Putin | ‘A situação é, até certo ponto, revolucionária’ | por Pepe Escobar, analista geopolítico, escritor e jornalista independente | in GeoPol

A Rússia não tem e não se considera um inimigo do Ocidente.

A Rússia tentou construir relações com o Ocidente e com a NATO – para viverem juntos em paz e harmonia. A sua resposta a toda a cooperação foi simplesmente ‘não’”.

31/10/2022

Putin de facto conseguiu acertar onde estamos: à beira de uma Revolução | Pepe Escobar


Num discurso abrangente na sessão plenária da 19ª reunião anual do Clube Valdai, o presidente Putin fez não menos do que uma crítica devastadora e multifacetada à unipolaridade.

De Shakespeare ao assassinato do general Soleimani; das reflexões sobre a espiritualidade à estrutura da ONU; da Eurásia como berço da civilização humana à interligação do BRI, SCO e INSTC; dos perigos nucleares àquela península periférica da Eurásia “cega pela ideia de que os europeus são melhores que os outros”, o discurso pintou uma tela de Brueghel-esca do “marco histórico” que se nos depara, em meados da “década mais perigosa desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.

Putin aventurou-se mesmo a dizer que, nas palavras dos clássicos, “a situação é, até certo ponto, revolucionária”, pois “as classes altas não podem, e as classes baixas já não querem viver assim”. Portanto, tudo está em jogo, pois “o futuro da nova ordem mundial está a ser moldado diante dos nossos olhos”.

Muito para além de um slogan cativante sobre o jogo que o Ocidente está a jogar, “sangrento, perigoso e sujo”, o discurso e as intervenções de Putin nas perguntas e respostas subsequentes devem ser analisados como uma visão coerente do passado, presente e futuro. Aqui oferecemos apenas alguns dos destaques:

“O mundo está a assistir à degradação das instituições mundiais, à erosão do princípio da segurança colectiva, à substituição do direito internacional por ‘regras’”.

“Mesmo no auge da Guerra Fria, ninguém negou a existência da cultura e da arte do Outro”. No Ocidente, qualquer ponto de vista alternativo é declarado subversivo”.

“Os nazis queimaram livros. Agora os pais ocidentais do ‘liberalismo’ estão a proibir Dostoevsky”.

“Há pelo menos dois ‘Ocidentes’. O primeiro é tradicional, com uma cultura rica. O segundo é agressivo e colonial”.

“A Rússia não tem e não se considera um inimigo do Ocidente.

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ANTÓNIO COSTA | por Francisco Seixas da Costa

Faço parte das pessoas – e somos bastantes, a maioria, como se tem visto – que vivem muito confortáveis com o facto de António Costa estar hoje a liderar o governo. Não vislumbro, no “mercado” político doméstico, ninguém que junte em si mais qualidades para gerir o nosso país.

Não esqueço, e agradecerei sempre, a serenidade firme com que nos conduziu durante a pandemia. O peso que tem vindo a ganhar no plano europeu – um prestígio cujos efeitos desejo que se esgotem exclusivamente no plano nacional – é a prova provada do seu êxito.

Até na gestão do “tandem” que tem feito com o presidente da República, dossiê bastante mais complexo do que parece, António Costa tem revelado uma sábia habilidade. E faço parte de quantos valorizam bastante este último conceito.

Chegado a este ponto, os leitores devem estar à espera daquela frase com que os ingleses relativizam o que acabam de afirmar: “Having said that…” Ela aqui vai: não aprecio, mesmo nada, o tom que, crescentemente, António Costa tem vindo a adotar nas suas intervenções parlamentares.

Era expectável que, com o reforço de dois partidos da direita radical nas últimas eleições, o parlamento entrasse em crescente crispação. Com ambos a apelar ao pior dos sentimentos dos portugueses – um pelo populismo mais baixo, outro pela arrogância a-social -, posso perceber que António Costa se sinta frequentemente irritado e propenso a uma reação vocal mais robusta. Mas é aqui que reside o seu erro.

O primeiro-ministro de Portugal deve demonstrar, em todas as ocasiões, que se recusa a descer ao patamar dos preconceitos, rasteiros ou sobranceiros, com que aqueles grupos de representação ideológica extrema ali sustentam as suas intervenções. Fazê-lo é entrar numa chicana que só confere visibilidade e relevância a quem procura ganhar protagonismo à sua custa.

Tratá-los com educada frieza de Estado, oferecendo-lhes os mínimos de tratamento democrático, deveria ser a posologia a adotar. É que, contrariamente ao que as Seleções do Reader’s Digest defendem, rir, mesmo que deles, nem sempre é o melhor remédio.

Esta é a minha opinião. E, pelo que vou ouvindo, não estou sozinho, mesmo em quantos, como eu, continuam a apreciar muito António Costa.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa