Moderados, uma espécie em extinção? Paulo Sande

1 Os partidos políticos em Portugal vivem sob o signo da inquietude, com dúvidas existenciais sobre o que fazer para assegurar aquilo para que existem, isto é, para conquistar o poder e, depois, mantê-lo. A todo o custo. Custe o que custar, mesmo que isso implique coligarem-se com partidos cuja ideologia execram ou renegarem os eleitores que os elegeram, para satisfazer os mecenas ou sublimar a mais recente, embora efémera, agenda da moda. Temem, se falharem, pela razão de ser da sua existência enquanto partidos políticos. A qual é, como escrevi, conquistar o poder e mantê-lo, a todo o custo.

2 Só que não é. Não que o não seja vezes demais, mas porque não deve ser assim. Não pode ser. Os partidos e os políticos que abandonam os seus eleitores – prometem, sabendo que não cumprirão, traem, escolhendo o poder em detrimento do bem público – não cabem na democracia do século XXI. Que não pode ser igual à do século XX.

3 Mas é muito assim que ainda é. Compadrio. Redes clientelares. Curto prazo que sacia apetites em detrimento do longo prazo que fortalece a economia, o bem-estar e a democracia. É muito assim – mas não deve ser.

4 Em Portugal precisamos de políticos que cumpram as promessas, de um poder ao serviço de quem o poder serve, de um Estado que proteja, não oprima. Por isso, os partidos têm de evoluir. E só evoluirão com os líderes certos.

5 Podem evoluir os antigos partidos, habituados ao jogo das transacções oportunistas, do controlo das instituições, dos meios de comunicação social, da banca? Podem, mas não é fácil. Podem evoluir os novos partidos, repletos de ansiosos por se sentarem nas cadeiras do poder, “pai, estou ministro” ou “deputado” ou “um enérgico autarca”? Podem, mas precisam de agir sem precipitação, inimiga figadal da ponderação.

6 E todos devem privilegiar o interesse público e a expressão das preferências da sociedade como um todo.

7 Porque, no final de contas, sem equilíbrio, sem ponderação, sem bom senso e moderação, uma coisa sabemos: o radicalismo, no discurso como nas acções, é o principal inimigo das sociedades contemporâneas.

8 “Sede sóbrios. Sede vigilantes. Porque o vosso adversário, o diabo, anda em redor, clamando como um leão, procurando a quem tragar.” Di-lo a Bíblia (Pedro 5:8). Há milénios de apelos à moderação e à vida temperada. Nas máximas délficas, “nada em excesso”; em Sócrates (o antigo): “Qualquer tipo de mistura que de uma ou outra forma não possua medida da natureza da proporção corromperá necessariamente os seus ingredientes e, sobretudo, ela mesma” (diálogos de Platão, “Filebo”); e na doutrina aristotélica do meio-termo, cadinho de virtudes (“O homem que tudo teme é cobarde, o que nada teme é precipitado”).

9 O que fizeram os homens de tais conselhos? Os modernos como os antigos optaram muitas vezes pelo radicalismo, contra a moderação. E os temperados, os prudentes, os que buscam o estado médio aristotélico são, pelo menos de início, quando a catástrofe radical ainda não é patente, tragados pelo leão diabólico, descritos como incapazes, fracos, até cobardes.

10 É um erro fatal. No longo prazo, só a moderação vale, reconstruindo até o que a precipitação e o radicalismo destroem ou corrompem. Se olharmos com cuidado para a história humana, foi sempre assim. O mesmo sucedeu em Portugal.

11 Há períodos, mais ou menos longos, em que se impõem as soluções exageradas, radicais e precipitadas. Quanto mais tempo duram, mais mal causam. No fim, só a moderação – a áurea mediania ou aurea mediocritas que o romano Horácio canta numa das suas Odes (II, 10, 5) – pacifica as sociedades e conduz à felicidade.

12 Mas moderação não é sinónimo de cobardia, é o contrário. Em tempos de aperto, diz o mesmo Horácio, o moderado deve mostrar-se valente e corajoso.

13 Só a moderação é sábia, só ela constrói. E quando o discurso radical, violento, se impõe, quando tudo parece perdido – e cresce o lixo nas casas em ruínas -, homens e mulheres de bom senso, de meridiana sensatez, dão a cara e o nome e resistem.

14 O mundo está cheio de exemplos da devastação causada pelo radicalismo. Os desvarios religiosos do islão radical; a obsessão socialista, pauperizando em extremo sociedades dantes prósperas; o mal provocado pelas ideologias identitárias, com o seu cortejo de vítimas inocentes, atingidas pelos estilhaços da parvoíce pós-moderna; os desvios ideológicos, semente do comunismo miserabilista, do capitalismo desregulado ou do fascismo dos grupos de luta. Muitos exemplos, tanto sofrimento escusado.

15 Por tudo isso, os moderados têm a obrigação de resistir. De ser radicais na sua moderação. De não evitar assunto algum, porque nenhum assunto humano é exclusivo de uma facção ou ideologia.

De Horácio: “A áurea mediania, todo aquele que a tem em apreço vive seguro e livre do lixo de uma casa em ruínas, vive com sobriedade e livre da inveja que o palácio provoca (…). Em tempos de aperto, mostra-te corajoso e valente; e, com a mesma sabedoria, recolhe, quando é demais o vento favorável, as velas inchadas” (tradução de Carlos Ascenso André)

*Advogado

Retirado do facebook | Mural de Paulo Sande

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