«Dar de comer a quem tem fome» | a Pastoral do Bispo de Beja, em 1953 | via Helena Pato

«Dar de comer a quem tem fome» – a Pastoral do Bispo de Beja, em 1953Um apelo à caridade cristã como forma de superar a dolorosa situação de fome nas populações alentejanas. Mas contem um quadro real da enormíssima pobreza à época, corajosamente denunciada nessa pastoral. Em minha opinião é uma surpreendente pastoral, onde fica dito: «Saudemos e bendigamos essas iniciativas e auroras de benéficas esperanças; que se congreguem, sim, todas as boas vontades para as levar a cabo; que se institua um regímen de trabalho que dê a cada um aquilo a que tem insofismável direito, mas o que importa desde já, e para já, é atenuar a gravidade da hora presente e essa só entra em aspectos de solução proporcionando o alimento aos que têm fome!»

( na íntegra, abaixo)

O AMPARO DOS POBRES

Para as Crianças – para os Inválidos – para os sem Trabalho

Meus caríssimos diocesanos:

SEM esquecer a palavra profética de Jesus Cristo, de que há-de haver sempre pobres no meio de nós, sem pretender estudar as origens dum problema gravíssimo e, muito menos, dar-lhe cabal remédio, eu venho dirigir aos corações bondosos, caritativos e generosos um veemente apelo pastoral que se resume na verificação deste facto doloroso: as condições económicas dos pobres não têm melhorado, antes se agravam impiedosamente, de ano para ano, e o estendal da sua miséria é cada vez mais lancinante. Não posso calar por mais tempo a denúncia de circunstâncias no nosso Baixo Alentejo – não tenho senão que confinar-me aos limites da minha Diocese – que tornam amargurante, definhadora e horrivelmente descaridosa a vida das classes proletárias rurais, circunstâncias que as lançam numa parte sensível do ano nos braços da fome. Seria parcialidade negar os importantes esforços para vencer este mal, já por meio das organizações oficiais, no notável desenvolvimento da assistência pública, no constante progresso das instituições de mutualidade, na periódica preparação de contractos colectivos de trabalho – contractos que ainda não beneficiam as classes rurais – já por tantas obras de caridade particular disseminadas por vilas e aldeias, e pelas generosidades pessoais de tantos corações beneméritos. Tem-se feito alguma coisa: é indubitável. Se as iniciativas oficiais são de louvar, também há que fazer justiça, sincera e profunda, aos sentimentos caritativos do povo alentejano, e aos arreigados e compreensivos movimentos duma compaixão que se traduz em fazer bem, em valer aos necessitados.

TESTEMUNHO PESSOAL – AMPLO DESEJO

Ninguém o pode testemunhar como quem, há 32 anos, está em contacto permanente, diário, com as tendências bondosas dos corações do Alentejo e que nunca estendeu a mão à caridade pública em favor dos pobres, que não fosse largamente atendido e excedido nas suas esperanças. Por isso mesmo, pelos exemplos do passado, pelos esforços realizados com o vosso auxílio cabe-me a inadiável obrigação de vos dizer, o que, de facto, pode não estar patente a todos: as classes pobres não têm sido auxiliadas suficientemente na sua miséria, esta aumenta e cresce de ano para ano, as massas que se debatem com a penúria não diminuem, mas avolumam-se cada vez mais. Perante tantos e tão assinalados progressos no campo da técnica, perante tantas e tão audaciosas construções levadas a cabo, perante tantos e tão porfiados trabalhos públicos que se abrem por toda a parte, como é possível, inquire-se, que a riqueza pública e particular aumente incessante e prometedora, e que os deserdados da sorte sejam cada vez mais numerosos e se debatam com mais profunda e inclemente miséria? Cresce a prosperidade para uns e cava-se a indigência para outros. Não é minha intenção, já disse, estudar as origens do mal, nem posso ter a pretensão de lhes dar remédio. Estão longe de mim esses intuitos. Só me incumbe no cumprimento dum sagrado dever, denunciar, segundo o espírito do Evangelho, às consciências cristãs dos meus diocesanos as graves responsabilidades de todos perante a obrigação de «dar de comer a quem tem fome»! Podem surgir – e surgem – soluções tentadoras, mas a longo prazo; há terapêuticas económicas e sociais para debelar ou atenuar a doença, há esperanças a emergirem do horizonte e iniciativas públicas e particulares, ainda sem realização actual, para dar remédio às amargas horas das famílias dos trabalhadores rurais.

