Os Demónios Loucos que governam o mundo | Carlos Matos Gomes in “Medium”

(…) os comunicadores querem fazer-nos acreditar que um ser como o Trump, ou a May ou o pequeno Macron, estão inconsolavelmente preocupados com a saúde e as comodidades essenciais dos comerciantes de damascos sirios, dos vendedores de tecidos, dos velhinhos sírios, dos sírios de meia idade, os estudantes sírios! Eles amam desinteressadamente os sírios e a Síria!

Os recentes ataques à Síria, o anterior à Líbia, a invasão do Iraque, mas também a negação das alterações climáticas, ou ainda, para ir mais atrás, a ideia de um Povo Eleito, as invasões napoleónicas, ou a construção da Muralha da China e agora da do México, só para recordar alguns atos de dirigentes políticos ao longo dos tempos, levantam a questão da natureza racional e moral dos seres que ao logo dos século alcançaram o poder de governar os povos. Da racionalidade e da moralidade dos condutores da humanidade. Em linguagem maoista, da natureza dos nossos queridos lideres e também dos santos que adoramos.

A conclusão é a de que esses seres, homens e mulheres e, em particular aqueles a História consensualmente considera grandes, a que se juntam os que se querem fazer e se julgam grandes, são seres que agem racional e moralmente. A realidade demonstra o contrário: Os seus grandes feitos, além de serem na maioria dos casos grandes desastres, não apresentam uma razão lógica de custos benefícios — foram geralmente inconsequentes, sem préstimo, ou causadores de situações piores do que as anteriores. O caso do ataque à Siria é o mais recente. Tão inútil e tão perverso como os anteriores.

O pior e o mais antigo exemplo da atuação do homem sobre a natureza, contra ela, agredindo-a, foi a transformação num deserto do antigo Crescente Fértil da Mesopotâmia, a bacia dos rios Tigre e Eufrates, berço de civilizações através da agricultura intensiva. O berço da civilização nasceu de uma decisão imprudente.

A ideia de um povo que se considera eleito é uma ideia racista, com todas as consequências visíveis no comportamento do Estado de Israel, que utiliza essa bandeira como justificação para as suas atitudes supremacistas.

As invasões e os chefes invasores têm um infindável e milenar cadastro de desastres históricos, de Roma aos bárbaros, dos hunos aos napoleónicos, para não contabilizar os que resultaram das colonizações.

A muralha da China foi tão inútil como o Muro de Berlim, mas há pelo menos um crente que no México vai resultar. É o mesmo que lançou o ataque à Síria e que defende a América como a terra do povo eleito, branco e loiro como ele.

São as estátuas desses seres irracionais e imorais, dos invasores, dos violentadores da natureza (também tivemos por cá o contributo de Salazar na campanha do trigo que desertificou o Alentejo), dos racistas como os do povo eleito, dos construtores de muros que estão semeados pelas praças e becos do planeta. A estatuária mundial é uma floresta de loucos e imorais. De filhos da mãe do pior. Mas não é bem visto afirmá-lo. Que diabo, prestamos-lhes honras com cornetas e enfeitamos-lhes os pés com coroas de flores!

Contudo, o tema dos demónios loucos que fizeram e fazem a História é muito raramente abordado. Os académicos, os pensadores e os fazedores de opinião fogem dele a sete pés. Com razão. É que abordar os males do mundo pelo lado da loucura, da estupidez e da imoralidade leva à conclusão que nós, os seres comuns, em nome de quem falam os que têm acesso aos meios de comunicação, constituímos um rebanho que não só se deixa conduzir por loucos imorais, como é desse rebanho que eles saem!

E mais, na maioria dos casos até os aplaudimos, os exaltamos, por vezes os santificamos e, alguns casos, os elegemos! Ninguém que escreva uma tese, que seja tratado por senhor doutor, que vá às televisões, que profira uma conferência se dispõe ao enxovalho de gritar que os reis vão nus e vivem num estado de negação, que são irresponsáveis e se vêm ao espelho como deuses triunfantes em cima de um monte de lixo, o povo.

A atração por loucos irresponsáveis, fanáticos e imorais, por demónios loucos é recorrente na história da nossa espécie. Faz parte da nossa essência. Produzimos e seguimos chefes loucos e imorais — se fôssemos abelhas escolheríamos para rainha uma vespa que destruísse a colmeia! — mas não só os seguimos da armas nas mãos e bombas nos aviões, como os adoramos na forma de santos loucos nas nossas religiões.

Nas religiões, essas velhíssimas artimanhas dos primeiros chico-espertos da nossa espécie para racionalizar o irracional da vida eterna, os mais exaltantes exemplos são o dos santos loucos, uma classe especial de figuras das várias religiões. Indivíduos como Paulo de Tarso — que se converteu a caminho de Damasco, e se transformou de fanático fariseu em fanático cristão, como os yurodivy da tradição asceta ortodoxa, como o São Basílio, que andava nu por Moscovo e carregava pesadas correntes, ou os ascetas hindus, adhus ou renunciantes, que deixam todo seus bens materiais e que moram nas cavernas, florestas.

A reflexão filosófica e a análise da política fogem de considerar a irracionalidade e a imoralidade dos decisores políticos e a atitude dos santos. Mas essa decisão é apenas uma atitude de defesa do seu estatuto: é desprestigiante, pouco elevado, discutir ou comentar atos loucos e imorais. Assim, os filósofos, os politólogos e muitos historiadores, para dignificarem o seu métier e o seu objecto de trabalho intelectual, realizam uma operação de ornamentação da loucura e da imoralidade, inventando factos ou manipulando-os de modo a eles surgirem como racionais e morais. Logo, a partir daí, dignos de reflexão.

Regressando à Síria. Quando nos falam deste ataque à Siria, a questão não é a de buscar causas racionais para ele na estratégica: — domínio de uma região; da polemologia: — manutenção do princípio da guerra permanente; da economia: — o domínio de matérias-primas; da moral: — é condenável e punível o uso de armas químicas, mas sim a de apresentar como aceitável, conversável, estudável uma ação irracional e imoral de três loucos desprovidos de princípios, que elegemos como seres normais.

Aquilo a que chamamos análise do problema sírio, com painéis de especialistas e académicos de renome é apenas uma encenação para todos, comunicadores e respeitável público (como somos tratados quando vamos ao circo), fingirmos que pertencemos à mesma humanidade e que eles não nos estão a levar para o precipício da guerra.

O discurso dos aparelhos de comunicação social ao serviço dos demónios loucos, sempre sério e grave, bem embrulhado em termos técnicos, a propósito destes ataques, como dos anteriores, e dos que se seguirão assentam na habilidade de nos apresentarem os demónios loucos como seres em quem devemos confiar, a agirem sempre pelo bem, e que merecem ser deixados aos comandos da nave por uma questão de fé e contra todas as evidências.

No final, eles (os comunicadores) querem fazer-nos acreditar que um ser como o Trump, ou a May ou o pequeno Macron, estão inconsolavelmente preocupados com a saúde e as comodidades essenciais dos comerciantes de damascos sirios, dos vendedores de tecidos, dos velhinhos sírios, dos sírios de meia idade, os estudantes sírios! Eles amam desinteressadamente os sírios e a Síria!

Eu confesso-me comovido com tais preocupações humanitárias vindas de tais criaturas.

Carlos Matos Gomes 

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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