Cristãos celibatários e eunucos e o problema da palavra «sic» | Frederico Lourenço

Antes de mais, uma epígrafe: «nenhum homem sem testículos e sem pénis pode fazer parte da assembleia (ecclēsia) de Deus» (Deuteronómio 23:1).

Assim, sim; já podemos começar.

A imagem que veem aqui reproduzida é um maravilhoso quadro de Rubens, pertencente à Wallace Collection de Londres. Nele vemos Jesus, Pedro, mais dois discípulos adultos e o jovem Discípulo Amado. E vemos os futuros cristãos, representados sob a forma de ovelhas. A metáfora das ovelhas vem da boca do próprio Jesus, que se descreveu a si mesmo como o «bom (ou belo) pastor» e disse a Pedro para apascentar as ovelhas dele (isto é, de Jesus). Jesus lá teria razões, que a razão desconhece, para pensar nos seus futuros seguidores como animais de rebanho. Mas ao menos que sejamos ovelhas pensantes.

Uma palavra que assumiu especial importância nas discussões à porta fechada sobre o celibato dos padres nos primeiros anos do concílio de Trento foi a palavra «sic», que aparece, no episódio que inspirou o quadro de Rubens, na tradução latina do Evangelho de João (21:22).

A palavra significa «assim»; porém, em João 21:22 é um erro de tradução, pois o que Jesus diz em grego não é «assim» mas «se». No entanto, como a palavra grega ἐάν corresponde, em latim, a «si», facilmente se percebe como «si», devido a erro de cópia, deu «sic».

Porque terá avultado tão importante, para a questão do celibato dos padres, esta duvidosíssima palavra «sic»?

O que está em causa é a interpretação que foi dada por cristãos posteriores às palavras que Jesus diz a Pedro a propósito do Discípulo Amado no final do Evangelho de João. Quando Pedro pergunta a Jesus, «Senhor, este que <futuro terá>?», Jesus responde-lhe em grego, «se eu quiser que ele fique até que eu venha, o que tens tu com isso?»

Quando a frase em tradução latina passou a ter o sentido «ASSIM quero que ele fique até eu venha – o que tens tu com isso?», os cristãos começaram a perguntar-se o que poderia significar este «assim» (a frase em latim é «sic eum volo manere donec veniam»). Jesus quer que o Discípulo Amado fique «assim» como?

Sobre o evangelista do Quarto Evangelho, o Discípulo Amado, desenvolveu-se mais tarde a ideia de que ele teria conservado uma virgindade ideal até ao fim da vida – talvez para desencorajar especulações sobre a natureza da amizade íntima de Jesus com este discípulo, que deita a cabeça no colo do seu Mestre na Última Ceia.

Escrevendo um tratado sobre a virgindade no século VII, Adelmo escolheu como um dos seus exemplos de virgindade perfeita o quarto evangelista, elogiando a sua «virginal pudicícia» num parágrafo em que cita a frase «assim quero que ele fique até que eu venha».

O mais amado dos discípulos de Jesus teria tido de ficar «assim» – isto é, virgem.

Já vimos que essa leitura não é autorizada pelo texto grego (pelo menos nos manuscritos mais antigos do Evangelho de João; há um manuscrito bilingue com grego e latim em que a palavra «assim» foi parar ao texto grego, decerto por influência da tradução latina na página oposta, manuscrito esse a que os teólogos de Trento se agarraram com unhas e dentes por nele verem a defesa de «assim» em vez de «se»: ver J. Harris, «A Study of Codex Bezae», Cambridge, 1891, pp. 36-39).

Agora: porque razão – podemos nós, ovelhas pensantes, perguntar – foi tão importante salientar esta palavra (que Jesus, afinal, não disse) a propósito do celibato?

É que Jesus, na verdade, não disse nada em concreto sobre a abstinência sexual em que se possa basear a ideia de que a virgindade ou a castidade é o estado preferível. No Evangelho de Mateus, há aquelas palavras enigmáticas em que ele elogia aqueles que se tornam eunucos por opção própria por causa do reino dos ceús (Mateus 19:12), mas não é plausível que, neste Evangelho, em que Jesus nos é mostrado como defensor até às últimas consequências da lei judaica, ele possa estar a usar a palavra «eunuco» (tratando-se de um estado escolhido por opção própria) em sentido literal: como se viu, em Deuteronómio 23:1 lê-se que nenhum homem sem testículos e sem pénis pode fazer parte da assembleia de Deus.

O que seriam, então, os eunucos que já nascem eunucos e os que assim se tornam por causa do reino dos céus? Para cristãos gnósticos dos primeiros séculos do cristianismo, talvez a metáfora fizesse sentido como referência à irrelevância do sexo com finalidade procriativa (sendo, desse ponto de vista, as três classes de eunucos os que nascem sem capacidade para procriar; os que são impedidos de procriar por acção humana; e os que optam por não procriar).

Pois é sabido os que gnósticos não se opunham à ejaculação de esperma propriamente dita; opunham-se ao acto sexual em que tal acontece para procriar. Por isso, no texto apócrifo conhecido como «As Grandes Questões de Maria Madalena», Jesus é descrito como mostrando o seu esperma ejaculado «fora» a Maria Madalena, que, em choque, imediatamente desmaia.

Voltando à palavra «sic» que Jesus não disse em João 21:22: ela conhece, no mesmo Evangelho, uma utilização muito expressiva (4:6), quando Jesus se senta «assim» junto do poço que serve de cenário à sua conversa com a samaritana que já tivera cinco maridos e vive agora com um sexto com quem não é casada. O que diz Jesus a esta sua curiosa «apóstola»? Não lhe diz para repudiar o homem com quem vive, mas antes para o chamar, para virem ambos até à presença de Jesus.

Sic. Assim.

Frederico Lourenço

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Lourenço

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