Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes in “Os Anos da Guerra Colonial” | Continuação

fotocarlosmatosgomesAinda a propósito das efervescências patrioteiras a despropósito das responsabilidades do dr Mário Soares na descolonização.
Em primeiro lugar não foi o doutor Mário Soares que decidiu derrubar o a ditadura, nem terminar com o sistema colonial que após 13 anos de guerra não tinha outra solução que não fosse continuar a guerra.
Não foi o dr Mario Soares que decidiu o cessar fogo na Guiné, nem o estabelecimento de conversações com o PAIGC.
Não foi o dri Mário Soares que decidiu estabelecer ligações com a Frelimo, nem com os 3 movimentos em Angola. Foram alguns militares, entre os quais me orgulho de estar incluído.
Antes desses militares, os do 25 de Abril, já o professor Marcelo Caetano estabelecera conversações com o PAIGC em Londres, com o MPLA através de Paris e Roma, com a Frelimo através do engenheiro Jardim e de Keneth Kaunda.da Zambia (planos Lusaka).
Já vários generais conspiravam para derrubar Marcelo Caetano, Spinola, Kaulza de Arriaga, entre outros.
Mas, antes de tudo, já o doutor Salazar se tinha comportado com a estranha inação perante os massacres de Março de 1961, para se manter no poder e mais tarde, em Dezembro, deixaria os militares portugueses . abandonados na Índia.
Isto é, quanto a “traidores”, traidores a sério, chefes que traem os seus militares estamos conversados.

Aqui vai o texto que eu e o Aniceto Afonso escrevemos em “Anos da Guerra Colonial”, pg 65, com o título (simpático) de A estranha inação de Salazar. Aqui fica para os fiéis do patriota de Santa Comba:
“A estranha inacção de Salazar (Aos Massacres do Norte de angola)
O governo português e as autoridades em Angola sabiam desde 1960 que a UPA ia desencadear uma ofensiva no Norte de Angola. Mantiveram-se ambos, contudo, apáticos perante todos estes sinais de alerta, sem alterarem as suas rotinas. Ninguém foi responsabilizado. Salazar criara à sua volta um ambiente em que as verdades incómodas simplesmente não existiam. Portugal só podia viver em paz. Os males do mundo não o atingiam. Salazar tratava Portugal como um quintal fora de portas. Com ele a zelar por tudo, o país vivia adormecido numa ficção de que acordaria violentamente.
A ausência de reacção às notícias são um excelente revelador do salazarismo, do seu desprezo pela realidade, da incapacidade de prever e de agir em conformidade com uma dada situação, da burocracia asfixiante, da falta de respeito pelos cidadãos, do sentimento de impunidade.
Uma explicação para a inacção de Salazar é a de que o salazarismo vivia da fé. As coisas aconteciam por vontade divina. Como referiu Adriano Moreira, o Estado salazarista é um Estado beatificável.
Mas é possível uma outra interpretação, mais racional, para a ausência de reacção de Salazar a estas notícias. A sua atitude seria uma acção deliberada para provocar um efeito desejado. Salazar e o regime, esgotados e enfraquecidos após anos de poder ditatorial, ameaçados pela consolidação da nova ordem do mundo, em conflito com os aliados tradicionais, com uma oposição interna mais forte e moralizada após a campanha de Humberto Delgado, necessitava desesperadamente de arranjar um acontecimento que unisse os portugueses à volta do regime.
Um ataque de guerrilheiros a populações indefesas era o detonador ideal. Todos os condimentos se reuniram em Março de 1961 para excitar os ânimos: os guerrilheiros eram negros, vindos do estrangeiro, actuaram com uma rara e chocante barbaridade sobre brancos e negros, homens, mulheres e crianças.
Em abono desta tese pode apontar-se o facto de rapidamente terem sido despachados jornalistas e fotógrafos para as zonas de massacre. Rapidamente as fotos do horror surgiram nas páginas dos jornais, mais em Portugal do que em Angola.
A inacção do governo de Salazar face aos sinais e às notícias que chegavam de África continua sem explicação racional até hoje. A existência da UPA era conhecida desde 1957, data da independência do Gana. A independência do Congo Belga ocorreu em Junho de 1960 e provocou uma vaga de refugiados entre a grande colónia portuguesa ali residente, mas o governo manteve em Angola as Forças Armadas como se nada tivesse mudado, com um dispositivo de tropas ultramarinas, armadas com espingardas do início do século.
Ausência de dispositivo militar
Na zona Norte, a mais exposta aos ataques, não existia nenhuma unidade militar. A Marinha não dispunha de uma só lancha com capacidade para patrulhar o rio Zaire, que seria uma das fronteiras por onde os guerrilheiros passariam obrigatoriamente. Para fiscalizar o grande rio, a Marinha Portuguesa dispunha apenas de um posto administrativo em Santo António do Zaire, chefiado por um sargento artilheiro, que fazia serviço de escrivão, com um sargento condutor de máquinas, um marinheiro artilheiro com funções de cabo do mar, uns civis faroleiros e uns marinheiros indígenas. A aviação militar não tinha qualquer base aérea permanente em Angola, sendo os aviões destacados das bases da Metrópole. Não existia um sistema de comunicações militares. Não existia um sistema de logística. Não existiam sequer uniformes de combate. Não havia legislação apropriada a acções militares. A arma individual era a Mauser do início do século, ou a pistola-metralhadora FBP, fabricada em Portugal. As poucas viaturas eram GMC e Jipões americanos fornecidos para equipar a divisão NATO. Não tinham qualquer blindagem. Os únicos blindados existentes em Angola eram os EBR e os ETT Panhard, dos Dragões, mas estavam em Silva Porto, no Leste. Os EBR pesavam 15 toneladas, manobravam dificilmente nas florestas e nas picadas e o seu longo canhão não podia fazer fogo por falta de campos de tiro, o que levou os militares, mais tarde, a retirá-lo e a utilizarem as autometralhadoras como um enorme jipe blindado.
O potencial militar que existia em Angola para fazer face a uma agitação previsível resumia-se a sete companhias do Exército, cinco das quais de tropas nativas, uma fragata, dois patrulhas e um navio hidrográfico, alguns aviões de bombardeamento e reconhecimento PV-2 Harpoon e P2-V Neptune destacados da Base da Ota. No total, 9200 homens, contando com uma companhia móvel da PSP”….
Pag 65

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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