“VÁ-VÁ”, O CAFÉ ONDE SE VIVEU UMA NOVA LISBOA

Inaugurado em 1958, poucos meses depois das eleições presidenciais em que Humberto Delgado desafiou Américo Tomás, no cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida dos Estados Unidos da América, o Café Vá-Vá recebeu o nome do célebre futebolista brasileiro Edvaldo Izídio Neto, mais conhecido por Vavá, bicampeão mundial pela seleção do Brasil em 1958 e 1962. O motivo da escolha é, porém, um enigma: no Brasil de então brilhavam também Pelé e Garrincha. O café foi criado por dois irmãos gerentes, Petrónio e Luís Gonzaga. Rapidamente, porém, o estabelecimento deixou de ser associado apenas ao futebol para se transformar num dos mais importantes pontos de encontro cultural e intelectual da Lisboa das décadas de 1960 e 1970.

Integrado num dos mais modernos conjuntos urbanísticos da capital, numa das quatro torres de 13 pisos que enquadram aquele cruzamento (da autoria dos arquitetos Filipe Nobre de Figueiredo e José de Almeida Segurado), e projetado pelo arquiteto Eduardo Anahory, conhecido como o «arquiteto sem diploma», o café refletia o espírito de renovação que acompanhava o crescimento de Alvalade e das novas avenidas lisboetas. Era um espaço amplo, com uma cave onde funcionava uma muito disputada sala de bilhares, madeiras de castanho-escuro, maples de couro encostados às paredes e uma luz dourada e difusa. Abria até às duas da manhã, o que permitia tertúlias que se prolongavam pela noite dentro. Ali perto, a cidade ainda não acabara de nascer: nos terrenos em redor viam-se quintais e rebanhos, cenário que Paulo Rocha retrataria em «Os Verdes Anos». O seu ambiente acolhedor e cosmopolita depressa atraiu uma geração de estudantes, artistas, escritores, músicos, publicitários e jovens intelectuais que procuravam um espaço de convívio e debate numa sociedade ainda marcada pelas limitações impostas pelo Estado Novo. Quem veio habitar estas avenidas foi uma nova burguesia de profissões modernas, ligadas à publicidade, à moda, à canção, ao cinema, à televisão e à aviação.

Frequentado por estudantes universitários, cineastas, artistas plásticos, músicos e oposicionistas do regime, o Vá-Vá tornou-se um verdadeiro laboratório de ideias. Mais do que um simples café, era um espaço onde se discutiam cinema, literatura, política, música e os rumos do país, funcionando como ponto de encontro de uma geração que começava a desafiar o conformismo dominante e a imaginar novos horizontes culturais e sociais. A proximidade da Cidade Universitária trazia-lhe uma clientela irreverente e interventiva e, durante a crise académica de 1962, os cafés da zona foram também focos de organização do protesto; entre os estudantes que ali ensaiaram ações de contestação contam-se nomes como Medeiros Ferreira, Nuno Brederode Santos e Alfredo Barroso. Havia ainda uma tertúlia de oposicionistas, o chamado «reviralho», em torno do realizador Manuel Guimarães, onde se sentavam, entre outros, Aquilino Ribeiro Machado, filho do escritor e futuro presidente da Câmara de Lisboa (1977—1979), e o jornalista Manuel de Azevedo, do «Diário de Lisboa».

