Boris Johnson, o Coriolano | Carlos Matos Gomes

Há dez anos sofremos a crise do subprime, ou do Lehman Brothers. Uma crise longa, com resultados devastadores nas economias e na vida dos cidadãos europeus. Essa crise foi um fator influenciador do Brexit e da ascensão de vários políticos populistas ao governo dos seus países, na Europa e pelo mundo.

A crise do euro, dos resgates, das troikas foi aparentemente resolvida, os mais ricos ficaram mais ricos e os mais pobres mais pobres. Negócio habitual. Mas na Europa as feridas mantiveram-se e numa reunião de há dias, num conselho europeu destinado a discutir medidas de combate à pandemia do Covid-19, elas foram reabertas a propósito da questão essencial da solidariedade entre os estados da União Europeia. Vieram de novo ao cimo os nacionalismos mais ou menos racistas dos nórdicos (germânicos, também) e as visões mais integradoras dos países do sul. Ricos e pobres. Ressurgiu a velha fábula da formiga e da cigarra, a que o então ministro das finanças holandês Jeroen Dijsselbloem deitou mão, dirigindo-se aos países do sul: “não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda”.

Não deixa de ser revelador que seja o governo do Estado que desenvolve a política fiscal mais agressiva de captura de capitais dos outros estados, da sua riqueza, a Holanda, o menos solidário. Que seja o Estado mais próximo do gangsterismo neoliberal o que mais desenvergonhadamente acusa os outros de mau governo!

Os nacionalistas ricos ganharam então em toda a linha, impuseram medidas draconianas de rigidez orçamental, destruíram empregos, causaram uma crise social, transferiram riqueza do Sul para o Norte, acentuaram as desconfianças entre os povos, puseram em causa a utilidade e até a viabilidade do projeto europeu e, com o argumento da inutilidade da União (que eles promovem), fizeram eleger uma piara de dirigentes populistas à custa das críticas a estas políticas, que, no fundo são as suas, as do salve-se cada um como puder, sem olhar para o lado. O objetivo final era e é matar a União Europeia como espaço decisivo no xadrez político, militar e económico mundial.

A forma como na Europa foi enfrentada a crise iniciada há mais ou menos uma década promoveu a emergência de um discurso político e de atores que, no fundo, justificaram os sofrimentos com as leis naturais, salvaram-se os mais fortes, os mais espertos, pagaram os mais fracos e desprotegidos, evitou-se o crescimento da União Europeia e a sua entrada na arena das lutas decisivas pelo poder no mundo. Esses castradores (ou capadores), que tiveram Durão Barroso como voz do dono na presidência da Comissão Europeia, minando-a por dentro, cumprindo o papel de infiltrado por conta dos Estados Unidos e do Reino Unido, de Bush e de Blair, deram o que tinham para dar, estão agora na “banca privada”, são consultores eméritos, dedicam-se ao lobismo e à manipulação das opiniões públicas mascarados de comentadores. É fatal que esta presente crise ainda em desenvolvimento gere e promova novos atores, uma nova tropa de arruaceiros políticos armados com um discurso adaptado às circunstâncias e com os velhos truques embrulhados noutras roupagens.

Nas Américas, do Norte e do Sul, a nova pregação já está em pleno desenvolvimento (nunca deixou de estar) através dos evangelistas, do discurso milenarista, das mixórdias bíblicas, da promessa de uma salvação baseada na fé e no saque aos miseráveis, aos recursos naturais, no primarismo e no aproveitamento do desespero. No final, reinará o complexo militar-industrial americano. E na Europa, a nossa terra-mãe? A Europa, nunca tendo sido uma entidade política, exceto, talvez, durante as Cruzadas, dispõe de uma civilização com dois mil de anos de fermentação, nascida na Grécia, uma religião milenar com o seu sistema de valores, produziu ao longo de séculos sistemas racionais de interpretação do mundo, separou a Igreja do Estado e resistiu com algum sucesso à epidemia do populismo, manteve-se em banho-maria. As injeções de venenos para matar a Europa como ator de relevo mundial têm, por isso, de ser ministradas por celebrantes mais sofisticados. A Europa é, numa imagem popular, um lar de velhas meretrizes que podem ser seduzidas, mas são relapsas às paixões. Para as rugosas madames se deixarem levar é necessário um sedutor competente, um proxeneta de alto gabarito, e os que apareceram a candidatar-se a galo da capoeira foram até agora figuras menores e sem credibilidade. A exceção foi Boris Johnson, o populista triunfante revelado no Brexit da Inglaterra.

