“CONVERSANDO” COM D. MANUEL II, A PROPÓSITO DO DIA DE HOJE | 5 de Outubro | António Galopim de Carvalho

(…)

Terminada esta conversa, procurei aproveitar o contacto com este atencioso, culto e último representante da monarquia portuguesa para saber um pouco mais acerca daquele período que marcou a transição para a República.
– Julgo que o vosso reinado não foi fácil.
– Não foi fácil, não. O último governo do meu pai era presidido por João Franco, que se tornou um ditadorzinho. A repressão estúpida que exerceu sobre os seus adversários políticos culminou com a prisão de grandes figuras do Partido Republicano, como Afonso Costa e António José de Almeida.
– E foi nesse contexto que se deu o regicídio.
– Sem dúvida. Os republicanos tinham esboçado um levantamento a 28 de Fevereiro, mas o exército manteve-se fiel à coroa. Foram presos mais de cem conspiradores. Foram alguns dos que escaparam à prisão que mataram o meu pai e o meu irmão.
– Mortos o monarca e o príncipe herdeiro, o vosso destino ficou logo ali traçado.
– Feito rei aos 18 anos, adeus carreira na marinha, um sonho que ficou por cumprir.
– Foi, por assim dizer, um reinado conduzido por republicanos.
– Diga-se que numa onda que já vinha de trás, do tempo do meu pai. A influência dos republicanos crescia a olhos vistos. No Congresso, que reuniram em 1909, criaram um directório com a incumbência imperativa de conduzir a luta política no sentido da revolução. Deste congresso, em meu entender, histórico, saiu um comité revolucionário no qual tiveram papel de destaque grandes intelectuais e políticos, como o escritor, historiador, jornalista e diplomata João Pinheiro Chagas, que foi, depois, primeiro-ministro da República, o Doutor Afonso Costa, advogado e lente da Universidade de Coimbra, o Dr. António José de Almeida, médico e, mais tarde, o sexto Presidente da República, e, ainda, o vice-almirante Cândido dos Reis. No propósito de serenar os ânimos, minha mãe conseguiu a demissão de João Franco.


