Boaventura Sousa Santos | Mereceu a pena? | in Jornal Público

Começa a ser evidente que os neoconservadores norte-americanos conseguiram impor na Europa, através de uma guerra de informação sem precedentes, uma vertigem bélica e anti-russa, cujas consequências levará tempo a avaliar. É, no entanto, possível identificar os sinais do que vem por aí.

Derrotados. Não se sabe ainda quem ganhará esta guerra (se é que alguém a ganhará, para além da indústria do armamento), mas já se sabe quem mais perde com ela. São o povo ucraniano e os restantes povos europeus. A Ucrânia em ruínas e os milhões de refugiados e a descida da cotação do euro são os sinais mais claros da derrota.

Nas sete décadas que se seguiram à destruição causada pela Segunda Guerra Mundial, a Europa, então designada como ocidental, reergueu-se. Liderada por governantes de alto nível intelectual e apoiada pelos EUA em sua cruzada para travar o comunismo, a Europa Ocidental conseguiu impor-se como uma região de paz e de desenvolvimento, ainda que muito deste fosse à custa do capital colonial que acumulara durante séculos. Bastou uma guerra fantasma – travada na Europa, mas não protagonizada pela Europa e nem sequer no interesse dos europeus – para pôr tudo isto a perder.

Transição energética. O dióxido de carbono (CO2), responsável pelo aquecimento global, permanece na atmosfera por muitos milhares de anos. Calcula-se que 40% do CO2 emitido pelos humanos desde 1850 continua na atmosfera. Assim, embora a China seja hoje o maior emissor de CO2, a verdade é que, se tomarmos como referência o período 1750-2019, a Europa é responsável por 32,6% das emissões, os EUA, 25,5%, a China, 13,7, a África 2,8% e a América Latina, 2,6%.

Compreende-se, pois, que a Europa tenha liderado nas últimas décadas a luta pelas energias renováveis. Podemos ter críticas à ecologia dos ricos que subjaz à transição energética, mas esta ia na direcção certa. A guerra na Ucrânia e a crise da energia fóssil que ela provocou bastaram para fazer evaporar todos os bons propósitos da transição energética e das energias renováveis.

O carvão regressou do exílio e o petróleo e a energia nuclear estão a ser reabilitados. Porque é que perpetuar a guerra é mais importante do que avançar na transição energética? Que maioria democrática decidiu nesse sentido?

Espectro político. A crise económica e social que se avizinha vai ter impacto no espectro político dos países europeus. Por um lado, será bom tomar nota que foram os governos mais autoritários (Hungria, Turquia) e os partidos de extrema-direita quem menos entusiasmo mostrou pelo triunfalismo bélico e anti-russo dominante na política europeia dos últimos meses.

Por outro lado, os partidos de esquerda, salvo raras excepções, abdicaram de ter uma posição própria (de esquerda) sobre a guerra. Alguns, que se tinham distinguido no passado contra a NATO, ficaram em silêncio perante a insensata e perigosa expansão desta a todos os continentes. Quando a continuidade da guerra e os orçamentos militares começarem a causar o empobrecimento das famílias, que irão pensar os cidadãos em termos de opções políticas? Não se sentirão atraídos a optar pelos partidos que menos entusiasmo mostraram pelo jingoísmo belicista que provocou o seu empobrecimento?

Segurança cidadã. No final de maio passado, a Interpol tornava pública a preocupação perante a possibilidade de uma boa parte do armamento fornecido à Ucrânia vir a entrar no mercado ilegal de armas e acabar nas mãos de criminosos. Uma situação tanto mais grave quanto parte desse material é artilharia pesada.

A experiência do que aconteceu no passado em outros teatros de guerra justifica a preocupação. Por exemplo, muito do material de guerra fornecido pelos EUA ao Afeganistão terminou nas mãos dos talibãs contra os quais o exército norte-americano combatia. É bem conhecida a tragédia norte-americana dos sucessivos massacres causados por civis armados. Como os cidadãos europeus são seres humanos iguais aos norte-americanos, que sucederá no caso de o acesso fácil à compra de armas ocorrer na Europa?

Normalização do nazismo. Pouco antes da guerra na Ucrânia, vários serviços secretos e think tanks sobre segurança vinham alertando para a forte presença de grupos neonazis na Ucrânia, para o seu treino e equipamento militar e para o modo como estavam a ser integrados nas forças militares regulares, facto sem precedentes conhecidos. Compreensivelmente, a eclosão da guerra fez esquecer esta preocupação. O que está agora em causa é a possibilidade de o nazismo se transformar numa ideologia nacionalista como qualquer outra e de os seus recorrentes ataques aos políticos progressistas da Ucrânia serem convertidos em actos patrióticos. Que impacto terá isto na Europa, num contexto de crescimento da extrema-direita?

Anticomunismo fantasma. O ódio anti-russo que se exacerbou na Europa por via da invasão da Ucrânia contém subliminarmente o ódio anticomunista, mesmo sabendo-se que o partido comunista é muito minoritário na Rússia e que Putin é um político de direita, amigo da extrema-direita europeia.

Para os sectores da ultradireita, o comunismo é hoje um significante vazio e funciona como arma de arremesso para demonizar adversários políticos, justificar o seu cancelamento nas redes sociais e promover o discurso do ódio. É de temer que este ressaibo permaneça na vida política para além da guerra.

Governo de mulheres. Nas últimas décadas, os movimentos feministas lutaram com êxito pela participação paritária das mulheres na política. Todos os democratas se devem regozijar com isso. Acontece que, para além do argumento da paridade, foram frequentemente invocados outros argumentos em favor da participação política das mulheres. As mulheres seriam menos competitivas que os homens, mais inclinadas para a solução pacífica dos conflitos, mais bem equipadas para promover e defender a economia do cuidado, tantas vezes desprezada pelo machismo dos políticos.

A guerra da Ucrânia obriga a relativizar estes argumentos. À frente da União Europeia está uma mulher com mais instintos belicistas do que cuidados pacifistas, e as primeiras-ministras da Finlândia e da Suécia não parecem ficar-lhe atrás. Daqui em diante, a paridade deve ser promovida pelo seu próprio e incondicional mérito, mas não se deve esperar que ela, só por si, tenha um impacto na vida política dos países.

Crime e injustiça nos Balcãs. A guerra da Ucrânia teve o efeito de trazer à consciência dos europeus mais informados o modo arbitrário como foi destruída a Jugoslávia, os bombardeamentos da NATO contra alvos civis em 1999 e os crimes de guerra que foram cometidos por todas as partes.

O preconceito histórico e religioso anti-balcãs – o chanceler Metternich do Império Austríaco (1821-1848) dizia que a Ásia começava na Landstrasse, a rua de Viena onde viviam os imigrantes dos Balcãs – acabou por se reflectir no modo como alguns países da região têm estado à espera de entrar na UE.

É cedo para um balanço geral do tempo que estamos a viver, mas os sinais são perturbadores e não auguram nada de bom.

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