Esse populismo triunfante parece ser o que apresenta as melhores condições para tomar o facho do populismo europeu no pós segunda crise. A situação na Europa está hoje politicamente muito mais apodrecida do que há dez anos, e os europeus mais disponíveis para acolher um salvador, alguém que convença as velhas damas de prazeres a desmontarem o bordel e a voltarem a trabalhar por conta própria. Julgo que o novo Messias do populismo da segunda vaga será Boris Johnson, apesar a imagem de desajeitado, de ser cambaleante, propositadamente desmazelado, de anti sex simbol, o que transmite confiança, pois não é agressivo, nem assusta. Há quem o apelide de palhaço. Seja. Mas o palhaço é a alma do circo! Boris Johnson lembra-me uma personagem de Shakespeare, Coriolano, por sua vez inspirado na obra de Plutarco «Vidas dos Nobres Gregos e Romanos».

A tragédia Coriolano deve ter sido a última escrita por Shakespeare e expressa a visão de um observador genial da humanidade no ocaso da vida. Coriolano reflete uma opinião desiludida, irónica, depressiva da humanidade, num anticlímax, como o que hoje vivemos. Shakespeare, em Coriolano, apresentou os poderosos do mundo fascinados por eles próprios, narcísicos, orgulhosos, atentos às circunstâncias e, principalmente às suas conveniências, mas também cegos e sem consciência dos seus limites. Personagens que atraem multidões e provocam emoções, como os cometas. Os ingleses utilizam a expressão “we are doomed!” (estamos condenados, ou lixados) quando querem referir a aproximação de um cataclismo, que tanto pode ser um raio letal, um asteróide, como um maltrapilho com poderes mágicos e de quem se espera o melhor e o pior. Apostam neles como nos cavalos de corrida! Já agora, ad latere, um dos grandes campeões no século dezanove teve até o portuguesíssimo e vernáculo nome de “Filho da Puta”!

Não sou, muito longe disso, especialista em Shakespeare (aliás, não sou especialista em coisa alguma), mas por razões que não vêem ao caso emprateleiram-se cá por casa muitas obras de Shakespeare em várias versões, maioritariamente em inglês, entre elas encontrei uma tradução em português, da antiga Lello & Irmão, do Porto, de que me voltei a servir com o gosto da releitura em circunstâncias diferentes. Coriolano já constituía para mim a personagem mais fascinante da galeria de Shakespeare. Era, em meu entender, a personagem mais diretamente envolvida na luta pelo poder. Apesar de Coriolano ser apresentado por alguns conceituados shakespirianos como um antipopulista trágico, agora, ao reler a tragédia com os olhos de hoje, deste tempo, vi nele a matriz do que imagino será a nova vaga de políticos populistas que irão surgir na babugem da crise e de que Boris Johnson me parece ter as condições para servir de referência, ou modelo. É a minha leitura. Rever a personagem de Coriolano pode ajudar a conhecer o mais brilhante dos seus sucessores, aquele que, julgo, será o líder populista do futuro na Europa.

Ler Coriolano ajuda-me a compreender Boris Johnson, que é, em minha opinião, o mais insidioso e eficaz vírus do populismo europeu. Shakespeare, através de Coriolano, explica não só como chegámos a esta espécie, como nos fornece pistas sobre modo de infetar dos vírus que lhe sucederão. Boris Johnson é um revelador das pandemias futuras, daí a sua importância.

Tal como Coriolano foi no seu tempo de cônsul romano, Boris Johnson é um aristocrata a vários títulos, por origem familiar, por pertença social, por cultura, o que o distingue das torres de Trump ou de vermes como Bolsonaro. Boris Johnson, tal como Coriolano, entende e assume que para os nobres como ele as virtudes e defeitos são naturais e equivalem-se, são inseparáveis e da mesma grandeza. Para ele, as virtudes, sendo privadas, servem pouco na arena amoral e impiedosa da política. As ações arbitrárias são bem-vindas sempre que reforcem o poder. O crime é um instrumento, nada mais. Desprezam a virtude, a moral, a ética. A natureza de personalidades como Coriolano ou Boris Johnson não se altera perante qualquer catástrofe, e apenas temem aquilo que Aristóteles designou como erro trágico, ou hamártia, o mal (o que neles equivale a uma ação com maus resultados) cometido pelo protagonista de uma tragédia, que origina a peripécia que o derruba.

