CARLOS FINO | “PORTUGAL-BRASIL: RAÍZES DO ESTRANHAMENTO” | APRESENTAÇÃO DO LIVRO in Jornal Público

Apresentação

“ouro preto. chego pela primeira vez aonde

sempre estive.”                                              

José Luís Peixoto

Apesar da língua partilhada, dos laços de sangue e de um fundo histórico-cultural comum de mais de três séculos, as relações entre Portugal e o Brasil têm sido reconhecidamente permeadas por um sentimento de estranheza ou desconforto mútuo, mesmo quando no plano estatal – sobretudo em períodos de coincidência ideológica e política dos regimes que os governam – se registam avanços em termos de acordos e tratados celebrados em diversas áreas.

Esse estranho estranhamento opera como fator inibitório do aprofundamento das relações, que estão aquém da intensidade registada noutros casos de relacionamento entre a ex-potência colonial e as ex-colónias, designadamente a Inglaterra com os Estados Unidos e a Espanha com os países latino-americanos.

A latência de uma aproximação não inteiramente realizada entre Portugal e o Brasil já foi até caracterizada como “parceria inconclusa”. Paralelamente, regista-se entre os dois países um défice de comunicação, que tanto pode derivar desse desajustamento mútuo como estar na sua origem. Em qualquer caso, essa (in)comunicação tende a reforçar o estranhamento e vice-versa, num perpetuum mobile de que ambos mutuamente se alimentam.

Investigar as origens dessa realidade, sondar na história do passado comum as razões desse estranhamento e dessa (in)comunicação, este o objetivo da tese que – sob tutela conjunta da Universidade do Minho e da Universidade de Brasília – defendemos, em abril de 2019, no Instituto de Ciências Sociais, em Braga, e serve agora de base a este livro.

Uma tese a que metemos ombros movidos pelo sincero desejo de aprofundar o conhecimento dessa situação e encontrar respostas para uma série de questões que se nos foram colocando à medida que avançava o nosso relacionamento pessoal e profissional com o Brasil e com os brasileiros.

Para tal, procedemos a um extenso levantamento historiográfico, acompanhando os juízos e interpretações de caráter político e sociológico que os acontecimentos foram suscitando ao longo do processo altamente complexo e contraditório de construção e consolidação da identidade nacional brasileira na sua interação com a identidade portuguesa.

A investigação mostrou que não estamos perante fenómeno transitório de fácil superação. O estranhamento entre Portugal e o Brasil tem raízes profundas: surgiu em situações de múltiplos choques de interesses e confrontos, está na génese da própria nacionalidade brasileira e consolidou-se nos últimos dois séculos nas narrativas históricas e sociológicas, tendo depois os seus termos sido absorvidos -consubstanciados numa ideologia de cariz antilusitano aberta ou difusa – pelos sistemas escolar e mediático brasileiros, que os implantaram e fortaleceram no próprio senso comum através de uma reiterada, maciça e sempre repetida popularização.

Note-se, entretanto, que esse antilusitanismo histórico não foi  unilateral – resultou, como veremos, de um processo complexo em que há responsabilidades mútuas – e não se traduz em hostilidade para com o Portugal contemporâneo. Não impede, por exemplo, milhares de brasileiros de viverem e se sentirem bem em Portugal e de muitos milhares de outros o visitarem com gosto, apreciando a tranquilidade e a segurança, descobrindo a paisagem, os monumentos, a gastronomia, e – pesem embora os problemas ainda existentes – os bons índices de desenvolvimento económico-social das últimas décadas; descortinando até – quase sempre com boa dose de surpresa e por entre eventual desconforto com o sotaque e uma ou outra reação mais ríspida ou menos cordial – os insuspeitados ecos de um remoto passado comum.

O mesmo acontece, aliás, com os portugueses que visitam o Brasil, em geral bem recebidos e acolhidos, numa envolvência de grande cordialidade e sem problemas, se forem estóicos o bastante para encaixar as piadas que ainda hoje circulam…

Desta forma, não se reportando ao Portugal contemporâneo e não sendo inteiramente consciente, o antilusitanismo histórico brasileiro pode perfeitamente viajar incógnito a bordo dos aviões da TAP…

Parafraseando Alexandre O’Neill, e por insólito que pareça, esse antilusitanismo é, antes de mais, um problema que o Brasil tem consigo próprio. A inversão de sentido operada no momento da independência para formar – por contraste com a lusitana – a sua própria nacionalidade foi tão intensa e prolongada que o Brasil parece ter esquecido a sua origem.

A ponto, por exemplo, de não só não comemorar oficialmente a Descoberta, em 1500, mas inclusive de a questionar ou mesmo negar; e agora, também, se limitar a mal assinalar, sem verdadeiramente celebrar, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, como se ela não lhe pertencencesse.