O estabelecimento ficou particularmente ligado ao chamado Novo Cinema Português, sendo um dos principais locais de encontro dos seus protagonistas, a ponto de se falar de uma «geração do Vá-Vá». Nas suas mesas reuniam-se realizadores como Fernando Lopes, Paulo Rocha, António Cunha Telles, António Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos e João César Monteiro, que passou a frequentar o grupo a meados dos anos 1960, cujas conversas e tertúlias contribuíram para fazer do Vá-Vá uma referência incontornável da vida cultural lisboeta. Lauro António, nascido em 1942 e morador ali perto, frequentava o café desde 1958 como jovem cinéfilo, antes de se tornar realizador. A importância desse ambiente criativo ficou imortalizada em «Os Verdes Anos» (1963), filme de Paulo Rocha, que morava no mesmo edifício, e que foi em boa parte rodado no próprio edifício do café. Outros filmes passaram também por aquelas salas, como «Vidas», de António da Cunha Telles, «Paisagem sem Barcos», de Lauro António, e «A Morte de Carlos Gardel», de Solveig Nordlund. O filme viria a tornar-se uma das obras fundadoras do cinema moderno português.

Sob os notáveis painéis de azulejos da pintora Menez, ainda hoje preservados, datados de 1958 e restaurados na remodelação de 2017, cruzavam-se personalidades oriundas dos mais diversos meios culturais. Por ali passaram artistas dos ateliês dos Coruchéus, como Dourdil, João Vieira, Eurico Gonçalves e Dalila d’Alte, estudantes envolvidos no movimento associativo académico, escritores como Vergílio Ferreira, Lídia Jorge e Mário de Carvalho, nomes da canção como Fernando Tordo, Paulo de Carvalho e Carlos Mendes, médicos do Hospital de Santa Maria, comandantes da TAP e futebolistas como Humberto Coelho. Já nos anos 80, passaram por ali músicos dos grupos do chamado Novo Rock, como a Sétima Legião, que ensaiava num prédio fronteiro, os Xeiques e Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, e figuras marcantes da vida cultural da cidade, entre elas o divulgador de jazz Luiz Villas-Boas. O ambiente era tão singular que terá ganho uma alcunha que entrou para a mitologia lisboeta: «Ninho de Lacraus», designação associada, segundo se conta, ao humor mordaz de João César Monteiro para caracterizar aquela fauna boémia, irreverente e intelectualmente inquieta.

Havia ainda uma vizinhança de outro género: no edifício ao lado funcionavam os escritórios dos Parodiantes de Lisboa, o grupo de humoristas radiofónicos fundado pelos irmãos José e Rui Andrade. A sua história começara a 18 de março de 1947, com a estreia, na Rádio Peninsular, do programa semanal «Parada da Paródia», na sequência do jornal humorístico «A Bomba» (1946—1947). Mais tarde, «Graça com Todos», emitido ao almoço no Rádio Clube Português, tornou-se um fenómeno de audiências que chegou também a Angola, Moçambique, Timor, Macau e à Austrália, com personagens como Patilhas e Ventoinha, o Compadre Alentejano, o Menino Arnestinho ou as Manas Catatua. Por isso, muitos dos Andrades e do seu elenco não dispensavam a bica no Vá-Vá, onde se viam também Jacinto Ramos e José Nuno Martins, e onde o humor popular da rádio se cruzava com o cinema, a canção e a oposição ao regime.

Mas a verdadeira importância do Vá-Vá ultrapassa largamente a lista dos seus frequentadores. O café foi um dos raros espaços onde se formou uma geração que viria a marcar profundamente a vida cultural, artística e, em certa medida, política portuguesa nas décadas seguintes. Ali pensava-se, discutia-se, criava-se, namorava-se e sonhava-se uma sociedade diferente. Num tempo de vigilância política e de fortes constrangimentos à liberdade de expressão, o Vá-Vá representou um espaço de encontro, de criatividade e de liberdade intelectual. Até à Revolução de abril de 1974 foi um importante ponto de encontro de pensadores e artistas. Em 2017, uma profunda remodelação, conduzida pelos novos sócios Pedro Ferreira e João Simões, manteve e restaurou o espólio artístico, e a casa foi depois reconhecida pela Câmara Municipal de Lisboa como «Loja com História». Foi, acima de tudo, uma autêntica «cápsula do tempo» da Lisboa que despertava para a modernidade e para o mundo. No Vá-Vá, viveu-se verdadeiramente uma nova Lisboa.

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