PERMANÊNCIAS | Vítor Serrão

Na entrevista de Luís Miguel Cintra saída ontem no Expresso, o actor narra uma conversa com Manoel de Oliveira onde o cineasta lhe disse: «Sabe como é a morte ? A pessoa deita fora o último suspiro, é o espírito que abandona o corpo.

O corpo morre completamente, é lixo, mas o espírito sai e mistura-se com o espírito universal.

É como os rios, que perdem o seu carácter quando chegam ao mar. Mas fazem parte dele, e ele é igual em toda a parte». Conclui Cintra (que é crente): «Esta explicação é aquela que, usando conceitos nossos, humanos, me pareceu a melhor».

Eu (que não sou crente) recordo como Hugo Pratt, no seu derradeiro álbum «O Último Vôo» (1995), dedicado a Antoine de Saint Exupéry, visiona a sua própria e próxima morte. Um álbum belíssimo, sábio e terno com dimensão poética e humanizada, sem autocomiseração ou miserabilismos. As últimas pranchas mostram o diálogo do Petit Prince, ícone da nossa imaginação de eternos meninos, com o escritor-aviador prestes a ser abatido por caças nazis:

«– Saint-Ex, não caminhes em direcção às recordações… É como se visitasses um cemitério.

— Oh!… Eu gosto dos cemitérios… Os seus ciprestes, aquela doce quietude, o odor agradável do tomilho, os lagartos no muro circundante debaixo do sol de Verão…

— Tu falas da morte…

— E então?!? Eu descobri o que é a morte. A morte é…»

Sem mais palavras, fica-nos a imagem do avião que continua a deslocar-se rumo ao infinito num céu azul desbotado. Por fim, apenas mar e céu. Nada mais. O nada. E o tudo, no fim de contas: a vida vivida, partilhada de sonhos, polvilhada de referências e gentes, cheia de ternura pelos passos do trilho.

Não sei porque razão este tema me veio à mente num 1º de Maio que devia ser data festiva… Aliás, sei: foi a leitura da belíssima entrevista de L. M. Cintra a abrir campo ao tema da permanência: algo entre a tristeza e a pacificação interior, entre os temores plausíveis e o ajuste de contas com as memórias. Ser crente na vida ou ser-se agnóstico nada tem de contraditório: Deus estará nas fímbrias dos pormenores como disse o sábio Aby Warburg.

Morrer é…, disse St Exupéry (através de Pratt), saber mais. Diluição nos mares.

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