QUADRO LANCINANTE

Saudemos e bendigamos essas iniciativas e auroras de benéficas esperanças; que se congreguem, sim, todas as boas vontades para as levar a cabo; que se institua um regimen de trabalho que dê a cada um aquilo a que tem insofismável direito, mas o que importa desde já, e para já, é atenuar a gravidade da hora presente e essa só entra em aspectos de solução proporcionando o alimento aos que têm fome! Há crianças que definham a olhos vistos? Há! Há inválidos que caem sem o amparo dum pedaço de pão que lhes sustente as últimas forças? Há! Há os sem trabalho que, cercados de filhos, não encontram no seu lar senão o espectro da carência? Há! Não surgem agora, perante uma crise inesperada estes vencidos da vida, não é pela primeira vez que no ano presente crianças, inválidos e os sem trabalho caem inânimes e esgotam as forças à míngua de alimentação; passam já anos sobre anos, crises sobre crises e gerações sobre gerações definhadas, e, enquanto todos vivemos na espectativa de melhores dias e à espera de medidas públicas que remedeiem tão apavorantes condições, os males crescem, o definhamento alastra e a miséria faz aumentar o cortejo das suas vítimas. Temos andado talvez a ocultar a verdade uns aos outros; apregoam-se desmentidos e enquanto surgem no horizonte esperanças nas possibilidades de anos vantajosos e mais produtivos, empregam-se remédios parciais, como são a abertura de trabalhos, ou a distribuição de trabalhadores pelas casas agrícolas, mas não se resolve o problema fundamental da fome que é real, verdadeiro e anti-cristão. Enquanto aguardamos as medidas a longo prazo, importa dar solução imediata, inadiável, para já, para o mês corrente – auxiliando tantos infelizes! Que com estômagos famintos se operem largas devastações nas extensas áreas da China ou da Índia, o que muito é para lamentar, resulta da condição inevitável de não ter chegado lá a luz Divina do Evangelho; mas permitirmos nós que a fome venha bater às portas dos nossos pobres, nestes campos dourados com o sol da mais alta civilização cristã não o podemos, nem o queremos permitir, não queremos tão tremendo encargo para a consciência individual e colectiva de todos nós. Meus caríssimos diocesanos: eis o meu apelo, vamos libertar dos braços da desventura os nossos irmãos pobres, vamos «dar de comer a quem tem fome»!

SOLUÇÃO CRISTÃ E INADIÁVEL

A grande arma, a única arma desta cruzada tem de ser e há-de ser a esmola. Se todos dermos o que pudermos; se vencermos o egoísmo que domina tantos espíritos e abrirmos os corações à generosidade; se pusermos em prática os preceitos salutares da vida cristã e repartirmos com os pobres a nossa demasia, acreditando teórica e pràticamente nas reiteradas e divinas promessas que premeiam a esmola e a tornam a moeda preciosa que alcança a complacência e a misericórdia de Deus; se nos dermos 103 menos ao luxo, às vaidades, às ostentações, aos divertimentos e nos deixarmos tocar pela compaixão, veremos correr uma fonte inesgotável de benemerências, ganharemos esta cruzada da pobreza. Há muitos cristãos, infelizmente que não vêem na esmola um dever de misericórdia, que brota do princípio fundamental da caridade cristã e do natural sentimento da fraternidade humana. A esmola é um dever de justiça, no sentido de que todos os bens da terra foram dados por Deus aos homens, para que os homens deles vivessem, o que assinala a esmola como uma dívida social. Para quantos, lamentavelmente, a esmola não é conhecida como o grande meio da remissão dos pecados, da «multidão dos nossos pecados», como diz o Apóstolo? Para longe o conceito pagão de que a esmola é um favor de quem dá e um aviltamento de quem a recebe. Ela traduz a realidade da caridade e aviva na nossa fé o elementar princípio de ver a pessoa adorável de Jesus Cristo debaixo dos andrajos dos pobres. Vêm a propósito neste ano do Centenário de Frederico Ozanam aquelas suas memoráveis palavras que resumem e tornam eminentemente práticos os ditames do Evangelho: «Conhecemos Deus pelos olhos da fé, mas duma fé infelizmente fraca e débil. Mas enxergamos os homens e temos diante de nós os pobres que vemos com os olhos da carne – aí os temos a mostrarem-se por toda a parte. Estão perto de nós, andam ao nosso lado, o que nos permite meter os nossos dedos nas suas próprias chagas; sim, nós vemos as chagas da Coroa de espinhos na sua própria fronte. Os pobres são a imagem sagrada de um Deus que nós não vemos e, não sabendo nós amar de outro modo a Deus, amemo-lo na pessoa dos pobres com quem Ele se confundiu!» Esta tão terna, como encantadora doutrina, levada à prática cristã, farnos-á compreender a exclamação eloquente de Bossuet quando fala na «eminente dignidade dos pobres no seio de Jesus Cristo e nas altas prerrogativas dos pobres dentro da sua Igreja». Se assim se apreciassem os pobres, nós aceitaríamos a realidade insofismável de que há-de haver sempre pobres no meio de nós, embora a nossa glória e o nosso dever fosse voarmos em seu auxílio com a mão da caridade. Meus caríssimos diocesanos! Convido-vos a resolver este problema actual, candente, amargurante e cheio de responsabilidades, para as nossas consciências, por meio da esmola! Não estejamos à espera, embora as aguardemos, das soluções oficiais imediatas; não apelemos, embora certos de que não nos hão-de faltar para os auxílios do poder central; vamos em testemunho da nossa fé cristã e, inspirados nela com amor fraternal preparar uma obra ampla e generosa de caridade e justiça tendo por base a esmola.

