Os oligarcas estão a aparecer à luz do dia | por Carlos Matos Gomes | Artigo do Le Monde

Compremos ações das suas empresas em vez de irmos votar!

Tal como o proscrito DDT que era espalhado pelos soalhos de madeira apodrecida fazia aparecer as baratas à luz do dia, a guerra na Ucrânia teve como um dos efeitos colaterais fazer surgir nos palcos do poder, sem disfarces nem homens por si os oligarcas ocidentais das tecnologias da informação, o setor decisivo na atual fase das civilizações dominantes. Os exemplos mais claros são os de Elon Musk (SpaceX, Starlink, Twiter) e de Marc Zukerberg (Facebook/Meta), que dominam as mais importantes redes de dados do planeta e vão despedir milhares de “colaboradores” para concentrarem força (capitais) nos segmentos nucleares do negócio: a investigação e desenvolvimento de novos produtos que lhes assegurem vantagens competitivas no futuro. Eles percebem que têm de estar à frente dos outros e isso implica agir num mercado global, vender um produto essencial e tornar dependentes de si todos os detentores de algum poder. Os despedimentos são uma poda regeneradora para fortalecer as “máquinas” de impor o pensamento único, de normalizar comportamentos, de apresentar a submissão como uma atitude libertadora e fruto da vontade e livre arbítrio. A campanha de manipulação sobre a guerra da Ucrânia demonstra que esta ordem pode ser imposta com o passarinho azul do Twiter e as argolas do Meta que substituiu o FB e que os fiéis ainda vão pagar para fazer parte da igreja, o que é, aliás, uma prática milenar.

Para estes oligarcas tecnológicos (de quem dependem os agora “famosos” nómadas digitais) o regime político, qualquer que seja a intervenção dos seres comuns na vida das comunidades, funciona apenas como um legitimador de negócios e como uma máscara que ilude a concentração de poder como uma calçadeira. Para os oligarcas o regime político é tão indiferente como os sapatos serem de pala ou de atacadores, desde que eles lá possam meter os pés.

Paulatinamente e ao longo do tempo, os oligarcas foram-se aproximando diretamente do poder, das suas alavancas, recrutando “colaboradores” para as suas políticas, presidentes, ministros, deputados e marionetas que evitassem sujarem as mãos de sangue, mas os tempos estão a mudar, os recursos do planeta são finitos, aproximam-se graves conflitos de luta pela sobrevivência de grandes massas de povos no Primeiro e no Segundo Mundo e eles querem garantir a sua sobrevivência. Há que dar o corpo ao manifesto, ir para ponte de comando. Quem quer vai, quem não quer manda!

Douglas Rushkoff, professor de Media Theory e Economia Digital na Universidade de Nova Iorque, considerado um dos mais importantes pensadores do mundo pelo MIT, é autor do livro «Team Human» (2019), onde descreve a experiência por que passou quando foi convidado por um seleto grupo de oligarcas (cem multimilionários americanos acionistas de bancos de investimentos) para um seminário à porta fechada sobre o futuro. Concluiu: “Os ricos estão a planear deixar-nos para trás!” (Antigamente planeavam andar à nossas costas.)

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