ALGÉRIE | Ami Mouloud, le plus ancien bouquiniste de la capitale | Yacine Bouzaher

Parce que, je ne l’ai pas oublié, parce qu’il incarne une Algérie, à jamais disparu, il est une figure de l’Alger que j’ai tant aimé, ou j’ai vécu mes émois aussi bien amoureux que littéraires et culturels. Il est parti, il y a 4 ans (un 24 décembre 2016) suite à une agression de 3 individus dont il ne sait pas remis. Ami Mouloud, le plus ancien bouquiniste de la capitale, présent à la rue Didouche Mourad depuis l’indépendance, Mouloud Mechkour dit Ami Mouloud.
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Texto apresentação Guerra Colonial | Carlos Matos Gomes e Aniceto Afonso

A guerra que Portugal travou em África entre 1961 e 1974, e que contribuiu de forma decisiva para o 25 de Abril, é o acontecimento mais marcante da nossa história na segunda metade do século XX.

Este trabalho pretende contribuir para o melhor conhecimento do que foi esse conflito, das condições em que ele se desencadeou e das suas consequências.

Este é um trabalho de divulgação centrado sobre a guerra em si mesma, embora procure enquadrar os seus aspetos mais significativos para melhor compreensão. Na base da informação apresentada encontram-se elementos já publicados e outros obtidos em arquivos e memórias de entidades e personalidades que se disponibilizaram a cedê-los, muitos inéditos.

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MA JOLIE MÔME , DEIXOU-ME | Júlio Isidro

Desculpem-me mas vou falar na primeira pessoa .
Juliette Greco era e continuará a ser uma paixão minha, sempre presente nos sonhos irrealizáveis de Paris nos anos 40, 50 por onde não andei porque as crianças não se podem perder nas ruas misteriosas e encantatórias da cidade -luz.

Aos 18 anos, sozinho em Paris, procurei os lugares da Diva de Negro na margem esquerda, à procura do Tabou ou do L’oeil de Boeuf espaços de cultura, amor e pecado onde a voz dos poetas cantava “Je suis comme je suis” e convivia com Camus, Boris Vian, Jean Cocteau ou Sartre que dela disse: – A voz da Greco tem milhões de poemas que ainda não foram escritos.

O menino tímido, ficou à porta do calor húmido de Chez Barbara, porque aqueles abraços e beijos de paixões aquecidas a Calvados ou Créme de Cassis, me inibiram.
Maldita educação/ domesticação trazida do país dos “bons costumes”.

Tantas vezes adormeci a ouvir Juliette a cantar Désabillez-moi e sonhei que cruzava os dedos naquela mão branca de mármore desta mulher de tantas canções e quase tantos amores.

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VERDES ANOS | MEMÓRIA DE PORTUGAL EM DIA CINZENTO NOS TRÓPICOS | Carlos Fino

O tempo por aqui, hoje, está encoberto; faz até um friozinho pouco habitual nestas paragens tropicais, quase sempre bem mais cálidas. Talvez por isso – vá lá saber os mecanismos por que se rege a memória – vi-me de repente transportado para o cinzento Portugal de antes do 25 de Abril.

Estávamos em 1971 e a agitação estudantil, cada vez mais intensa, abalava as universidades. Compreendia-se porquê: a guerra nas colónias era uma realidade omnipresente que nos afetava a todos. Quem passasse de ano podia concluir os cursos antes de ir para a tropa, mas no final, o destino estava marcado: missão no ultramar depois de uns sumários meses de instrução militar, adiando – com perigo de morte – o ingresso na vida profissional.

Eu tinha 23 anos e fazia parte dos quadros associativos, tendo até integrado uma direção da Associação Académica de Direito, juntamente com o João Soares, o Luís Pinheiro de Almeida, o João Arsénio Nunes e o Duarte Teives. Na sequência de um movimento de greve às aulas que percorreu a cidade universitária, a repressão intensificou-se, com a PIDE à caça dos dirigentes associativos. A brigada dirigida pelo inspector Passos entrou na minha casa, em Castanheira do Ribatejo, às seis da manhã – fez buscas, levou livros, mas não me apanhou. Por precaução, ficava já então em Lisboa, só indo a casa de vez em quando ver a família e mudar de roupa.

A partir daí, porém, até esse simulacro de normalidade mudou. Com a PIDE no encalço, na perspectiva de ser preso, torturado e condenado, tendo depois de fazer a guerra, não tinha outro remédio que não fosse sair do país.
Mas a onda repressivoa era tão intensa (muitos dos meus companheiros da altura foram presos e condenados), que qualquer movimento nesse período seria facilmente detetado. Por isso, durante três meses consecutivos, fiquei retido, sem sair, num andar no Areeiro, à espera que as coisas acalmassem.
Foram dias inquietantes. Quando via da janela alguém parado no passeio em frente, logo suspeitava que era PIDE, perdendo a calma e temendo o pior.

Os momentos mais sossegados eram as refeições: pai e filho que generosa e corajosamente me albergavam mandavam vir as refeições, em marmita, de um pequeno restaurante das imediações, que partilhávamos depois ao som de música revolucionária tocada num velho gira-discos (não riam – esse era o espírito do tempo…) que ouvíamos, baixinho, não fosse alguém desconfiar e denunciar-nos. Havia um pouco de tudo – desde canções da resistência francesa ao coro do Exército Vermelho, passando pelas mais melodiosas canções cubanas, de que uma ficou para sempre na minha memória, tantas vezes a escutávamos: Hasta Siempre Comandante Che Guevara. Uma cena digna de filme, entre o surreal e o dramático, em fundo de opressão política, tortura e guerra.

Carlos Fino

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino 

CRÓNICAS DA MEMÓRIA 2 – Primeira Comunhão | Carlos Esperança

Meio século depois, vêm-me à memória as doces catequistas da minha infância. A menina Aurora e a sua Tia Ricardina ambas solteiras de muitos anos e beatas de quase tantos outros. Lembro-me do fervor com que me ensinaram a odiar os judeus porque mataram Cristo, os maçons porque perseguiam a igreja e os comunistas porque eram ateus. Recordo o entusiasmo que punham nas orações para que Deus iluminasse os nossos governantes e lhes desse longa vida, apelos ouvidos apenas no que diz respeito à segunda parte.

Nas aulas de doutrina explicavam-me a cor do firmamento, ao pôr do sol, como sendo o sinal de que os comunistas iam matar os cristãos, conforme a Irmã Lúcia tinha revelado, e eu, tão estúpido, que não deixava de ser cristão, com maior medo do Inferno e das suas labaredas, onde apenas se ouviam gritos e ranger de dentes, do que da morte que os ditos comunistas me preparavam.

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