A CONCENTRAÇÃO DO ESFORÇO COLECTIVO

Parece-me que não devemos pensar, de momento, noutra modalidade de auxílio, e são tantas a reclamar a nossa caridade! prestando o nosso auxílio, tão somente, às grandes vítimas do depauperamento: as crianças, os inválidos, e os sem trabalho, numa palavra, todos os que precisam de comer para sustentar a vida. Demos uma vista de olhos a estas três parcelas da sociedade, observando-as não só nos grandes meios, como cidades e vilas, onde também chegam inclementes as misérias, mas estudando os factos nas aldeias mais pobres, longínquas e despontadas; não só quando, por momentos, o trabalho não escasseia, mas sobretudo quando os braços não têm onde aplicar-se, quando as chuvas prolongadas impedem a entrada nos campos, quando não há pão, nem recurso de que lançar mão para o alcançar. As crianças dão um formidável contingente de vítimas nas actuais condições das famílias pobres. No ano corrente, em que a benéfica campanha contra o analfabetismo fez aparecer na escola numerosas crianças, milhares de crianças que a não frequentavam, o espectáculo da miséria infantil tornou-se mais evidente e doloroso. Bem o previu a lei com a elaboração dos estatutos das Cantinas e Caixas escolares, as primeiras para se fornecer, pelo menos, uma refeição diária aos alunos mais necessitados e as segundas para lhes dar livros indispensáveis ao ensino e para distribuir artigos de vestuário e calçado. Foi incontestavelmente uma maravilhosa visão do problema; mas cabe-nos a nós dar-lhe solução prática, auxiliando e fomentando a instituição das Cantinas e Caixas escolares em toda a parte. Consideremos este dado estatístico: para 465 escolas do Distrito de Beja, há, ao todo, 4 cantinas com funcionamento regular. Não podemos também deixar de louvar a obra de assistência infantil das Colónias Balneares, que beneficia as crianças que podem ir às praias, mas que será daquelas que lá não podem ir, por falta de condições de resistência? E estas são pelo menos tão numerosas, senão mais, do que aquelas. Está flagrantemente a correr-se o perigo de cuidar só das sãs e de abandonar as doentes, segundo o estilo do paganismo e do comunismo. Em conclusão: a obra do «Amparo dos Pobres» que desejamos lançar pretende ou deve pretender propor-se como objectivo principal da sua actividade colaborar na criação duma cantina junto de cada escola, com funcionamento permanente em todos os meses do ano escolar. É preciso, é urgente arrancar as crianças aos braços da fome. É, já o dissemos, nosso dever cristão e social. Os inválidos também se debatem com uma assustadora e injusta miséria. Confrange-nos o coração contemplar homens decrépitos, amparados a um bordão, abandonados, tantas vezes, pela família, cheios de dores e de fome, erguendo olhos de compaixão. Qual foi a sua história? A de um trabalhador honrado, de um artista exímio, de um operário honesto; hoje a doença, a idade, a miséria fazem-no arrastar dias da maior e mais angustiosa tristeza! São tantos, e tão pobres e tão necessitados! O salário diminuto não lhes permitiu preparar o pecúlio para a velhice e as pensões distribuídas aos inválidos estão longe de chegar para todos e de dominar todas as indigências dos seus subsidiados. Temos de amparar estes membros inválidos do Corpo Místico de Cristo, é preciso matar-lhes a fome, criando em todas as freguesias em seu favor uma Sopa dos Pobres ou uma Cozinha Económica. Deverá ser este o segundo objectivo do «Amparo dos Pobres» pagar a dívida contraída pela sociedade com aqueles que trabalharam e já não têm forças para ganhar o pão de cada dia. Os sem trabalho são os que ocasionam as horas mais lúgubres. Surgem quando o trabalho falta e são grupos de homens colados às esquinas, sentindo como único conforto, as horas quentes do sol ou andando de porta em porta, esmolando um pedaço de pão para as famílias presas das garras da miséria. Que seria deles se se lhes fechasse a porta da caridade? Dias sucedem-se a dias, semanas a semanas, cansam-se de dar os que davam, mas não se cansa a miséria de atormentar os sem trabalho. Se alguns, por vezes, mais ou menos numerosos, conseguem admissão nos trabalhos públicos, abertos em seu favor, são às centenas os que ficam aguardando melhores dias nas angústias da pobreza e nos tugúrios sem ar, sem luz, sem pão. Só os alentejanos compreendem tais situações, porque temos o espectáculo que as originam diante dos nossos olhos. Estes homens depauperados terão amanhã na sáfara da azeitona, nas sementeiras, nas mondas, nas ceifas, o seu honrado ganha-pão, mas há intervalos, mais ou menos longos, inclementes, em que só vivem de braços caídos, miseráveis, famintos, sem um dia de trabalho remunerador. Não quero carregar as cores deste quadro, porque lhe basta; para ser lancinante a própria realidade, que temos diante dos nossos olhos e nos punge a todos a alma. É forçoso apelar para a instituição das Sopas dos Pobres, ou de Cozinhas Económicas que forneçam diàriamente alimentação às famílias dos rurais que enfileiram nos sem trabalho. Venha o «Amparo dos Pobres» suprir tantas deficiências, prover a tantas e tão urgentes misérias.

