A reeleição de Trump e a destituição de Bolsonaro — os efeitos da reputação | Carlos Matos Gomes

Reputação tem origem no latim, reputatio-onis, e significa ponderação, conceito favorável ou desfavorável. Como palavras relacionadas o dicionário apresenta, reputaria e figurona.

A comunicação social nacional e internacional tem referido como questões importantes a reeleição de Trump e a destituição de Bolsonaro, a este através do processo que os brasileiros designam por “impinchamento”, dentro da mesma lógica que os leva a chamar “midia” à comunicação social. Já sobre a reputaria não é conhecida adaptação. A palavra e o conceito valem por si.

À primeira vista a eleição de presidentes dos EUA e do Brasil seria um assunto importante para a comunidade internacional. Os EUA são uma superpotência planetária e o Brasil a maior potência na América do Sul, além de falar uma versão do português e de lá viver uma numerosa comunidade portuguesa. Não é assim. Trump e Bolsonaro conseguiram o feito de tornarem as suas eleições e destituições irrelevantes! E não só as deles, como a dos que lhes venham a suceder! Eles destruíram a reputação dos seus países. Transformaram a reputação em reputaria e eles próprios se assumiram como figuronas, ou, em termos de Carnaval de Torres Vedras, como matrafonas.

Trump e Bolsonaro não tornaram irrelevantes os seus países, tornaram-nos perigosos. Conseguiram fazer dos seus dois países Estados não fiáveis, como ninhos de lacraus. Os cobardes — e Trump e Bolsonaro são típicas personalidades cobardes — são por natureza agressivos e insensatos. A desconfiança sobre a administração destes estados e do seu corpo eleitoral é irreversível. Não se trata de uma perda de virgindade de um Estado até aqui exemplar, nem de recuperação de uma imagem de seriedade, porque nem os EUA nem o Brasil, nem qualquer Estado vive ou foi jamais governado em pureza. Não existem Estados beatificáveis, para utilizar o belo termo do professor Adriano Moreira, mas os EUA e o Brasil eram, com os seus defeitos, Estados frequentáveis. Com estas duas figuras na suas chefia ficou às escâncaras que existem uns EUA maioritários à moda de Trump e um Brasil maioritário à moda de Bolsonaro, estados voyou, na terminologia francesa, estados bandidos, crápulas. A Klux-klux-klan existia nos EUA e era conhecido o seu poder, mas não era entendida como uma instituição determinante no poder dos EUA, como Trump a promoveu, por exemplo. Os jagunços e outros matadores a contrato eram conhecidos no Brasil, até geraram um bandido popular, o Lampião, mas não eram o poder. Com Bolsonaro e os filhos marginais eles são agora a lei e a ordem. Não há lixívia que lave esta nova realidade. E não há vacina contra novas escolhas do mesmo tipo. Recaídas.

Trump e Bolsonaro abriram a porta a novos Trumps e Bolsonaros. Por muito bem intencionado e virtuoso que seja qualquer sucessor, todos os responsáveis mundiais olharão por cima dos seus ombros e verão os predadores e as aves de rapina que elegeram estas duas criaturas. Cesteiro que faz um cesto faz mil cestos, quem elegeu estes, poderá eleger produtos similares se surgir uma circunstância azarada. A comunidade internacional, em vez de reputação verá reputaria, isto para utilizar o vernáculo bolsonarista.

As sociedades atuais da nossa civilização dita cristã e ocidental estabeleceram-se com base no contrato social teorizado por Hobbes e Locke. Um contrato em que os indivíduos abdicam de parte da sua liberdade e transferem direitos para o Estado, a troco de este garantir o cumprimento de outros contratos e evitar a guerra permanente. No Leviatã, Hobbes escreve: ” que um Estado foi instituído quando um grupo de homens concorda e pactua, cada um com cada um dos outros, a fim de viverem em paz uns com os outros e serem protegidos dos restantes homens”.

Trump e Bolsonaro rasgaram o contrato social que permitia a vida coletiva nos seus Estados, com mais ou menos conflitos, mas dentro de limites que permitiam a convivência e cooperação entre vários grupos. Aliás, o mais que têm feito tem sido rasgar contratos de todo o tipo. E não há modo de reconstituir este contrato social nos próximos tempos nem nos EUA, nem no Brasil. Trump e Bolsonaro destruíram a reputação dos seus Estados como estados de contrato. Instituíram o confronto como modo de governo, e como lei a lei do mais forte. E maior a probabilidade é a do agravamento. Infelizmente.

Esta nova reputação dos Estados Unidos e do Brasil terá consequências na ordem externa: os Estados que têm privilegiado o contrato social afastar-se-ão, os que nunca entraram nesse clube, sentir-se-ão estimulados a reforçar o poder dos mais fortes e o totalitarismo. Trump e Bolsonaro tornaram os seus estados internacionalmente mais perigosos e menos respeitados e os direitos humanos e do ambiente menos valorizados.

A arte dos grandes chefes é vencer sem combater, segundo sabedoria de Sun Tze, o general chinês que escreveu o clássico Arte da Guerra. Com a perda de reputação levada a cabo por Trump e Bolsonaro, a sua ignorância e irracionalidade, os outros Estados sabem que se devem preparar para a sua violência. O jovem coreano do Norte foi o primeiro a perceber a estratégia da reputaria de Trump — fala com ele à bomba, de míssil no bolso e dão-se bem. Será seguido pelos outros chefes de Estado. Os vinte e um segundos que o primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, demorou a dar uma resposta à pergunta sobre o que pensava dos acontecimentos nos EUA e da atuação de Trump revelam o imbróglio que a reputação de Trump causou. Trudeau não podia reconhecer que tinha um problema sério com o seu vizinho incendiário, porque é por casa dele que passam os tubos de gás e combustível e é ele que acende cigarros e charutos junto aos depósitos.

Internamente esta estratégia de derrogação do contrato social expõe com toda a clareza e crueza que os vários grupos que convivem no mesmo território nos Estados Unidos e no Brasil só poderão contar consigo para sobreviver. O Estado que devia ser de todos é, com Trump e Bolsonaro, de um gangue que impõe a lei do mais forte. Eles deixaram os habitantes dos seus Estados entregues a si e lançaram-nos numa pré-guerra civil.

Os americanos mais pobres, em particular os descendentes de escravos negros, mas também os hispânicos, organizar-se-ão contra o Estado de Trump, o dos oligarcas e dos tubarões de várias atividades. Os índios, os negros ou pardos brasileiros organizar-se-ão contra o Brasil dos “porras né” de Bolsonaro, dos seus pastores, dos bandos do boi e da bala, da desmatação e da corrupção (que floresce na sombra dos “mídia” domesticados).

A passagem da reputação de Estados fortes, tendencialmente justos, assentes no direito e geradores de consensos, estados-farol, para estados de reputaria, perigosos e promotores de conflito não é alterável com a mudança de lideranças. Os rostos de Trump e Bolsonaro surgirão durante muito tempo como fantasmas sempre que os Estados Unidos e o Brasil forem referidos. Para a comunidade internacional, as suas máscaras serão o verdadeiro rosto dos seus países. Para os nacionais dos seus países, eles serão o rosto de seitas e de gangues, o rosto de inimigos. A reeleição de um e o “impinchamento” do outro nada alterará a realidade que até agora tinha sido mantida nas traseiras dos Estados Unidos e do Brasil.

A boa medida, ou a mais sensata, é manter uma prudente distância política com esses infetados.

Born 1946; retired military, historian

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