Rui Vieira Nery | Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades

Estive, por curiosidade, a consultar a lista dos comissários das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades desde que elas recomeçaram sob esta designação, em 1977, na Guarda. Aqui vão alguns dos nomes: António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, António Barreto, Elvira Fortunato, João Caraça, Manuel Sobrinho Simões, Onésimo Teotónio de Almeida… E em 1977, na primeira comemoração, cujo comissário era o Major Vítor Alves, o orador convidado foi Jorge de Sena…

Para 2019 – soubemo-lo hoje – o comissário será João Miguel Tavares…

O que me perturba nesta escolha não é, obviamente, o princípio genérico do rejuvenescimento do perfil do orador. Podemos discuti-lo, alegando que, bem vistas as coisas, a efectiva juventude das ideias de cada um não se mede pela idade do portador mas pelo seu carácter inovador intrínseco. E a esse nível Onésimo Teotónio de Almeida, que segundo as minhas contas fará este ano 73 anos, é certamente uma cabeça dez vezes mais informada do pensamento contemporâneo do que João Miguel Tavares, cuja coluna não passa de uma sebenta requentada de clichês neo-liberais simplistas que remontam pelo menos ao consulado da Senhora Thatcher. Mas neste nível etário ocorrem-me tantos nomes de gente da mesma geração com tanta coisa de mais sólido para dizer: uma Maria Mota, um Gonçalo M. Tavares, uma Carmo Fonseca, um Miguel Gomes, um Tiago Rodrigues, um Luís Tinoco…

Também não me incomoda a opção por um autor conservador. Quem me conhece sabe que considero a Direita democrática como um pilar indispensável de qualquer regime constitucional e que valorizo o debate franco e aberto com todas as correntes de pensamento que se reivindicam dos direitos, garantias e liberdades consagrados na nossa Constituição. Mas, mais uma vez, passam-me pela cabeça tantos nomes de pensadores conservadores com outra consistência, com outra profundidade de reflexão, com outra preparação de base: cito, só a título de exemplo, um Miguel Poiares Maduro, um António Araújo, um Paulo Rangel ou o próprio Pedro Mexia, que o Presidente da República tinha ali mesmo à mão na sua Casa Civil…

O que é verdadeiramente preocupante é a mensagem clara, que o Presidente da República assim deixa, de uma desvalorização do estudo aprofundado e da reflexão fundamentada sobre as questões cruciais da nossa vida colectiva contemporânea, bem como do seu amadurecimento através de uma obra longa e consistente, muitas vezes longe da ribalta e sem resultados visíveis imediatos, para lhes contrapor a pequena coluna impressionista, feita de simpatias e hostilidades epidérmicas, ao sabor de fezadas ideológicas de momento e de uma cartilha de soluções simplistas para a complexidade dos problemas com que a nossa sociedade se defronta.

A intenção do Presidente terá sido porventura – para lá de dar voz a um perfil etário mais jovem – a de aligeirar a solenidade do evento e de promover o debate político numa linguagem mais próxima da do comum dos cidadãos. Mas não terá por certo reflectido bem sobre as consequências últimas da sua decisão no que respeita ao reforço da tendência perigosíssima dos nossos tempos de relegar a criação artística e literária de ponta ou a investigação científica especializada, em todos os campos, para uma remota prateleira académica, negando-lhe a relevância fundamental do seu contributo para a vida pública e para o debate colectivo.

A Cultura, a Ciência e o Conhecimento, na sua dimensão mais rigorosa, mais profunda e mais exigente, ficam assim implicitamente remetidas, perante a opinião pública, pela voz de quem afinal maior responsabilidade teria de as proteger e até promover, para uma espécie de limbo mais ou menos exótico, se não mesmo ligeiramente caricatural, supostamente povoado por figuras de velhos sábios inúteis e ridiculamente dedicados a estudar e debater minudências obscuras que só interessam aos seus pares mais próximos. Em seu lugar promove-se o ideologismo fácil, qualquer que seja o seu colorido político, o apelo à justiça sumária na praça pública, a suspeita gratuita generalizada sobre todas as instituições democráticas, o apelo ao imediatismo populista, e tudo aquilo que caracteriza, diariamente, a lição sistemática da produção colunística do novo Comissário.

Não discuto que haja, na esfera mediática, um espaço próprio para este tipo de reflexão, que tem, de resto, contra-imagens do mesmo nível em muitos quadrantes político-ideológicos diametralmente opostos, e não demonizo a escrita de João Miguel Tavares face à de tantos exemplos muito piores que pululam pela Comunicação Social escrita e audiovisual. Mas num dia em que deveríamos todos nós ser convidados a reflectir maduramente sobre o que significa ser português, em Portugal e no Mundo, à luz de um património cultural, passado e presente, que encontra em Camões a sua referência emblemática, não deveria ser este o registo escolhido.

O Presidente jurista, o Presidente professor, o Presidente académico distinto (e que falta faz à Democracia a Academia, no sentido mais nobre do termo!), com pensamento estruturado e obra feita, deixou-se vencer pelo Presidente comentador mediático. Se é que não o foi, muito simplesmente, pelo Presidente já em evidente pré-campanha de reeleição.

Rui Vieira Nery

Retirado do Facebook | Mural de Rui Vieira Nery

 

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