A falta que Ana Gomes nos faz | Henrique Monteiro in Jornal Expresso de 09/09/2020

“A falta que Ana Gomes nos faz.
A ex-deputada europeia do PS decidiu que se candidata à presidência da República e anuncia-o formalmente já esta quinta-feira, depois de ter informado, terça-feira, através do ‘Público’, a sua disponibilidade. É um bom sinal para a democracia portuguesa, independentemente da dimensão do apoio que venha a ter
Penso que não terei de gastar muitas linhas a explicar muito do que me separa, politicamente, de Ana Gomes. Ao contrário, permitam-me que gaste algumas a dizer o que me une.
Em primeiro lugar, o espírito de liberdade, de não termos de ser politicamente corretos nem fiéis a um dogma emanado por quem quer que seja, incluindo secretários-gerais de partidos. Depois, a enorme vontade de combater a corrupção e os males que afetam as democracias, para melhor as defender. E o espírito de ser do contra que, concedo, nem sempre é justo e operativo, mas que tem como recompensa estimular o debate público.


Temos, ainda, em comum a geração e o esquerdismo próprio da nossa juventude. Não este esquerdismo atual que reivindica tudo o que pode e acha que tudo lhe é devido. Mas o dos anos 70, nomeadamente antes do 25 de Abril, em que rejeitando o regime totalitário e, simultaneamente, as ordens do PCP, nos atirou para grupos e grupúsculos que combatiam a guerra colonial e o fascismo, e fugiam à frente do Capitão Maltez, o odiado chefe da polícia de choque. Quem passou por isto nunca o esquece, ao contrário do que pensam uns moralistas atuais de esquerda e uns reacionários empedernidos.
Com tudo isto, não estou a declarar apoio a Ana Gomes. Longe disso, porque nunca declarei apoio a ninguém e porque nem tenho a certeza de que, sendo ela de uma probidade ímpar e de uma frontalidade salutar, tenha o melhor perfil para Belém. No entanto, o facto de se candidatar leva-me a saudar a decisão, com toda a sinceridade. Tanta, quanto confesso que sempre que disso se falava, eu torcia interiormente para que ela desse este passo.
É uma candidatura que não agrada a muita gente. Por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa, que justamente tem enorme popularidade, verá aqui uma fuga de votos, por pequena que seja, para alguém que pode dizer coisas que ele jamais dirá. Sobre Ricardo Salgado e o escândalo do BES; sobre o facto de os portugueses andarem a pagar a banca; sobre o julgamento de Rui Pinto em contraste com a liberdade de uns mafiosos que pululam no futebol; sobre Angola, nomeadamente no tempo de José Eduardo dos Santos; sobre o nepotismo no seu próprio partido.
Também não agrada à linha oficial do PS (chamemos-lhe assim) que uma sua militante avance, contra as palavras e as indiretas de dirigentes reputados, como o próprio líder do partido e o presidente da AR, Ferro Rodrigues, que já terão optado por Marcelo. A candidatura de Ana Gomes abrirá uma ferida entre os socialistas, a que, de resto, já estão habituados, desde que Zenha e Soares concorreram ou, mais recentemente, Soares e Alegre. Na hipótese de continuarem ao lado de Marcelo dão um sinal para a esquerda ‘geringonçal’ de que os seus parceiros prioritários são do centro e do centro-direita, o que nada de mal teria ou tem, salvo passarem a vida a negá-lo.
Não agrada, igualmente, ao Bloco ou ao PCP porque coloca à esquerda uma candidatura que não quer pressionar o PS para negociação nenhuma, nem pretende transformar o país num desfile de causas identitárias, além de ter um discurso que em certos pontos se sobrepõe ou ultrapassa o daqueles partidos. Pelo que ouço e leio dela, Ana Gomes defende a possibilidade de debate e discussão, uma sociedade limpa e reta, e não a prevalência de tribos sobre a comunidade ou a nacionalização da economia. Mas é implacável em temas como a corrupção ou o combate eficaz às lavagens de dinheiro.
Por último, não agrada nada ao candidato do Chega. Pode ocorrer-lhe ter pela frente, num debate, alguém que o ponha na ordem sem que ele possa ripostar que essa pessoa defende a elite do poder político ou ditaduras noutras latitudes. Talvez por isso, tratou já de a atacar como ‘candidata cigana’ e prometeu demitir-se acaso tenha menos votos. Mais um ponto a favor de Ana Gomes.
Enfim, Ana tem as qualidades necessárias para fazer o debate presidencial mais vivo e mais assertivo (e vamos ver como a pandemia obriga a campanha a adaptar-se, sendo que a falta de contacto pessoal prejudica um pouco Marcelo).
A ex-deputada europeia fazia (e faz) falta à discussão política; mesmo que exagere, por vezes, ou que possa cometer alguma injustiça involuntária, é uma voz imprescindível.
E ainda nem sequer usei o argumento de que é uma mulher, aspeto importantíssimo para alguns eleitores.
Agora que se começa a compor o tabuleiro dos candidatos, e sabendo que nenhum Presidente em Portugal falhou a recandidatura, o que a somar à popularidade deste Presidente torna uma miragem a possibilidade de o desalojar, resta esperar que uma campanha que, provavelmente, será feita mais através das televisões e órgãos de Comunicação Social do que nas ruas, tenha a elevação necessária para um debate produtivo e profundo sobre o país. Esse, antes de qualquer sentido de voto, é o meu maior desejo. E penso que Ana Gomes contribuirá para ele em grande parte.

PS – Nunca trabalhei com ele (entrei no Expresso em 1989 logo depois de ele sair), mas fomos bons camaradas de ofício. Vicente Jorge Silva, que nos deixou, era uma espécie de génio do jornalismo. Não só pelos projetos geniais (e às vezes até líricos) que desencadeou, como pela excentricidade que punha em alguns dos seus gestos e formas de falar. Jamais esquecerei a viagem presidencial de Mário Soares à Índia que ambos acompanhámos (ele pelo ‘Público’ e eu pelo Expresso) há quase 30 anos, e das conversas estimulantes ou anedotas com que nos perdíamos a rir. Entrevistei-o para o Expresso, quando deixou de ser diretor do ‘Público’ e várias vezes almoçámos sem qualquer objetivo senão o de dizer mal do mundo. O paraíso onde há de estar será cor de rosa, como o “Comércio do Funchal”, rigoroso como o Expresso, audaz como o ‘Público’ e cheio de cinema, a sua paixão de sempre.”

Henrique Monteiro

Retirado do Facebook | Mural de João Soares

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