José e Pilar, um filme de Miguel Gonçalves Mendes

 Este filme acompanha o dia-a-dia do casal José Saramago e Pilar del Rio, mostrando-nos o processo criativo do livro a “A Viagem do Elefante”. Momentos do cotidiano, ponteados pelas reflexões de José Saramago, enquanto Pilar, como uma abelhinha, vai cuidando do dia-a-dia do casal, da agenda de Saramago e do próprio Saramago.

Existe uma forte união entre os dois, sem que um apague o outro. Disso mesmo nos dá conta o filme, mostrando Pilar nas suas próprias iniciativas, em diversas conferências e presenças na comunicação social.

Pilar é uma mão que conforta, mas que também empurra. Saramago vence as suas reticências em comparecer à homenagem que Azinhaga, a sua aldeia natal, lhe pretende oferecer. “Não é por ti, mas pelas pessoas.”, diz Pilar. Anos mais tarde, também na aldeia da Azinhaga, Pilar dá o nome a uma rua, em esquina com a de José Saramago. Numa entrevista, a um insípido jornalista português, corrige-o sem cerimónia: Presidenta! Adianta-nos Pilar que a palavra passou a existir a partir do momento em que a função foi criada no feminino. Néscios são os que insistem em chamar-lhe presidente da Fundação José Saramago. O jornalista pretende saber se os casamentos e a família tradicional estão ameaçados pela lei, recentemente aprovada por iniciativa de Zapatero, que legaliza o casamento homossexual em Espanha. É o momento mais baixo do filme. Salva-nos a resposta de Pilar que devolve o filme ao século XXI, do qual, por momentos, fora arredado.
Sempre achei que Pilar, com a sua vivacidade e rede de contatos (conseguidos enquanto jornalista), abriu novos horizontes a Saramago, roubando-o às pequenas quezílias nacionais, atirando-o para o grande palco do mundo. Muito do Nobel se deve à sua ação de promoção de Saramago. Mas, agora espreitando-a um pouco na sua intimidade que o filme, com sobriedade nos mostra, fica um ligeiro travo de desapontamento. A intimidade dos outros é sempre território escorregadio.

Fica-nos na retina as imensas filas para autógrafos, uma das maiores torturas a que Saramago foi submetido. Quatrocentos e cinquenta autógrafos só de uma vez, em Azinhaga.

“O nome Pilar é muito polémico em Portugal.” Afirma o desastrado jornalista, ao que responde Pilar: “O nome Pilar não existe em Portugal”. Devemos-lhe a palavra “Presidenta”. Ficámos todos menos néscios.

Numa conferência, Saramago refere-se a uma pergunta que lhe fora feita numa entrevista: o que precisa, agora que já tem tudo? Tempo, responde Saramago. A força anímica de Pilar e a sua capacidade de trabalho multiplicaram-lhe o tempo. Como se fosse uma resposta à sua prece. “Se não tivesse conhecido a Pilar, morreria mais velho do que sou hoje”. Saramago sentiu-se profundamente amado por esta mulher. Este filme é um tributo a esse amor.
Embora, como diz o subtítulo, tudo se possa contar de outra maneira.

página oficial do filme

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