Romance Social O LIXEIRO E O PRESIDENTE de Silas Corrêa Leite

  • Se arte e criatividade são, entre outras coisas, a inteligência e a imaginação se divertindo, segundo Albert Einstein, e, como diz Nelson Oliveira (Prêmio casa de las Américas), o maior mérito de uma obra literária é ser, acima de tudo, uma festa para a inteligência, em O LIXEIRO E O PRESIDENTE, romance social, o escritor, poeta e ficcionista premiado, Silas Corrêa Leite, mostra nesse novo trabalho e de novo polêmico e diferenciado, a face da personagem principal do livro, o Presidente Fernando 2, o néscio, como rotula ele, bem a propósito do que preconiza Sigmund Freud, de que cada pessoa é um abismo, e dá vertigem olhar dentro delas. Bem isso.
  • O livro criativo, ousado, e ainda assim cativante, finca o palco nas narrativas todas em diálogos, entre causos, humores políticos, contações e abobrinhas afins, no Palácio do Planalto, as redondezas e quadradezas, entornos e antros, na Era D.c (Depois de Collor), em que um Fernando 2 – e de Fernando em Fernando o Brasil vai se ferrando – deita e rola no mesmo funesto modus operandi de maracutaias de carteis e propinas da anterior era civil e mesmo do militarismo incompetente e corrupto no processo histórico que o antecedeu, e que nasceu nas hediondas capitanias hereditárias até hoje nos podres poderes do planalto central.
  • A obra, entre uma comédia escondida e uma tragédia camuflada – corja blindada pela justiça e pela mídia abutre corruptas – resgata desvão de almas corrompidas nos flancos dos poderes executivo, legislativo e judiciário, mais o quarto poder, a imprensa blindando uma elite pústula em nome de neoescravistas neoliberais e agiotas do capital emboaba.
  • Uma espécie de neo-nanochanchada feito teatro de marionetes com intervalos de devaneios, em terra brasilis. Nesse universo de possibilidades, entre delírios próprios de um burlesco romance picaresco, o leitor cai no pagode e vai surfando o pavoroso mar de lama que assolou no Brazyl S/A antes do Lula Light, já se apontando com antecedência na obra o que iriam aprontar com o metalúrgico cabeçudo migrante da seca que saiu do nordeste prometendo trazer um rio para sua terra seca e abandonada pelos coronéis ancestrais do tal presidente pegador, galinha, ególatra, ex-comunista, ex-ateu, ex-sociólogo, ex qualquer coisa… Vai por aí o bolero-blues da narrativa toda.
  • Aliás, na quarta capa o romance já alerta que o livro tem tom de denúncia, de apontamento; que investe na reconstrução sistêmica por meio de ironia e de outras escolas literárias, levantando material para repensar o espaço público, entre o viés acadêmico, de documentário e mesmo teórico e pragmaticismo. O fundo falso do poço da história resgatado, pois, segundo Carlos Drummond de Andrade, toda história é remorso. E vai por aí a fábula… o livro…
  • Curiosamente e interessantemente até, o livro no seu bojo inicial traz uma certa “carta” de advertência dos próprios tais editores, cujo termo arrolado no contexto dialoga com a obra como um todo, e nesse prisma irônico avisa o leitor incauto: Não acreditem no autor, no que ele conta; não garantem a autenticidade dos diálogos assentados, as aventuranças dialogais, e até censuram o escritor por escrever um livro assim, num pais que a justiça é honesta, os políticos são idôneos, a imprensa olhos da nação, o povo com eleitores civilizados, etc. e tal. Ler para crer. Aliás, ler para rir. Tudo a ver, tudo a ler.
  • No final feliz – o inferno mora no desfecho, como nós todos sabemos da herança maldita deixada para o Lula Light –  o livro relata as falcatruas do Fernando Dois no poder, e uma tragédia anunciada de foro pessoal é relatada na digamos “ficção-meia-verdade” emparedada, mais o maroteio todo que o autor faz pincelando dados verídicos ou fatídicos aqui e ali, levantando véus ao sabor das falas como chispas,  ironias, ilações, alusões, etc, montando esse teatro enlivrado, mas que, sim, daria uma boa tragicomédia nessa nossa “latrinaamérica” de relembrar Oduvaldo Vianna Filho, mais um misto blasé com Nelson Rodrigues, e ainda algumas pitadas de teatro de absurdos, com um arisco cadinho coloquial de Mário de Andrade, mais sacadas hilária ou rançosas que vão de Eugène Ionesco,  Samuel Beckett,  Fernando Arrabal a Jean Genet.

O Brasil bem que poderia passar sem essa. O escritor surtou com qualidade. O leitor vai entrar pelas portas dos fundos dos subterrâneos todos da deslavada história nua e crua. O último a sair acenda a luz.

Nas coxias do poder, literalmente também, o buraco é mais embaixo.

E que venham o mimimi e o nhenhenhém masturbatório de quem pediu que esquecessem tudo o que falou, garganteando que tinha um pé na cozinha, mas que foi um pé no saco da contemporânea história política brasileira.

E salvaram-se todos os réus.

O LIXEIRO E O PRESIDENTE levanta o tapete institucional das etiquetas protocolares do cargo e revela a faixa presidencial no lixão.

Leia o livro antes que seja proibido.

Maria das Graças M. Aranha

mglaranha@bol.com.br

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