Sampaio da Nóvoa: “A pedagogia pertence aos professores e não à sociedade”, in Expresso

Perante uma audiência de mil professores, António Sampaio da Nóvoa alertou para a desvalorização da escola como instituição e para a erosão da autoridade dos professores face aos avanços tecnológicos.

Numa intervenção no Congresso Educar Transforma, que decorreu este sábado em Matosinhos, o professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa defendeu uma “metamorfose” da educação em Portugal assente nos valores históricos da profissão e na reafirmação da “auctoritas” da classe docente.

Sampaio da Nóvoa disse identificar no panorama atual um “entendimento irregular do que deve ser a legítima e necessária participação dos pais e dos cidadãos na escola”, declarando ainda que “a escola pertence à sociedade e não aos professores, mas a pedagogia pertence aos professores e não à sociedade”.

O professor jubilado, antigo embaixador de Portugal na UNESCO e ex-candidato à Presidência da República foi um dos oradores principais do Congresso Educar Transforma, o primeiro de dois eventos organizados pela Porto Editora para pensar a educação, que decorreu este sábado, na Exponor, em Matosinhos. A segunda iteração do congresso terá lugar em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB), a 20 de junho.

Educação em Portugal enfrenta “discursos delirantes”

No início da intervenção, Sampaio da Nóvoa manifestou preocupação face às recentes “ameaças à escola como bem público e comum”, entre as quais destacou como “a mais violenta” os “discursos delirantes mas muito poderosos que anunciam o fim das escolas, substituídos por centros abertos, flexíveis, com aprendizagens online , sem professores, que são substituídos por learning coaches e workshop leaders”, numa referência aos hubs da Brave Generation Academy, geridos pelo empresário Tim Vieira.

Para o professor e reitor honorário da Universidade de Lisboa, “a escola não é uma academia, não é um negócio, não é um serviço e não é um produto”. “A escola é uma instituição, o que nos traz a todos e a todas acrescidas responsabilidades”, disse.

O titular da Cátedra UNESCO Futuros da Educação dirigiu ainda críticas ao agigantamento da promoção da Inteligência Artificial (IA) nas escolas, referindo “autores que dizem que os professores são agora co-docentes da IA”, narrativa que considera contribuir “para a degradação da escola enquanto instituição e para a diminuição do papel dos professores enquanto profissionais”.

Abundam projetos na escola enquanto as aulas carecem de “projeto pedagógico”

Sampaio da Nóvoa apresentou um diagnóstico das escolas portuguesas, baseado em visitas não programadas a cerca de 60 escolas de Portugal continental e ilhas. Os relatos dessas experiências estão registados no livro “Viagem por Escolas de Portugal”,, editado em março pela Porto Editora.

Sintetizando um diagnóstico que apelidou de “duro, mas necessário”, o professor apontou, como faceta positiva, a “abundância de projetos sociais e culturais” de forma geral nas escolas do país. Contudo, Sampaio da Nóvoa expõe uma “ausência de projeto pedagógico na sala de aula”.

“Se é verdade que há mudanças de grande significado na escola, na sala de aula mantêm-se formas de trabalho bastante pobres e ilíquidas. Como se a reprodução de um mesmo modelo escolar que prevaleceu nos últimos 200 anos fosse a única possibilidade de sobrevivermos em tempos confusos, em tempos incertos, em tempos turbulentos. Como se não houvesse energia nem condições para ensaiar novos processos de ensino e de trabalho”, refletiu.

Para Sampaio da Nóvoa, a solução para a educação em Portugal passa por uma metamorfose assente na história da profissão e nos princípios de “cooperação, convergência e convivialidade”.

Defendeu ainda que a profissão deve garantir mais e melhor visibilidade pública, tanto para a defesa das condições da carreira como para “o reforço da autoridade dos professores”, dirigindo críticas a “uma certa apatia, talvez indiferença ou insensibilidade de muitos governos em relação aos professores desde o início do século XXI”.

Milhares de professores na rua

Enquanto em Matosinhos se preencheram os mil assentos da Exponor para o congresso Educar Transforma, em Lisboa, milhares de professores saíram às ruas na tarde de sábado para uma manifestação convocada pela Federação Nacional dos Professores (Fenprof), em Lisboa, contra a revisão do Estatuto da Carreira Docente e o pacote laboral.

Em declarações à Lusa antes do arranque do protesto, José Feliciano da Costa, um dos secretários-gerais da Fenprof, anunciou a adesão à greve geral convocada pela CGTP para 3 de junho e duas concentrações – a 15 de junho contra o calendário do pré-escolar e do 1º ciclo e a 26 de junho, sobre a revisão dos estatutos.

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