A Falácia dos 2% para a Defesa  | por Carlos Matos Gomes

Quando um dirigente político apresenta a necessidade de aumentar as despesas militares para os 2% do PIB está a considerar-nos implicitamente 98% estúpidos por acreditamos nele. 

Os Estados Unidos, o secretário-geral da NATO e os ministros da Defesa da NATO têm estado a apresentar como necessidade essencial de defesa dos países da Aliança contra a ameaça russa um valor mínimo de 2% do PIB de cada Estado para despesas ditas com a defesa.  

É uma falácia – O termo falácia deriva do verbo latino fallere, que significa enganar. Designa-se por falácia um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente incoerente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega.  

É uma falácia assente em pressupostos falsos a vários títulos. A invasão da Ucrânia pela Rússia demonstrou que as Forças Armadas Russas têm tido grandes dificuldades em atingir os seus objetivos na Ucrânia, sejam esses objetivos a ocupação do país, a derrota das forças armadas ucranianas, ou até apenas a ocupação de uma faixa de 20% do território (Donbass e margens do mares de Azov e Negro).  

O potencial relativo de combate (grosso modo) entre a Rússia e a Ucrânia consta do Quadro 1.  

 Efetivos AFC (Blindados ligeiros) CC (Carros de Combate) Aviões Combate Navios Superfície Fragatas e corvetas 
Rússia 900.000 13.020 2840 1160 15 F+ 40 (corvetas) 
Ucrânia 209.000 1169 858 125 1 F+ 1 Corveta 

Quadro1 

Apesar de as forças armadas ucranianas terem sido organizadas e treinadas pelos Estados Unidos e outros países da NATO como uma força de ordem interna de suporte a um regime favorável (a oligarquia que gerou Zelenski) e, no limite das suas capacidades, como força de provocação à Rússia no Donbass, apesar de a organização do terreno das forças ucranianas no Donbass e nas periferias de aglomerados populacionais e sobre os eixos principais ser de média resistência (trincheiras escavadas e campos de minas), apesar da não existência de grandes obstáculos naturais (o terreno é plano), o facto é que as forças russas têm tido grande dificuldade em ocupar e vencer umas forças (as ucranianas com os seus meios e alguns de reforço) e sem apoio aéreo, bastando o apoio da NATO nas capacidades de Comando, Controlo, Comunicações e Informação. As forças russas, no seu avanço de leste para ocidente, não chegaram sequer ao rio Dniepre! 

Os países da NATO conseguiram meios e modo para deter a Rússia utilizando as forças ucranianas, sem empenharem em combate nenhuma das suas unidades terrestres, aéreas ou navais. Sem empregarem a sua artilharia, os seus blindados, os seus helicópteros de ataque e os seus bombardeiros! A NATO tem à retaguarda da Ucrânia todo o seu potencial intacto – um potencial significativo e superior ao russo, mesmo sem contar com os Estados Unidos e o Canadá! Quadro 2  

 Efetivos AFC (Blindados ligeiros) CC (Tank) Aviões Comb Navios Superficie (Frg) 
Bélgica 25.000 74  54 
Bulgária 17.000 280 90 24 
CZK Rep 24.900 247 30 38  
Dinamarca 15.400 344 40 44 
Estónia  7.100 180    
Finlândia 23.800 875 100 107  
França 203.250 3.135  467 (212 Lc + 245 AMX) 279 18 
Germany 183.500 1438 245 228 
Grécia 142.700 242 1228 230 13 
Hungria 27.800 392 48 14  
Itália 165.500 1988 200 223 12 
Países Baixos 33.600 514  73 
Noruega 23.350 527 36 68 
Polónia 58.500 2.118 137 94 
Portugal  27.250 452 37 35 
Roménia 68.500 927 377 60 4 corvetas 
Espanha 122.850 1315 327 175 
Suécia 14.600 1475 120 96  
Turquia 355.200 6716 2378 316 16 
Reino Unido 148.500 1817 227 225 13 

Quadro 2 

O aparelho militar dos países europeus da NATO tem custado aos contribuintes cerca de 1,5 do PIB e tem sido suficiente. Quadro 3 

Assim: se 1,5% do PIB empregue em despesas com armamento têm sido suficientes para deter a “ameaça russa” no leste da Ucrânia, numa faixa de 120 quilómetros de largura, que necessidade existe de gastar mais meio por cento para obter o mesmo resultado? 

Alguém em Bruxelas, seja na sede da NATO, seja na sede da EU, um daqueles milhares de funcionários, já se deu ao trabalho de analisar a relação de custo-eficácia das despesas militares? Se a intenção do aumento das despesas com armamento for derrotar a Rússia no seu território, então os 2% de aumentam não chegam, como se conclui da invasão da Ucrânia, onde a Rússia não consegue avança e instalar-se. Quanto às tentativas de a Europa Ocidental invadir a Rússia, existem na história duas más experiencias: a de Napoleão e a de Hitller. Os 2% do PIB são suficientes para ensaiar uma nova aventura?  

A proposta de aumento das despesas militares para os 2% não é necessária para defender a Europa da Rússia e é insuficiente para a Europa derrotar a Rússia. Os políticos europeus estão a ludibriar os cidadãos. Os únicos que lucrarão com o aumento serão os fabricantes de armamento, em particular os do complexo militar norte-americano. 

Os cidadãos europeus deviam perguntar aos políticos como justificam o aumentam de despesas militares! É que o dinheiro pode fazer falta para necessidades reais, para ameaças reias resultantes de desastres ambientais, de pandemias, de envelhecimento da população, de empobrecimento, de migrações, de fome.  

Quando um dirigente político apresenta a necessidade de aumentar as despesas militares para os 2% do PIB está a considerar-nos implicitamente que 98% estúpidos para acreditarmos neles.  

Estes dados são públicos e retirados da Revista The Military Balance 2021 – do The International Institute for Strategic Studies, do Reino Unido, que os dirigentes políticos deviam conhecer, assim como os artistas civis convidados para animarem as sessões de espiritismo sobre a guerra na Ucrânia promovidas pelas televisões.  

O link onde pode ser encontrar toda a informação é: https://hostnezt.com/cssfiles/currentaffairs/The%20Military%20Balance%202021.pdf 

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