O «AMPARO DOS POBRES», FANAL DO DEVER CRISTÃO

O que é, ou o que pode ser o «Amparo dos Pobres»? É a instituição que há-de espalhar benefícios sem conto, que há-de formar a corrente de caridade que prenderá todos os corações bons da nossa Diocese; mas, por ora, só vive na mente pastoral e paternal do Vosso Bispo que a antevê a sombra acolhedora da árvore do Evangelho, abrigando debaixo dos seus ramos todos os que sofrem as inclemências da fome. Que o «Amparo dos Pobres» seja uma organização de caridade diocesana, tendo por fulcro o coração do Pastor da Diocese e por centro de actividade a cidade episcopal, irradiando, porém, por todas as freguesias, chegando onde houver uma criança, um inválido, um sem trabalho! O «Amparo dos Pobres» terá como divisa «dar de comer a quem tem fome», não destruindo, todavia, mas amparando, fortalecendo todas as instituições de caridade, particulares e públicas, da Diocese, incutindo-lhes a vitalidade e fazendo-as realizar os seus fins dentro das respectivas modalidades, tendo sempre em vista os seus particulares objectivos, as crianças, os inválidos e os sem trabalho. O «Amparo dos Pobres» terá uma delegação em cada freguesia para conhecer das necessidades locais, para informar a Caixa Central das possibilidades de angariar esmolas nos meios rurais e promover a fundação de Cantinas, Sopas dos Pobres ou Cozinhas Económicas por toda a parte. O «Amparo dos Pobres» inscreverá entre os seus fins principais a cristianização da esmola: a esmola dá-se por sagrado e inadiável dever cristão; a esmola dá-se sem ostentação; a esmola dá-se na medida imposta pela consciência e numa generosidade voluntária gerada nos sentimentos mais nobres de humanidade; a esmola, a troco de divertimentos, de lucros, de vaidades ou vanglórias, perde uma notável parte da sua eficácia; a esmola é a dádiva espontânea, tirada do supérfluo, arrancada às economias, provenientes de sacrifício, a esmola é uma parte de nós mesmos dada com grandeza de alma e por espírito de caridade. O «Amparo dos Pobres» procurará desenvolver em favor dos pobres a acção benemérita e evangélica das Conferências de S. Vicente de Paulo, de ambos os sexos, servindo-se delas para a realização dos seus caritativos fins. Terá a ambição de fundar uma Conferência em todos os meios rurais, para que por meio de visitas domiciliárias se conheçam as necessidades das famílias e se lhes acuda com justo e razoável remédio, para animar os desditosos, consolar os aflitos, levar o auxílio do médico e reparar os estragos abertos pelas misérias. O «Amparo dos Pobres» não cerceia as esmolas dadas a cada freguesia em especial, o que se recebe numa freguesia é propriedade dos seus pobres, lá fica para lhes ser distribuído, mas procurará aumentar com possíveis subsídios da Caixa Central do Amparo dos Pobres as esmolas locais.