– Nesse Congresso esteve representada uma organização feminina.
– Facto que o torna histórico. Nele esteve representada a Liga Republicana da Mulher Portuguesa, a primeira organização feminina criada no nosso país.
– Pouco depois, teve lugar a megamanifestação da chamada Junta Liberal.
– A Junta Liberal era uma organização paramaçónica e declaradamente anticlericalista, onde militavam grandes nomes da intelectualidade e da política, como eram os médicos António Aurélio da Costa Ferreira, Miguel Bombarda e Egas Moniz. Nessa grande manifestação a favor da república, do liberalismo e do progresso participaram mais de 100 000 pessoas.
– E a agitação política não pára.
– De maneira nenhuma. Logo a seguir a esta manifestação, a maçonaria nomeou uma comissão incumbida de colaborar mais estreitamente com a Carbonária. Dessa comissão faziam parte António José de Almeida, Cândido dos Reis, Miguel Bombarda e o oficial de marinha Machado Santos. Durante todos estes acontecimentos que iam enfraquecendo a monarquia constitucional eu mantive a minha postura de total respeito pelas normas do regime em que fui coroado. Não me envolvi nos assuntos da governação, adoptando a máxima “o rei reina mas não governa”.
– Mas também houve agitação telúrica.
– Não estou a perceber?
– Estou a referir-me ao tremor de terra de Benavente.
– Recordo-me perfeitamente. Foi a 23 de Abril de 1909. Houve mortos, feridos e avultados danos materiais. E foi sentido em Lisboa com intensidade avaliada como de grau VI.
– Esse sismo, que atingiu uma magnitude 6 a 7, na escala de Richter, foi o mais violento gerado em Portugal no século XX. Foi sentido no local com grande intensidade, avaliada como de grau IX a X. O epicentro localizou-se entre Samora Correia e Benavente e o abalo está relacionado com um sistema de falhas que percorre o vale inferior do Tejo.
– Voltando à política, devo dizer que não fui um rei distante. Fui o primeiro monarca a não dar a mão a beijar no, quanto a mim, vergonhoso e detestável beija-mão real, do dia 1 de Janeiro. Cumpri à risca o meu mandato.
– Um mandato ao estilo da rainha Isabel II de Inglaterra.
– Digamos que sim. Dediquei muito tempo ao estudo e à escrita. Interessei-me por história, por línguas e pela música.
– A vossa reputação como historiador e bibliófilo é reconhecida e há, mesmo, quem vos considere o mais erudito dos reis portugueses. Em reconhecimento dessa erudição, o vosso busto está hoje no átrio da Biblioteca Nacional de Lisboa.
– É um juízo sobre o qual não me compete dar opinião.
– Fala-se do vosso envolvimento com o Partido Socialista de então.
– Esse pequeno partido foi formado no reinado de meu avô, D. Luís, mas não tinha, sequer, representação parlamentar. A fraquíssima industrialização da nossa sociedade não era de molde a criar uma classe proletária suficientemente numerosa e importante.
– Também se diz que era o Partido Republicano que, pela sua inspiração demasiado radical, agregava a quase totalidade dos descontentes.
– Assim era, de facto. Para os socialistas era indiferente o regime. Monarquia ou República, era-lhes indiferente. O essencial era, para eles, eliminar a pobreza e dar melhores condições de vida ao operariado. Estavam, portanto, dispostos a apoiar-me. E, assim, passei a olhar o seu partido como um elemento importante para o regime, na medida em que podiam retirar militantes e apoiantes ao Partido Republicano.
-E isso, claro, desagradou aos republicanos.
– Penso, mesmo, que acelerou o processo revolucionário. Os conjurados contavam com a insubordinação dos quartéis e da marinha, em Lisboa. Na noite de 3 para 4 de Outubro de 1910, dos dez quartéis da capital, só dois saíram à rua com pouco mais de 400 homens e os carbonários não se apresentaram à chamada. Na marinha, apenas dois navios se juntaram aos revoltosos. Na convicção do malogro do golpe, o vice-almirante Cândido dos Reis pôs termo à vida e os líderes republicanos trataram de se esconder.
– Os militares revoltosos concentraram-se ao cimo da Avenida da Liberdade, no local onde hoje é a Praça Marquês de Pombal.
– Mas foram deixados à sua sorte. Os oficiais que os tinham comandado fugiram. Foi um dirigente de uma sociedade secreta que assumiu o comando destes homens, já perfeitamente desorientados. Felizmente para os revoltosos, o comando militar de Lisboa não reagiu por razões ainda não bem explicadas. Ao fim dessa manhã, o Palácio da Necessidades foi bombardeado pelos navios amotinados e eu tive de abandonar Lisboa. Refugiei-me no Palácio de Mafra e, daí, segui para a Ericeira onde embarquei para Gibraltar acompanhado de minha mãe e de minha avó, D. Maria Pia de Saboia.
– E a seguir foi o exílio em Inglaterra.
