TAP – A HORA MAIS NEGRA | HELENA VASCONCELOS

A leviandade e ignorância que certos “comentadores” arvoram com arrogância e tibieza são, no que diz respeito ao momento terrível que a TAP atravessa, simplesmente criminosas.

Os ( e as) que afirmam com convicção que se deve “fechar a TAP” – como se se tratasse de um negócio de vão de escada – ou “deixar cair a TAP” – com a cobardia habitual de quem prefere cruzar os braços e é totalmente falho de visão – ou, como dizia uma dessas luminárias , “reestruturar” até a TAP estar a dar lucro e depois vendê-la – como se fosse uma vaca parideira ou um peru de Natal – toda esta gente que dá palpites a torto e a direito, sem informação fidedigna, sem uma verdadeira pesquisa aturada, é, simplesmente uma vergonha para o país.

O “caso TAP” é singular e particularmente intrigante . Uma Companhia que soma prémios de excelência, que é reconhecida em todo o lado como referência, que dá cartas em inúmeros sectores – os pilotos são considerados dos melhores do mundo, os serviços de manutenção são procurados por todos, sem contar com um sem número de serviços que vão para além da aviação propriamente dita – essa mesma Companhia é vilipendiada a cada momento pelos cidadãos e cidadãs deste país que têm a memória curta e uma atitude de desprezo provinciano por algo de que deveriam acarinhar e orgulhar-se. Quando constato que tanta gente se indigna com vendas a países estrangeiros de tranches larguíssimas de empresas e companhias portugueses que são de importância estratégica – como por exemplo, a EDP – mas estão prontíssimos para vender a TAP ao desbarato, pergunto-me : afinal, o que querem? Aliás, hoje só me ocorrem perguntas: o que tencionam fazer com 10 mil desempregados, se “fecharem as portas”? Quem irá pagar os seus subsídios de desemprego, quem irá sustentar os negócios que estão agregados à TAP? Quem irá providenciar o sustento de famílias inteiras?

Quem (ou como) irão ressarcir o enorme esforço de formação de técnicos híper especializados? Fazem ideia do custo de formação de pilotos e tripulantes de cabine, de técnicos engenheiros de aeronaves? Quem disporá de um capital material, imaterial e humano que se assemelha ao que forma o tecido da TAP? Quando ouço alguém a dizer, compenetrado no seu papel de grande benemérito, que “não dará nem mais um centavo para a TAP”, será que esse mesmo ser tem a noção de que a contribuição dos trabalhadores da TAP – todos, sem exceção, pagam impostos – é, provavelmente, o lhe mantém o emprego? Será que não sabem que todas as companhias de aviação – houve exceções como a Singapura Airlines e a Cathay Pacific “in illo tempore” – dão prejuízo? Prejuízo que é compensado pelo fluxo de capital, do emprego e de dinâmica de negócio que geram? Sabiam? Compreendo que sejam necessários ajustes neste momento de crise.

Aliás, é a altura ideal para fazer uma pausa, para parar com especulações lesivas e para modernizar a TAP. A pandemia veio destruir uma ascensão que se previa ultra frutuosa. A tremenda dívida de que todos falam, em tempos “normais”, seria amortizada. Mas é verdade, o “pensamento mágico” não ajuda. A realidade é outra, estranha, anormal, imprevisível.

Este tempo não deverá ser de lamúrias. Vivemos uma intensa crise, um momento dramático, penoso, que deverá ser encarado como tal. Mas a pandemia não vai durar para sempre. Por isso, a pergunta de ouro é: como vai ser depois, quando o tão precioso turismo voltar, quando os preciosos hotéis e restaurantes e lojas voltarem a estar cheios? Haverá um vazio dramático na aviação? A TAP perderá rotas, aviões, “slots”, prestígio? Como os recuperarão? Os tão exigentes passageiros (as) portugueses que vociferam à menor contrariedade e disparam em todas as direções com qualquer contratempo – esses mesmos passageiros que, quando viajam em companhias “estrangeiras”, ficam muito calados quando são ignorados e agradecem humildemente qualquer porcaria que lhes ponham à frente – esses portugueses o que farão quando tiverem de se submeter às regras restritivas de companhias que não apaparicam ninguém e fazem pagar (e bem) o transporte dos exigentes, frágeis, tirânicos, elitistas cidadãos e cidadãs portugueses sempre prontos a criticarem e sempre indispostos quando têm de levantar um dedo para se empenharem num esforço produtivo?

Precisamos de solidariedade, empatia e liderança. Mostrem aos trabalhadores(as) da TAP que estão com eles e elas. Dêem-lhes esperança de reconquistarem os seus postos de trabalho, quando passar a pandemia. Precisamos, não de comentadores, mas de verdadeiros e lúcidos especialistas; gente com visão, com ideia de futuro, gente capaz de perceber o momento, de ser excepcional; gente que não tome decisões estafadas, banais, preguiçosas – as “do costume” – mas saiba ver mais além, com seriedade, empenho, coragem e lucidez. O destino da TAP, para quem anda distraído, está intimamente ligado ao destino do País. É um projeto de vida e de prosperidade coletiva. É preciso mostrarmos de que fibra somos feitos.

Helena Vasconcelos

Retirado do Facebook | Mural de Helena Vasconcelos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.