A civilização que não trata do lixo | Carlos Matos Gomes

A nossa civilização — e a nossa civilização é o capitalismo — assenta na produção e no consumo, tendo por pressuposto a irracionalidade dos recursos ilimitados. O capitalismo tem na base duas ideias força: laissez faire, laissez passer, liberdade absoluta para extrair recursos, para os transformar e para os vender. E: tudo o que pode ser produzido pode ser consumido, crença cega da capacidade de extração de produtos, sem olhar a meios nem a consequências, e crença cega na capacidade de absorção do que é produzido, seja pela natureza, seja pela sociedade.

Destes dois princípios surge como natural o irracional, mas sagrado vocábulo do “crescimento”. Todos os anos, os iluminados das altas instâncias internacionais e nacionais que nos governam, referem que “crescemos” mais uns tantos por cento. Jamais alguém refere a irracionalidade do crescimento contínuo. A história da Ilha da Páscoa, em que os habitantes todos os anos cortavam mais árvores (cresciam)para fazerem mais estátuas de deuses porque necessitavam de mais deuses para terem mais árvores para cortar e assim sucessivamente até a Ilha ficar inabitável.

O capitalismo funciona com a mesma irracionalidade dos habitantes da Ilha da Páscoa. Dele restarão os arranha-céus, e as montanhas de plástico para visita de extraterrestres.

Ao capitalismo interessam “os ativos”, os que produzem e têm capacidade de consumo.

Existem à disposição de quem se interessa por estas “coisas” que conduzem às situações como aquelas que, com hipocrisia, descobrimos serem as dos tratamento dos velhos nos lares, várias acontecimentos à escolha para o início da nossa civilização, desde a expansão europeia do século XV, à Lei Negra Inglesa, que estabeleceu os direitos de propriedade privada em Inglaterra, num processo (violento) que seria repetido aqui em Portugal com a revolta liberal (que se comemora) e a passagem dos bens dos aristocratas e das ordens religiosas para a burguesia, ou a revolução Industrial e o decorrente colonialismo. Sendo várias as hipóteses para o início desta civilização, o certo é ela estar orientada desde os seus fundamentos para produzir e consumir, não importa o como, nem o porquê e apenas para quê: lucro e poder.

Por isso o centro das políticas é o grupo que produz e consome (e também combate) — entre os 18 e os 65, grosso modo. Os investimentos sociais pesados são dirigidos para as políticas de infância, educação e formação. Daí a importância atribuída às creches, ao pré-escolar, à formação secundária e superior. Preparam-se produtores e consumidores. Os velhos são despesa, maior quanto mais velhos e mais dependentes. Com a desvantagem, relativamente aos lixos das indústrias, de não serem recicláveis, não serem passíveis de integrar novas cadeias de produção. Só há muito pouco tempo o “sistema” começou a atribuir algum valor ao lixo. Mas a maior parte continua a ser acumulada em montanhas à superfície, despejada no mar (o tal continente do plástico), emitida para a atmosfera, ou depositada em grutas e fossas marítimas (o lixo nuclear). O lixo não é uma preocupação desta civilização (ninguém sabe o que vai fazer com as baterias dos carrinhos elétricos!).

Não admira que os velhos estejam incluídos nesta categoria de restos e deitados no lixo dos lares. Ou só admira a demagogos, de que o atual Bastonário da Ordem dos Médicos Portugueses é o exemplar paroquial mais visível no momento. A desfaçatez com que se apresenta a perorar contra os lares para pobres (capitalisticamente de baixa rentabilidade) revela a ignorância dos fundamentos da sua civilização, como tantos outros inconscientes que nos conduzem para o abismo sempre com um ar abismado perante a realidade.

Os lares dos pobres não geram lucros, ou geram poucos, logo são maus. Os bons são caros e há poucos ricos para os rentabilizar por empresas capitalistas. Não há como sair desta situação sem mudança de paradigma. O bastonário apenas diz o óbvio: Que a culpa da pobreza refletida nos lares é do Estado e não do sistema que gera uma maioria de pobres. Obrigado pela ajuda!

Este bastonário é uma personagem risível em si mesma, mas é importante como sintoma do mal que corrompe o interior do corpo social e o leva ao esgotamento. O seu alarido sobre o Lar de Reguengos é o espanto da virgem que se descobriu grávida e atribui as causas à tampa da sanita. Ele entende que a tampa da sanita deve ser denunciada e mandou elaborar um relatório!

Esta civilização produzirá inevitavelmente lixeiras de velhos, como o Lar de Reguengos (ou outros); produzirá profissionais que procuram escapar a deveres custosos e socialmente pouco considerados (tratar de velhos e, para mais, pobres, não é atrativo numa sociedade que endeusa a juventude e as luzes da ribalta); produzirá demagogos que aproveitam as desgraças.

Esta civilização, o capitalismo, está, simplesmente, a tratar os mais vulneráveis à pandemia como trata o lixo. Há quem discurse de cima dele.

Os simba, um povo dito primitivo das florestas do Congo, adoram uma divindade que deu vida ao fogo, Njambi-Kalunga, e os seus feiticeiros explicaram aos missionários que os foram converter que este Deus recebia sem reclamar o bom e o mau que os homens lhes despejavam aos pés, em vez de transformar os homens em lixo e excremento.» Os simba lutaram e ainda lutam contra a conversão ao capitalismo. Talvez seja de lhes mandar missionários como o presidente da Ordem dos Médicos portugueses.

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Born 1946; retired military, historian

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