Cabul e a vitória da guerrilha | Luís Alves de Fraga

O Afeganistão foi um território onde ingleses, russos e americanos nunca conseguiram impor-se à cultura local.

Só há uma explicação para isso: ao contrário de compreenderem o povo afegão, os seus costumes, as suas necessidades e os seus anseios, tentaram ocidentalizá-los, abrindo estradas, fazendo escolas e hospitais. Tudo isso constituiu um tremendo erro.

O islamismo tem de ser compreendido, estudado e interpretado segundo os princípios que o regem. A primeira grande diferença entre as culturas ocidentais, influenciadas pelas culturas greco-romana e judaica é que a religião, tal como Jesus afirmou, “é de Deus” e a política “é de César”. No islamismo, política, justiça e religião confundem-se sem dar lugar à tripartição do poder ‒ legislativo, executivo e judicial ‒ porque, soberano é Deus, que se revelou e ditou a justiça, as leis e a governação, através do seu profeta, Maomé.

As fontes da Lei são o Alcorão seguido da Suna (relato da vida e dos caminhos do profeta) e, depois, os hádices (narrativas do profeta). Tudo está contemplado nestes escritos tidos como sagrados e, mais do que isso, soberanos no sentido atribuído pelo Ocidente à palavra (depois da Revolução Francesa), ou seja, detentores de todos os poderes.

É assim, deste modo que, para um muçulmano, o Estado, a chefia do Estado e a chefia religiosa se confundem. Um condutor religioso é, também, um condutor político e jurídico.

Poder-se-á perguntar como foi possível, em certas regiões do Próximo Oriente e, até, nos Balcãs e na Península Ibérica, ter-se verificado, em tempos distantes, desenvolvimentos filosóficos e científicos que ultrapassavam os dos cristãos e, todavia, a resposta é simples, se a quisermos curta e sintética: o estádio de desenvolvimento cultural dos povos do Ocidente estava ainda fechado em torno de uma religião que, em moldes de rigor proselítico, não andava muito longe do dos islâmicos mais radicais.

O que aconteceu no Ocidente, justificativo da distância cultural entre cristianismo e islamismo, foi que, por cá, se ultrapassou, em pleno Renascimento, o teocentrismo, dando lugar a um antropocentrismo que, não renegando o papel de Deus no plano da religião, dá ao Homem um lugar que, em última análise, até pode “explicar” a vontade de Deus e a Sua obra criadora. Este foi o momento de corte entre as duas religiões e, consequentemente, das culturas que geram.

Na Turquia, depois do fim da Grande Guerra e da derrota militar do império Otomano, o general Mustafa Kemal Atatürk, fez-se proclamar Presidente da República e porque conhecia e entendia o papel do Iluminismo (um tempo de subversão do teocentrismo) na História do Ocidente, determinou a laicização do Estado, o mesmo é dizer, criou estruturas políticas e judiciais separadas da prática religiosa. Queria, assim, “modernizar” uma sociedade que, mantendo-se apegada ao modelo tradicional, jamais conseguiria aproximar-se das novidades de um mercado que se abria à tecnologia, à comodidade e ao conhecimento.

Para simplificar, podemos dizer que, com um golpe estratégico dentro da tradição islâmica, ele abriu as portas a um novo entendimento do papel da religião. É assim que se tornou possível, sem embates de maior nem choques culturais permanentes, a coexistência de comunidades islâmicas no seio das de maioria cristã.

Não perceber estas relações e a necessidade de conciliar tradições com inovações levou as grandes potências ocidentais até ao Afeganistão com uma só ideia: modificar, sem plano islâmico, uma população islâmica. Fizeram qualquer coisa como abrir uma estrada onde ninguém quer transitar. Ora, o único processo de poder alcançar mudanças era, estrategicamente, subverter a cultura islâmica através da sua própria cultura e, para tal, não sendo muçulmano como Atatürk, era preciso pensar como islâmico, deixando de lado todos os preconceitos ocidentais, porque, subverter passa por “estar dentro”, o mesmo é, literalmente, “entornar”, partindo de baixo para cima, porque o que as grandes potência quiseram fazer foi “sobreverter “ ou seja, fazendo tábua rasa do islamismo, “derramar”, sobre um povo impreparado, uma nova ordem cultural, jurídica, política e religiosa.

Esta vitória do islamismo radical vai ter efeitos que não podemos calcular de momento, mas de que, em breve, teremos notícias.

Para jogar xadrez não basta saber movimentar as peças!

Retirado do Facebook | Mural de Luís Alves de Fraga

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