Boris Johnson, tal como Coriolano, governa em conflito, de um lado a sua arrogância pessoal, de aristocrata e do outro a realidade política, que o opõe aos tribunos populares, no caso atual os membros do parlamento inglês escolhidos para representar os interesses das pessoas comuns, os eleitores. No Brexit, Boris Johnson agiu como Coriolano contra os tribunos, os MP, incluindo o simpático que gritava Order!, pateticamente, e que tentavam bloquear as tentativas que levou a cabo de impor a sua vontade e de se apresentar ao povo como o herói que lhe satisfez as suas aspirações, incluindo as traições a Theresa May. Boris Johnson, tal como Coriolano, pretende governar saltando por cima dos deputados e do parlamento e fá-lo-á, está a fazê-lo. Este salto, ou by pass, é o sonho de todos os líderes populistas, mas ele conseguiu implantá-lo sem dor e com a conivência dos subjugados. Venceu a guerra sem combate, a prova do génio do general, segundo Sun Tzu. O Parlamento Inglês é hoje um balcão da geral dos teatros onde uma claque bate palmas ao cônsul Boris Johnson, agora com poder absoluto (apesar de infetado) depois de banir os adversários. Resistem os bárbaros escoceses, mas julgo que se servirá deles, soltando-os do Reino Unido sem real tristeza, para se servir da sua secessão como exemplo a seguir por outros nacionalismos europeus…

Na peça de Shakespeare, tal como na atuação de Boris Johnson, vemos num primeiro ato uma mistura de elementos aristocráticos e democráticos e, num segundo, a derrota do regime de poderes balanceados que existiu no senado até Coriolano tomar o poder. Boris Johnson, do mesmo modo que Shakespeare representou Coriolano, toma a multidão e seus tribunos eleitos como os inimigos da prerrogativa hierárquica e, no seu caso, aristocrática.

Os líderes populistas europeus pós crise vão copiar os métodos de Boris Johnson e seguir os seus princípios. O seu programa assenta no confisco do poder pela demagogia, mesmo à custa de provocar a anarquia, o que para os ingleses pode ser aliciante. A apregoada disciplina dos ingleses é aparente e fruto de uma sociedade estratificada e hierarquizada. Sóbrios, os ingleses são obedientes, nada mais. O modo como os lordes tratam os criados, os cavalos e os cães são exemplares da ordem inglesa. As assistências aos jogos de futebol da Premier League explicam a diferença entre a sobriedade e a bebedeira nas classes médias e baixas inglesas, nas multidões.

Em Coriolano os homens são guiados por uma luz que os cega. Boris Johnson sabe que a multidão é facilmente encadeável e manipulável. Não tendo nenhuma filosofia política consistente, a multidão seguirá qualquer pregador que saiba aliciá-la com promessas agradáveis. A partir da tomada do poder fornecerá um programa de venda contínua de emoções. Será um take away de promessas. Receberá o desprezo das multidões e o aplauso com o mesmo sorriso e o mesmo gesto de desgrenhar os cabelos. É o comportamento que vemos à porta do 10 de Downing Street, ou na entrada do Parlamento. Para ele a multidão, a populaça, é uma “hidra com muitas cabeças,” sem direção e irresponsável. Em privado, falando aos da sua classe, Coriolano descreve a multidão como uma turba mal cheirosa, “de hálito fedorento”, “pescoços enfumaçados”, “fétidos bonés engordurados” e “dentes sujos”. Os cidadãos romanos são um rebanho, “comedores de alho”, “patifes como as raposas e os gansos, insolentes e sediciosos”.

Esse retrato deliberadamente repulsivo de Coriolano sobre os romanos não é muito distinto do que Boris Johnson terá dos londrinos e dos ingleses em geral. Excrementos. É o mesmo que o ministro das finanças holandês tem dos latinos e os populistas latinos, que Le Pen, Salvini, o espanhol do Vox e o português do Chega têm, por sua vez, dos ciganos e imigrantes em geral.

