QUE VIVA CUBA! | António Ribeiro, jornalista in “Facebook”

che_guevara_fidel_castroPara quem não sabe, não se lembra, ou não viveu nos anos 50/60 do século XX. Em nome da realidade histórica. E independentemente de simpatias ou antipatias políticas. Mas é bom saber, ler e reflectir. Belo texto!

Parabéns ao jornalista António Ribeiro.

Não me sinto o mais indicado para tecer loas a Fidel Castro. Não é que ele não as merecesse e garanto-vos que merecia mesmo! Liderar um país que era miserável em 1960 contra os interesses da mais agressiva superpotência mundial, e tudo isso a apenas 150 quilómetros de Key West (Miami), que em matéria de valores e de estilo de vida é uma espécie de América ao quadrado, não há-de ter sido nada fácil. É aliás obra de gigante, isso podem crer. Nacionalizar os sectores monopolistas americanos (hotéis de luxo, batota casineira, tráfico de droga, prostituição à escala industrial, banca, produção e distribuição de electricidade e exclusivo das comunicações) sem pagar nada aos donos daquilo tudo foi uma empreitada e pêras! Logo a seguir convém lembrar as tentativas de assassinato, a nojenta aventura da Baía dos Porcos orquestrada pela CIA, a questão irresolvida de Guantánamo e, sobretudo, o escandaloso boicote comercial que deixou o país à míngua de tudo, incluindo os sobressalentes indispensáveis para manter máquinas e equipamentos em estado operacional. Muita gente não sabe, ou já esqueceu, que o embargo não era só anti-Cuba, era também contra todas as companhias do mundo inteiro que teimassem em manter negócios com Cuba, em exportar para Cuba, em voar ou navegar para lá, entidades às quais era automaticamente vedado ter relações comerciais com companhias americanas. Uma chantagem política miserável, inumana e desproporcionada, que pretendia esmagar um povo inteiro e estimulá-lo à insurreição contra os seus dirigentes. De maneira que os EUA transformaram-se eles mesmos, a propósito de Cuba, numa imensa “baía dos porcos”.

Se a América tivesse querido ser um país decente teria recorrido para os tribunais internacionais, teria negociado nos bastidores diplomáticos compensações adequadas e faseadas no tempo, mas não teria feito o terrorismo de estado que de facto fez contra um povo inteiro. Sim, porque o que a América fez a Cuba, em retaliação pelo facto de ela ter ousado revoltar-se, foi um formidável genocídio social, sem paralelo algum no mundo moderno, seja em intensidade, seja em duração. Neste contexto dramático e violento, que vive de factos que não são propaganda mas absolutamente testemunhados e comprovados ao longo de décadas, não faz qualquer sentido vir agora invocar erros, exageros e violações de certos direitos. Nunca fui esquerdista, sou apenas um social-democrata à esquerda, mas tenho de contextualizar tudo o que aconteceu na Cuba de Fidel para poder valorizar as coisas boas e as coisas más que lá aconteceram ao longo de quase seis décadas. E o saldo que Fidel legou à História é algo de formidável. À cabeça, a noção de que um país não se verga à agressão e que um povo unido jamais será vencido. Nós conhecemos esse slogan em Portugal, mas lá é que ele fazia todo o sentido, na pureza integral das ideias e dos ideais. Mas há muito mais. À falta de direitos económicos e a impossibilidade prática de empreendedorismo privado, Fidel respondeu da única maneira possível num estado sitiado: construiu um sistema de educação gratuita, um sistema de saúde gratuita, um sistema em que todos tinham direito a um tecto para viver. Chama-se a isso direitos sociais, que não substituem os outros direitos transitoriamente comprimidos, mas que não são menos importantes do que os direitos das liberdades abstractas, que em certas condições políticas e sociais não servem para nada. Fidel encostou-se à antiga URSS? Pois sim, mas que alternativa tinha ele, se ele não aceitava capitular? Fidel não foi gentil com os seus opositores, mas que alternativa tinha ele se não queria entregar o poder ao inimigo? Cuba é um caso à parte no panorama internacional. Leiam o livro magnífico da filha do chefe da PIDE de Salazar que emigrou para Cuba e lá teve uma vida de mão cheia em termos de sucessos pessoais e profissionais. Leiam que Silva Pais (o chefe da PIDE de Salazar) teve autorização para ir visitar a sua filha em Cuba, não obstante a extrema diferença ideológica entre ambos os regimes. Eles não impuseram que a Filha não contactasse com os seus Pais! Falem com as elites das sociais-democracias escandinavas, que tanto ajudaram Cuba e Fidel, e percebam por que motivo dirigentes políticos que nada tinham de “comunistas” sempre acarinharam e apoiaram o regime cubano, mesmo enfrentando o desagrado americano. Neste momento histórico, e mesmo tendo presente que algumas coisas desagradáveis não precisavam de ter acontecido, eu vos digo: Que Viva Cuba! E parabéns a Fidel, que deixou uma marca indelével na História. A marca de independência nacional, da resistência ao imperialismo e da autonomia política dos povos. Que grande lição ele nos deu!

01-12-2016

Retirado do Facebook | Mural de António Ribeiro, jornalista

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