– A morte de Cândido dos Reis e a de Miguel Bombarda, assassinado por um demente no Hospital de Rilhafoles, não impediram o sucesso da revolta. Na manhã do dia 5 a desorganização entre as tropas governamentais era total e ninguém sabia onde paravam os membros do governo. Pelas 10 horas, o directório do Partido Republicano proclamava a República nas varandas dos Paços do Concelho.
– Que eu saiba, praticamente, não se chegou a combater.
– A monarquia caiu de podre. Não teve quem a defendesse. Os escândalos e as traições por parte de políticos influentes desacreditaram-na.
– Foi o que aconteceu no dia 25 de Abril de 1974. O Estado Novo caiu de podre, sem ninguém que o defendesse. Sem luta.
– Julgo que no 5 de Outubro de 1910 só morreu um civil e houve meia dúzia de feridos. A monarquia caiu por si, também ela sem luta. A república, tenho de o admitir, preencheu um vazio político. Na realidade vivia-se uma monarquia constitucional dominada por republicanos. O meu pai dizia que vivíamos uma monarquia sem monárquicos, que é o mesmo que dizer que éramos uma república com rei. Os grandes poderes da nobreza e da Igreja estavam bastante limitados.
– Isso por obra dos liberais?
– Os liberais tinham conduzido o regime monárquico ao estilo de um Estado Cívico, ou seja, uma comunidade soberana de cidadãos patriotas, apenas sujeitos à lei e que aceitavam o rei, mas com poderes limitados pela Constituição. Este respeito dos republicanos pela figura do rei, na tradição monárquica católica, era uma atitude de prudência, no sentido de não desencadear reacções entre os mais conservadores. Os liberais até diziam que a monarquia constitucional era a “melhor das repúblicas”.
– E qual foi a reacção da Europa ao Portugal republicano?
– As potências europeias, todas monarquias, menos a França, esperaram para ver, mas acabaram por reconhecer o novo regime.
– Num país, segundo julgo saber, disposto a varrer toda e qualquer lembrança da monarquia.
– Uma nota dominante do novo regime foi, de facto, o rompimento com o passado. Diziam alguns que “o País é para todos, mas o Estado é para os republicanos”. Os cargos e os empregos públicos eram ocupados pelos membros do Partido Republicano.
– É mais ou menos como agora, com os chamados boys.
– Rejeitaram a bandeira azul e branca. Poderiam ter-lhe, simplesmente, retirado o símbolo da coroa. Mas não. Substituíram-na pela verde rubra, quanto a mim, feia. Outra nota do republicanismo dos novos dirigentes foi terem posto de lado o hino da Maria da Fonte, substituindo-o pela Portuguesa, uma marcha anti-inglesa de 1890. Até trocaram a moeda. O escudo substituiu o real.
– Mas os monárquicos não cruzaram os braços. Surgiu, então, o Movimento Monárquico de RenovaçãoNacional.
– Criaram a Junta do Integralismo Lusitano, que se apressou a afirmar-me plena lealdade. Mas eu recusei esse apoio porque os seus mentores advogavam o regresso à monarquia tradicionalista e eu sempre fui fiel à Constituição. Vendo fechada esta porta, uniram-se aos legitimistas, transferindo a sua lealdade para o ramo miguelista, apoiando D. Duarte Nuno, o filho, ainda menor, de D. Miguel de Bragança e neto do nosso rei D. Miguel.
– E o que pensais do actual governo socialista de Portugal?
– É tudo menos socialista. São muito poucos, e não têm voz, os socialistas que hoje se batem para que o seu partido seja realmente, socialista. Eu identifico-me mais com o maior partido da oposição que, embora se reclame da social-democracia, é, essencialmente, um partido liberal.
– Não me dizeis nada que eu não soubesse. Fora da política, sei que haveis casado em Inglaterra, mas que não chegastes a ter filhos.
– Casei em 1913 com Dona Augusta Vitória, minha prima. Não tendo filhos, aceitei, num encontro que tive em Paris, com representantes do ramo rival, passar os meus direitos para D. Duarte Nuno.
– Que era o pai do actual pretendente ao trono, D. Duarte Pio de Bragança.
– Exacto. Sempre pretendi restaurar a monarquia, mas por meios pacíficos. Não aprovei as incursões monárquicas de Paiva Couceiro, de 1911 e 1912, nem o golpe que, em 1919, no Porto, lhe permitiu proclamar a chamada Monarquia do Norte, que não chegou a durar um mês, na qual colaboraram activamente os mais notáveis integralistas lusitanos.
– O afastamento de Portugal magoou-vos muito?
– Muito mesmo. Nunca me desliguei do meu país nem da política portuguesa. Nunca interferi, mas, sempre que foi preciso, dei-lhe o meu apoio. Aquando da Grande Guerra, solicitei a minha incorporação no exército republicano português, mas só me deixaram ser oficial da Cruz Vermelha. Leguei todos os meus bens ao Estado Português e agradou-me que o governo republicano tenha autorizado a trasladação do meu corpo para Portugal, depondo-o no Panteão dos Braganças.
…………
(in “Conversas com os Reis de Portugal – Histórias da Terra e dos Homens”, Âncora Editora, 2013)

António Galopim de Carvalho

Retirado do Facebook | Mural de António Galopim de Carvalho

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