OS GENEROSOS RECURSOS DA CARIDADE

O «Amparo dos Pobres» abre desde já uma Cruzada de esmolas apelando para a generosidade dos lavradores, para os proprietários, sem esquecer os que se encontram ausentes das suas terras, para as autarquias locais, para todas as instituições de carácter recreativo e desportivo, fará peditórios à porta das igrejas, estenderá a mão à caridade pública nos lugares de concorrência popular, nos divertimentos, nas reuniões, em suma, procurará que nenhuma fonte de receita escape à sua actividade caritativa. Sobretudo conta com as esmolas dos corações generosos e desde já peço a todos os meus diocesanos que espontaneamente o queiram fazer, que me enviem as suas generosidades, em dinheiro ou em géneros (haverá um celeiro central para os arrecadar) para iniciarmos com ânimo e decisão a nossa campanha contra a fome. O «Amparo dos Pobres» solicita a cooperação de todos os que queiram auxiliar com o seu esforço, trabalho e dedicação. Nem todos podem dar muito, mas todos podem dar uma parte do seu coração em generosidade aos pobres. Precisa do amparo moral de todos e pede o sacrifício material de quem lho possa dar. O «Óbolo Diocesano» que no dia 23 de Julho a vossa generosidade nunca desmentida, depositou nas minhas mãos, no valor de dez mil escudos, fica desde já a constituir o primeiro fundo do «Amparo dos Pobres». Retiro-o da aplicação a outros objectivos, reclamados pelo progresso material e moral da nossa Diocese e entesouro-o em vosso nome no seio dos pobres, para matar a fome aos meus e vossos irmãos desditosos. Ninguém me levará a mal esta caritativa aplicação, por intenção minha e de todos os que me deram o «Óbolo».

APELO A TODAS AS CLASSES

Na primeira linha espero ver os nossos Padres que nunca abandonaram o campo da actividade caritativa e que quase sempre se encontram à frente das Sopas dos Pobres, das Conferências e da União de Caridade. Foram os nossos Padres que me comunicaram as suas impressões, donde resultou a compreensão do meu dever inadiável de lançar este apelo pastoral. Espero que sejam os primeiros nesta bendita cruzada. No posto do sacrifício estão presentes todos os dedicados elementos da Acção Católica que hão-de dar firme exemplo do seu espírito de caridade. Conta-se com as Câmaras Municipais, Grémios da Lavoura Juntas de Freguesia, Casas do Povo, organismos corporativos, etc.. Precisa-se do generoso auxílio dos distintos médicos espalhados pela vasta área da nossa campanha, cujo espírito de solidariedade está sempre patente, assim como em alto grau o seu humanitarismo até à abnegação e ao sacrifício. Venha-nos de todas as classes, de ricos e de pobres, uma palavra animadora, um gesto de compreensão, um vivo desejo de cooperação nesta luta que vamos sustentar com ânimo e fé contra as consequências da fome. Compreendo, meus caríssimos Diocesanos, que esta é das obras mais transcendentes para que tenho chamado a vossa atenção. Embora velho e combalido, não hesito em lançar este brado de caridade e estou pronto a dispensar todas as minhas forças para vencer o inimigo que enfraquece e depaupera as nossas populações rurais. Crêde, é um grito de consciência que desejo fazer ecoar nas vossas almas e só estarei em paz quando puder verificar que na nossa Diocese não falta o que é absolutamente necessário aos mais pobres dos nossos irmãos e que se «dá o pão a quem tem fome».

Beja, 8 de Dezembro de 1953.

Fotografia de Artur Pastor. Alentejo

Retirado do Facebook | Mural de José Silva Pinto

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