a mão esquerda, como se afastasse maus espíritos ou a mandasse embora. Na dúvida, foi isto que fez. Não sem antes largar uma nota no imundo copo de plástico verde que servia de ornamento único à mesa comida pelos ratos.
Guilhermina saiu do casebre para a rua com alívio, liberta do cheiro a mofo, olhos de morcego e rabos de lagartixa. Má ideia tivera a comadre Otília em recomendar-lhe aquela ida à Benfazeja. E lá se tinham ido 50 euros naquela história! Mais do que não arranjar forma de matar a outra, o que lhe doía mesmo era ter largado tal quantia. E em troca de quê? De nada, pois então, que é igual a coisa nenhuma! Ela sabia lá quando vinha a luz ou que história era aquela das nuvens escuras! Quais esperanças, qual carapuça! Certo, mas certinho mesmo, era que o dinheiro se estava a ir. E mais depressa do que um balão furado perdia o ar.
Cumprimentou à direita e à esquerda. Olá, Guilhermina, olá! Onde vais a esta hora? Tu, por aqui? Ora bons olhos te vejam, rapariga! E ela estugava o passo, respondendo ao acaso e fugindo a todas. Atravessou meia Bragança cosida com as paredes das casas, como se fugisse do sol daquela manhã de Outono. Passou pelo cabeleireiro, cheiinho de vadias a tresandarem àquele perfume, de esplanadas com moças bonitas de perna traçada que falavam alto. E decerto dela. E assim passava de cabeça baixa, envergonhada, quase a medo. Estava certa, chegada que estava às portas da Igreja de Santa Clara, que todas a apontavam agora a dedo. Correu os últimos metros que a separavam do portão de casa, que abriu com dedos trémulos.

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