Cantem! Cantemos! | Carlos Matos Gomes

Vivemos e revivemos entre o “Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim!”, do hino da Mocidade Portuguesa e “o quem canta o seu mal espanta”. Os vendedores desta banha de cobra sacam os seus melhores trunfos para nos manter mansos. Cumprem o seu papel.

A realidade portuguesa é a de uma gravíssima crise, com a destruição de cerca de 15% do Produto Interno Bruto, com o turismo, que até fora a locomotiva da nossa economia de Disneylândia, agora em agonia, a exposição das fragilidades de uma sociedade de jovens precários, da UBER à venda de serviços médicos à hora e ao Alojamento Local, de velhos encafuados em lares ilegais, um desemprego de que não se conhece a verdadeira dimensão, fome nas classe médias, aumento exponencial de mortes por quebra de rotinas de prestação de serviços de saúde, mobilizadas para a pandemia, isto num sistema mundial desregulado, em que o nosso império tem à frente um imperador louco, e a União Europeia a que pertencemos está sujeita à mesquinhez de um agiota holandês e aos humores de um magarefe húngaro.

Esta é, em traços muito gerais, a nossa situação. Espero que não seja tão má. Descobrimos, com falso espanto, que em Julho de 2020 estamos como em Março de 1975, quando foi indispensável nacionalizar a banca e, por arrastamento, boa parte das empresas endividadas e inviáveis. Quando descobrimos a podridão de um sistema financeiro e económico assente em areias movediças e que flutuava sobre uma camada espuma com aparência rochosa.

As causas das situações relatadas no chamado caso BES, que conduziram à “resolução” em 2014, são as mesmas, ou do mesmo tipo, das que existiam antes do 25 de Abril de 1974, há 40 anos! Um sistema financeiro corrupto e corrompido, sustentado pela transumância de empregados da finança que iam à política fazer uma perninha de favor aos banqueiros, que, por sua vez, especulavam nas bolsas e emprestavam a patos bravos da construção civil e atividades afins de saque rápido. O sistema assenta num pressuposto: os banqueiros não são cidadãos comuns pois têm alvará do Estado para fazerem dinheiro! Não estão sujeitos à justiça comum. Têm direitos especiais! Goste-se ou não este é o sistema em que vivemos e que nos faz sair notas das caixas multibanco, ou acreditar e levar os outros a acreditar que uma folha de papel impressa vale o que lá está inscrito e nos permite adquirir um dado bem ou serviço!

Sendo o sistema financeiro o que é, o caso BES já existia em 1974, assim como os casos BPN, BANIF, com outros nomes, o de BIP, de Jorge de Brito, por exemplo.

A nacionalização da banca em 1975 foi e continua a ser apresentada pela direita portuguesa como o mal dos males! O comunismo! O terror! Os coitadinhos dos banqueiros até tiveram de ir para o estrangeiro, traficando as obras de arte, as joias, as barras de ouro. Já agora, a talhe de foice, para isso, para safar fortunas de banqueiros e gente de posses, que foi formado o ELP, de Alpoim Calvão. A história da “fuga” de bens e capitais está contada em vários livros, não foi para lutar contra o comunismo. A dos heróis desse tempo tem estado a ser reescrita, até com condecorações e estátuas aos almocreves. Era uma boa ocasião repegar nela. O ELP e a Maria da Fonte, a arquidiocese de Braga foram “empresas de mulas” para levarem bens até ao lado de lá da fronteira. O patriotismo e a democracia são outras funções, muito arredadas destas, do lado oposto!

A democratização, ou o regresso à normalidade, pós 25 de Novembro de 1975, a gloriosa ação que nos livrou de sair de uma ditadura para cair noutra, como tantos falsos crentes e eternos ingénuos ainda hoje afirmam, uns rindo para dentro, outros com os olhos dos videntes do chega, trouxe a banca e os banqueiros como ela era e como eles eram. Não é, nem foi, nem será o Rendimento Social de Inserção que nos arruína!

Desta gente que retornou para dividir o espólio da banca de antes do 25 de Abril, em termos esquemáticos, um para a Igreja Católica, via Opus Dei, o BCP; outro para a Maçonaria e gente do Norte, o BPI; outro para a velha família de banqueiros do regime, os Espírito Santo, se pode hoje dizer o mesmo que disse Talleyrand a propósito do regresso dos nobres ao poder em França: “Não aprenderam nada, nem esqueceram nada.” Referia-se aos que, após a derrota de Napoleão, voltavam do exílio. Tendo sido expropriados do status e poder pela Revolução, retornavam à França ansiosos para reaver o prejuízo, certos de que tudo voltaria a ser como antes.

Aqui em Portugal, dentro do sistema de caixas negras da finança mundial, e cumprindo as regras da seita dos banqueiros, julgo que foram os Espírito Santo, e Ricardo Salgado em particular, os que melhor compreenderam as mudanças, os que gizaram um plano para elevar o capitalismo português e a sua finança a um patamar mais elevado na competição por fatias de mercado internacional, caso das extensões ao Brasil e a Angola. Ricardo Salgado está a pagar esse atrevimento de não se ter vendido, como fizeram as outras famílias, caso de Champalimaud (Pinto&Sottomayor), nem de se ter deixado espoliar, caso de Cupertino de Miranda (Português do Atlântico). De não se querer confinar e sujeitar aos grandes grupos. Ele é o pirata vencido cujos despojos estão a ser divididos, enquanto lhe preparam o enforcamento. O caso BES pode ser visto como um filme de piratas, em luta por zonas de corso, ou de máfias por controlo de territórios! Resolvido” o BES não há hoje nenhum banco de capital português e o povo bate palmas! Histórias que um dia se saberão, incluindo o papel do sistema judiciário português na luta política e na venda de bens nacionais…

A chamada reprivatização da banca pós 25 de Novembro de 1975 devia ser recordada. Mas não. Em vez de refletir, a sociedade portuguesa, colocada no ponto da triste realidade, canta.

Canta no auto de fé de Ricardo Espírito Santo Salgado. Canta e rejubila, aplaudindo como seus heróis um casal de chicos espertos, dois dos mais lídimos representantes do povo, numa velha expressão. Uma apresentadora de televisão muda de antena e um treinador de futebol regressa, pagos por milhões para desviar a atenção da turba da pancada que se vai abater sobre as suas costas. Enquanto o pau não chega, folgam as costas!

Queimado o banqueiro que tinha uma ideia que não era a comezinha para Portugal, caídos nas primeiras páginas de jornais e telejornais dois salvadores que reúnem multidões de alienados e metem ao bolso milhões, que bem merecem porque o trabalho não é fácil, o povo parece feliz e marimba-se para o resto, incluindo o Covid, ou brama contra a diretora geral de saúde e a ministra!

Os portugueses merecem o caso BES, o caso BANIF, o BPN, merecem o sistema judicial, o desemprego, a desesperança, as vigarices que se preparam e merecem, é evidente, a dona Cristina Ferreira e o senhor Jorge Jesus, a quem endereço os meus sinceros parabéns pelo talento que os leva a serem indispensáveis e muito bem pagos no momento histórico que vivemos. Antes para eles que para a farmácia, ou os ciganos, na versão chega-lhes.

Também serei dos poucos a não alinhar na ilusão de que está a ser feita justiça no caso de Ricardo Salgado, ou a não acreditar na balela de que, pela primeira vez, segundo Marques Mendes e afins, a justiça está cega e a lutar contra os poderosos, ou contra a corrupção.

Estou certo que a justiça nunca foi cega. Acredite quem quiser. Eu penso que me estão a atirar areia para os olhos.

Born 1946; retired military, historian

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