Por injustificado complexo, na ânsia de rejeitar o seu passado colonial – imagem que não se ajusta ao sonho de grandeza no qual sempre se revê e projeta – pode dizer-se, na fórmula de Pessoa, que o Brasil fingiu esquecer Portugal; e fingiu tão completamente que às vezes chega a fingir que se esqueceu, quando se esqueceu realmente. Como refere Lourenço, enquanto “todo o português é por dentro um gesto a dizer ao brasileiro que o descobriu”, em contrapartida todo o brasileiro é um gesto, “perfeito e negligente a dizer que não se lembra”…

Para adensar a complexidade da questão, basta recordar que todo o processo de independência – num primeiro momento mais desejada pelos portugueses que na época se consideravam “colónia de uma colónia” – se fez com base no Estado herdado de Portugal e que toda a ideologia antilusitana do Brasil vai beber a rodos ao pessimismo lusitano de final do século XIX.

Mesmo quando mais quer frisar a diferença e a separação, o Brasil parece assim não conseguir escapar a uma indelével marca lusitana, como se esta fosse um fado de que não se consegue libertar. E tanto menos o consegue quanto mais se recusa a reconhecê-la. Em suma, o emaranhado das raízes não podia ser mais perfeito.

Entretanto, apesar desse contínuo e estranho estranhamento e da (in)comunicação que dele se alimenta e o alimenta; apesar do rápido avanço nos últimos anos das igrejas evangélicas, que podem superar a curto prazo a tradicional influência católica, de raiz portuguesa ; apesar das fortes tradições de origem africana e do culto das suas religiões trazidas com a escravatura, designadamente o candomblé e a umbanda; apesar das diferentes identidades indígenas e da influência própria dos diversos grupos étnicos da imigração – dos italianos, espanhóis e alemães aos japoneses, passando pelos sírio-libaneses e eslavos de distintas procedências – que militam, todos eles, no sentido de edificar um perfil nacional distinto e muitas vezes oposto ao português;

apesar de tudo isso, que é imenso, o elemento de origem lusa continua hoje, de uma ou outra forma, a desfrutar de uma hegemonia difusa, mesmo quando a ascendência lusitana, entretanto miscigenada, já se esbateu ou até se perdeu nas consciências.

A sua influência prolonga-se, antes de mais, através do sangue e da língua, mas também de um fundo comum de múltiplos hábitos e tradições, da gastronomia à religião e ao imaginário. A própria padroeira católica do país – Nossa Senhora de Aparecida – embora de aparência negra, é afinal a imagem (encontrada no fundo de um rio por pescadores, no começo do século XVIII e por isso enegrecida) da bem portuguesa Nossa Senhora da Conceição – padroeira de Portugal (ALVAREZ, 2014).

Por outro lado, toda uma miríade de festas católicas celebradas anualmente de Norte a Sul do país – Círio da Nazaré, em Belém do Pará; Bonfim, em Salvador; Bom Jesus dos Navegantes, em Sergipe; São Sebastião, no Espírito Santo… há muito que vem carreando e mantendo vivas uma série de práticas de raiz lusitana. Daí que o próprio Sérgio Buarque de Holanda – que queria cortar essas raízes por considerá-las obstáculo ao desenvolvimento – tenha acabado por reconhecer que subsiste entre os dois países uma “alma comum”.

“Um substrato unificador poderoso” – confirmaria,  mais tarde, Antônio Cândido – “formado pela língua e por influências originárias de todo o tipo (literárias, folclóricas, arquitetônicas, urbanísticas, familiares) geradoras de uma fôrma na qual se acomodam os neobrasileiros de vária origem”.

Seja como for, ainda que correndo paralelo e em confronto com essa influência difusa, mas real, de origem portuguesa e tendo também que se defrontar com uma corrente lusófila sempre mais ou menos presente, o antilusitanismo não é algo de efémero: está – como veremos – na génese da própria nacionalidade brasileira e vem sendo desde a origem reiterado pela escola e pelos média, o que obviamente dificulta qualquer ação que tenha por objetivo ultrapassá-lo. Sobretudo se não houver – como não tem havido até agora – um trabalho persistente em termos de comunicação por parte de Portugal.

Por outro lado, da independência do Brasil para cá, tudo parece ter sido já tentado para minorar a estranheza que assim se instalou entre os dois países. E tudo também parece ter mais ou menos claudicado, esgotadas que foram múltiplas e diversas iniciativas de (re)aproximação – do lançamento de revistas literárias conjuntas a utópicos planos de confederação – acabando por se instalar de parte a parte um clima de lassidão, cansaço e descrença, pouco propício ao surgimento de novas ideias nessa matéria.

Embora tendo disso plena consciência, identificadas que foram as raízes do estranhamento e da (in)comunicação, arriscamos, no final da investigação e à luz das teorias e práticas já existentes, sugerir o que – em traços gerais – poderia ser feito para ao menos mitigar o desconforto/(des)sintonia que em permanência atravessa o relacionamento entre Portugal e o Brasil.

Mais importante do que isso, no entanto, o maior contributo que este livro poderá eventualmente dar para o aprofundamento da relação Portugal-Brasil é tornar essa questão de fundo cada vez mais consciente, conhecendo-se a sua origem e os seus porquês.

Carlos Fino | Retirado do Facebook

Lisboa-Brasília, 2019/2021

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