BERTRAND RUSSEL | por AS Curvelo-Garcia

Nascido em 1872 no País de Gales e falecido em 1970, foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos, ensaístas, historiadores e lógicos do século XX que, em vários momentos na sua vida, se considerou um liberal, um socialista e um pacifista.

A sua postura em vários temas foi bastante controversa.

Até à sua morte, a sua voz teve sempre grande autoridade moral, tendo sido um crítico influente das armas nucleares e da guerra dos USA no Vietnam: foi bem um líder carismático da minha geração.

Em 1950, recebeu o Prémio Nobel da Literatura, “em reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideais humanitários e pela liberdade do pensamento”.

Russell iniciou seus estudos de Filosofia na Universidade de Cambridge, em 1890, tornando-se membro do Trinity College em 1908.

Pacifista, e recusando alistar-se durante a Primeira Guerra Mundial, perdeu a cátedra do Trinity College e esteve preso durante seis meses. Nesse período, escreveu a “Introdução à Filosofia da Matemática”. Em 1920, viajou até à Rússia, tendo posteriormente sido professor de filosofia em Pequim, durante um ano.

Durante algum tempo, viveu à custa da escrita de livros populares, explicando matérias de Física, Ética e Educação para leigos, fundando a escola experimental de Beacon Hill em 1927.

Com a morte do seu irmão mais velho em 1931, Russell tornou-se o terceiro conde Russell.

Em1939, foi viver em Santa Bárbara (USA), ensinando na Universidade da Califórnia. Foi nomeado professor no City College (de New York), mas depois de controvérsia pública, a sua nomeação foi anulada por tribunal: as suas opiniões, como as encontradas em seu livro “Marriage and Morals”, tornaram-no “moralmente impróprio” para o ensino.

O seu livro “Why I Am Not a Christian” que foi uma pronunciação realizada na década de 1920 na seção sul da National Secular Society de Londres e o ensaio “Aquilo em que Creio” foram outros textos que causaram a confusão.

Em 1955 redigiu, com Albert Einstein, o “Manifesto Russel-Einstein”, alertando sobre os perigos da proliferação de armas de destruição em massa. Dois anos depois, em parceria com Jozef Rotblat, fundou o movimento “Pugwash” contra a proliferação de armas nucleares.

Em 1962, já com noventa anos, mediou o conflito dos mísseis de Cuba para evitar que se desencadeasse um ataque militar.

Bertrand Russell escreveu a sua autobiografia em três volumes nos finais da década de 1960, falecendo em 1970 no País de Gales, tendo as suas cinzas sido dispersas sobre as montanhas galesas.

Durante sua vida, Russell elaborou algumas das mais influentes teses filosóficas do século XX, ajudando a fomentar uma das suas tradições filosóficas, a chamada “Filosofia Analítica”. De entre essas teses, destacam-se a tese logicista, ou da lógica simbólica, de fundamentação da Matemática. Um dos elementos impulsionadores desse projeto foi a descoberta, em 1901, de um paradoxo no sistema lógico de Frege: o conhecido “Paradoxo de Russell”. Concebeu a teoria das “descrições definidas”, apresentada em franca oposição a algumas de suas antigas ideias. Da volumosa obra de Russell, destacam-se o seu livro de 1903, “The Principles of Mathematics”, o clássico ensaio de 1905 “On Denoting”, considerado um dos paradigmas da história da filosofia, o livro em três volumes, em coautoria com Alfred Whiteheadautoria, publicado entre 1910 e 1913 (“Principia Mathematica”) e da sua segunda edição de 1925, para além de seus imensos artigos e conferências.

Complementarmente, Russell passou os anos 1950 e 1960 envolvido em várias causas políticas, principalmente relacionadas com o desarmamento nuclear e a oposição à Guerra do Vietnam.

O “Manifesto Russell-Einstein” foi um documento pedindo o desarmamento nuclear assinado por 11 dos físicos nucleares mais proeminentes e intelectuais da época.

Escreveu muitas cartas aos líderes mundiais durante este período. Tornou-se um herói para muitos dos membros da juventude da Nova Esquerda.

Em 1963, Russell tornou-se o primeiro destinatário do “Jerusalem Prize”, um prémio para os escritores preocupados com a liberdade do indivíduo na sociedade.

Em outubro de 1965, rasgou o cartão do Partido Trabalhista Inglês, porque suspeitava que o partido iria enviar soldados para apoiar os EUA na Guerra do Vietnam.

Ao longo de sua vida Russell escreveu diversos livros e ensaios criticando e propondo novas soluções para a sociedade em diferentes momentos, desde a virada do século XIX até boa parte do século XX.

Russell manteve-se politicamente ativo até o fim de sua vida, escrevendo para os líderes mundiais exortando-os ao respeito das causas que defendia, emprestando seu nome a elas.

Russell propôs, na sua autobiografia, um “código de conduta” liberal baseado em dez princípios, à maneira do decálogo cristão (Não tenhas certeza absoluta de nada; Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz; Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso; Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é irreal e ilusória; Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas; Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te; Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas; Encontra mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda; Seja escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la; Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso).

Bertrand Russell foi pois uma das personalidades que mais influenciaram o pensamento mundial do século XX, designadamente da minha geração e das anteriores, como matemático, como filósofo e como pacifista.

AS Curvelo-Garcia

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