Girassol

Girassol

Pétalas fundidas ao tempo
flores e flores amarelas,
recolhem e derramam luz,
atirando, à sala,
a arte de Vincent.

Pétalas de luz transverberada
retendo, no vaso, as flores
refletindo o amarelo ouro
além do vaso,
além da sala,
além do tempo.

Pétalas de “Lírios”
pétalas de “Sorrow”, nua,
pétalas de “Loendros”.

Eis ali o artista, de corpo inteiro,
transfigurado em Girassol.

Vicente Freitas
Girassol de Van Gogh

O mundo

Mulher galhosAqui está o mundo:
paisagens diluídas;
pretebranco, pretebranco
e nada mais.

O ser que o construiu:
uma barata, uma formiga, um dinossauro,
um orangotango
ou
quiçá
outras espécies antropóides
ou
quiçá
todos… juntos.

Cresceram sob o sol,
criaram asas, caíram,
(as linhas de voo, incertas, evoluíram)
e alguns renasceram das cinzas
— Fênix.

Mas,

o que nasce; morre, nascemorre
morremorre.

— E nada mais.

Vicente Freitas

Dia “D” de Drummond

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Carlos Drummond de Andrade tinha 28 anos quando conseguiu publicar seu primeiro livro, Alguma Poesia, em 1930. Foi uma edição modesta, paga pelo próprio autor. Essa obra, que tinha poemas como No Meio do Caminho, Quadrilha e Poema de Sete Faces, mudou os rumos da poesia no Brasil.

Num texto de 1958, Bandeira se pergunta: “Como chegou ele a tamanha destreza”? Em seguida, responde: “Conheço um pouco o segredo dele pela leitura de um livro seu que nunca foi publicado — Os 25 Poemas da Triste Alegria. O estilo do livro sabe àquela sutileza própria do Ronald-Guilherme, no modernismo incipiente”. O original dessa obra, de 1924, estava desaparecido.  Muitos chegaram a duvidar de sua existência. Há quatro anos, o poeta Antônio Carlos Secchin, conseguiu localizá-lo. Agora, com aval da família, pretende publicá-lo em versão fac-similar.

Os 25 poemas foram escritos no começo de 1920. Doze são inéditos, e os demais foram publicados, esparsamente, em jornais da época como o Diário de Minas. Nesse período, Drummond acabara de mudar-se para Belo Horizonte.  Foi nesse mesmo ano que o poeta pediu a Dolores para datilografar os 25 poemas. Ele mandou encadernar um único exemplar e o enviou para o amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade, que morava no Rio de Janeiro, então capital da República, e tinha bons contatos que poderiam ajudar na publicação da obra. Nesses poemas, Drummond já usa o verso livre. Sua temática são as musas esvoaçantes, o anoitecer, a angústia pela passagem do tempo.

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