Da Síria à Coreia, o mesmo princípio: em Washington a paz é péssima para os negócios! | Carlos Matos Gomes in MOVER A MONTANHA

A intervenção na II Guerra Mundial deu origem a um regime de oligarquia nos Estados Unidos, ou foi fruto dela. Uma oligarquia que o presidente Eisenhower designou como “complexo-militar industrial”, que integra também o complexo financeiro de Wall Street. A partir daí o slogan “o que é bom para a General Motors é bom para a América” passou a ser o que é bom para o complexo militar-industrial é bom para a América e todas as ações gizadas em Washington devem ser analisadas à luz dos interesses da oligarquia que o controla.

A oligarquia americana instituiu-se como ”perturbador mundial” e desde o final da IIGM desenvolveu a sua manobra de domínio planetário através da criação de pontos quentes e situações de conflito permanente em zonas chave. Um pouco a estratégia de domínio de estreitos que Afonso de Albuquerque utilizou para dominar o Índico com forças reduzidas, em que os EUA criam os estreitos para depois induzirem a necessidade de os defender.

São os interesses desta oligarquia que estão em jogo na atual fase de aproximação das duas Coreias e de desestabilização da Síria e do Médio Oriente, em geral.

A estratégia do regime de Washington de aumentar as tensões nos pontos quentes que são a península da Coreia e o Médio Oriente sofreu recentemente dois sérios contratempos, um com o encontro dos presidentes das duas Coreias, o outro com a derrota na Síria dos exércitos islâmicos que os EUA apoiaram.

Na Síria, a desestabilização provocada pelos Estados Unidos trouxe a Rússia para zonas no Médio Oriente e nas margens do Mediterrâneo que a esta lhe interessava ocupar, deixaram desamparados e na expetativa os seus peões na região, Israel e a Arábia Saudita, e fê-los perder a Turquia como aliado incondicional. O tiro saiu pela culatra.

A situação nas Coreias é semelhante. Após a II Guerra Mundial os Estados Unidos estabeleceram a sua base militar regional na Coreia do Sul. O desanuviamento entre as duas Coreias tem uma leitura: a China impôs a abertura ao seu peão da Coreia do Norte e serviu de fiador junto da Coreia do Sul, que se sentiu suficientemente confiante no poder e na palavra da grande potência regional para aliviar os laços com os Estados Unidos.

A aproximação das duas Coreias prejudica os interesses do regime de Washington, que perde o pretexto para vender armas na região e, principalmente, para manter na península da Coreia e nos seus mares uma poderosa força militar convencional e nuclear. Torna os Estados Unidos dispensáveis, se não mesmo inconvenientes. A desnuclearização da península coreana retiraria argumentos aos Estados Unidos para ali manterem armas nucleares. Um acordo para a desnuclearização da Coreia teria como contrapartida a retirada por parte dos Estados Unidos dos seus submarinos e bombardeiros nucleares da região! É, ou seria, uma vitória chinesa. O que teria reflexos no Japão, que se sentiria tentado a reforçar os laços com a China. Os Estados Unidos começariam a ser vistos como um espantalho de si próprios, uma figuração ameaçadora de um poder que já não têm. Não podem dar essa imagem de si.

Neste cenário, a oligarquia de Washington impedirá a desnuclearização da península da Coreia e evitará que do encontro entre Trump e Kim Jong-un saia um acordo real e com alguma substância. É provável que Trump faça uma rábula qualquer para acusar o parceiro do cabelo esquisito de intransigência e assim manter a situação de fervura regional nas Coreias, que é a que melhor serve os interesses dos seus oligarcas ou que, no final seja apresentado ao mundo um comunicado de duplos vencedores, do tipo win-win, que mascare a manutenção do status quo, o que também serve a Washington.

No Médio Oriente, o regime de Washington já “endossou” ao agente local, Nethanyaou, o papel de apresentador da velha rábula do “programa secreto de armas nucleares do Irão”, a mesma do Iraque, para justificar uma futura ação de perturbação regional e criar o pretexto para uma demonstração de força que restaure o prestígio perante as suas hostes.

Em resumo:

O desanuviamento entre as duas Coreias patrocinado pela China esvazia o papel dos Estados Unidos na região e retira pretextos para ali intervir, ou se manter. É intolerável, por isso Trump ou romperá as conversações com Kim Jong-un, ou esvaziá-las-á de conteúdo.

No Médio Oriente os EUA terão de criar um pretexto para intervirem directamente ou através de Israel. O número das armas químicas correu mal. Será inventado um outro, o programa nuclear do Irão é o mais óbvio. Os guionistas de Washington devem estar a escrever um enredo.

Em conclusão:

Os Estados Unidos encontram-se numa posição difícil e vulnerável, que os tuites de Trump apenas acentuam.

São hoje um amigo inconveniente, cuja presença se tornou indesejável para os atores regionais do Médio Oriente (excepto para os regimes lacaios da Arábia e de Israel) e para as duas Coreias. São cada vez mais um espantalho que ainda assusta, mas já não infunde terror.

No entanto, como a paz é péssima para os negócios do complexo militar industrial, terá de ser criado e mantido um ambiente de tensão e de conflito! The show must go on!

Entretanto, na zona do Pacífico/Índico, os presidentes da China e da Índia promoveram um encontro para harmonizarem posições entre as suas grandes nações, que são potências nucleares, espaciais e também as maiores importadoras de petróleo, em competição com os Estados Unidos nestes três campos. Uma aliança ameaçadora para os interesses do regime de Washington.

No Médio Oriente, a intervenção Russa e as reticências da Turquia à fidelização no âmbito da NATO retiraram a supremacia aos EUA. Há que forçar um conflito para clarificar posições. O resultado é incerto.

Nesta situação, a Europa devia autonomizar-se da estratégia de perturbação que já não esconde a decadência dos EUA como centro do império mundial. A folclórica visita do casal Macron aos Trump parece indicar que, pelo contrário, a União Europeia prefere ajudar a agitar o espantalho em que os Estados Unidos se estão a transformar à vista de todos.

Carlos Matos Gomes in MOVER A MONTANHA

https://www.moveramontanha.pt/article/5af57dac7e05aa7bf0c6614e

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.