Os novos tribunos que surgirão no rescaldo desta crise do Covid-19 estarão dispostos a desencadearem a violência da multidão para alcançarem os seus objetivos, encorajarão a “populaça” a agitar-se à sua ordem. A sua estratégia, como a de Coriolano, será a de fomentar o clamor, sobrepondo a histeria à razão, como escreveu Shakespeare. Na peça de Shakespeare os tribunos temem que Coriolano busque “um só trono, sem assistência” e que suprima as liberdades. Não é um medo infundado, e os próprios amigos de Coriolano o aconselham a somente atacar os tribunos, os eleitos, apenas depois de alcançar o poder, não antes.

A insolência aristocrática de Boris Johnson é a reprodução do desprezo de Coriolano pelo povo de Roma, a quem tratava como “trapaceiros discordantes” e como “cães rafeiros abaixo da abominação”. Boris Johnson demonstrou durante o processo do Brexit ser relutante no cumprimento da Constituição (de normas arrevesadas para um não indígena) e em submeter-se aos cidadãos, mas soube interpretar com falsa humildade o papel de leal servidor da Coroa que eles lhe pediram em troca doa seus votos.

Melhor morrer, definhar de fome
Que mendigar a paga que merecemos.
Por que ficar aqui em túnica de Job
A implorar a um José Ninguém
O seu voto dispensável

“É um papel, que eu até coro ao representá-lo,” confessa Coriolano aos seus amigos na peça de Shakespeare. Mesmo aqueles que admiram os seus talentos concedem que é desagradável aceitar bajular o povo para ter o seu amor, mas esse é o preço a pagar para não ter contra ele a sua má vontade, ou, pior, o seu desprezo. Coriolano professa em público o amor ao seu país, mas é um patrício e tornar-se-á um traidor contra uma Roma que dá voz política aos plebeus que ele tanto abomina. É assim também o seu patriotismo — o amor à Britânia pátria amada — de Boris Johnson e dos populistas que o imitarão. Aconteça o que acontecer, Boris Johnson acredita como Coriolano que as prerrogativas da aristocracia (seja a de sangue seja a dos negócios) são os únicos bastiões de Roma (tal como de Londres) contra o caos. Boris vê o povo como um seu rebanho privado, insaciável e irracional, instintivamente invejoso dos seus melhores, mas felizmente incapaz de compreender às subtilezas do governo — a série Yes Minister é uma boa caricatura da apreciação do povo feita pelos líderes populistas. Coriolano sabe que a tendência que hoje diríamos do politicamente correto, a moda, é a de agradar às exigências populares com o compromisso, mas os populistas preferem uma escaramuça a fingir de batalha, como Boris Johnson no conflito para a aprovação do Brexit. Ele tentará que os outros acreditem que o erro está no mundo em vez de em si.

A tragédia Coriolano descreve uma sociedade fascista? Coriolano era um proto-fascista? Há que analisar as situações no seu contexto histórico. O fascismo contém elementos de populismo, de egoísmo, de demagogia, de racismo, incluindo o de classe social e atores como estes da tragédia Coriolano, mas o populismo Boris Johnson e dos que o replicarão será uma adaptação do poder dos tiranos à capacidade de ler a realidade das contemporâneas sociedades caraterizadas por fracos laços de coesão, constituída por indivíduos atomizados e à mercê das tecnologias da manipulação.

Que antídoto para os Coriolanos? Identificá-los e barrá-los à nascença, por muito fascinantes que pareçam as suas promessas e até as suas vitórias. Levar Boris Johnson a sério ajuda. Como ajudou Ulisses a escapar ao canto das sereias, porque conhecia o resultado de seguir os seus cânticos.

Qual o fim de Coriolano?

Coriolano acaba morto por Aufídio, o general aliado, depois de o ter traído assinando uma paz com Roma. A sua morte foi necessária para que a sociedade romana pudesse reconstruir um regime republicano (democrático). Coriolano foi vítima do seu êxito, sacrificado para instaurar uma nova ordem. Boris Johnson sabe, como Coriolano, que o seu caminho só pode terminar com a sua morte política. Se negociar com Bruxelas um acordo, mesmo que seja um acordo favorável a Inglaterra, estará morto por não ter conseguido a vitória absoluta de destruir a União Europeia. Se tiver destruído a União Europeia estará morto porque nada mais lhe resta do que ser um herói inútil.

Na peça Galileu de Bertold Brecht, o seu destino é o do herói que não encontra quem precise dele.

Born 1946; retired military, historian

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