AINDA A DEGRADAÇÃO DO NOSSO ENSINO | António Galopim de Carvalho

Na minha capacidade de análise, que vale o que vale, o problema da degradação dos nossos ensinos básico e secundário reside, sobretudo, na classe política, onde, a par de gente capaz e honesta, se instalaram arranjistas e corruptos, como em todo o lado.

Mas tendo em conta que a chamada Esquerda só esteve no poder dois anos e dois meses, com os governos provisórios, e que tendo sido o Centro e a Direita a governarem-nos há mais de quarenta e dois anos, há que imputar a estes, os do chamado “arco do poder”, o grosso da responsabilidade de uma tal degradação.

Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada” entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos cultura civilizacional e humanística. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a educação. E, aqui, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.

O mundial de futebol, a crise no Sporting e as buscas da PJ no Benfica e noutros clubes enchem os noticiários à exaustão.
De momento, parece que andamos esquecidos do gravíssimo problema subjacente à greve dos Professores, em curso, mas ele existe, está latente. o Ministro da tutela (talvez com o argumento de que “carrega” com o fardo do desporto), foi a Moscovo, no passado dia 20, na companhia do Presidente da República, ver o Portugal- Marrocos, e, cinco dias depois, a Saransk, com o Primeiro Ministro, ver o Portugal-Irão.

Os saberes acumulados ao longo de uma vida de muitos anos, sempre em contacto com o ensino a todos os níveis, a liberdade que me assiste como cidadão político consciente e não “amarrado” aos aparelhos dos partidos políticos e a lucidez que ainda julgo manter, permitem-me dizer ou voltar a dizer, “preto no branco”:

1 – A SER VERDADE que a luta dos professores, em proporções nunca vistas, visa o cumprimento de uma promessa do governo, estou a 100% do lado de todos eles, os bons e os maus. Todos! “Palavra dada, palavra honrada”, como diz o Primeiro Ministro. A ser verdade, insisto em afirmar porque, nestes conflitos, como é sabido, cada uma das partes tem o seu discurso;

2 – a PAR DE EXCELENTES PROFESSORES, há outros, sem preparação suficiente, que fazem do ensino um emprego, não uma profissão e, muito menos, uma missão, e outros, ainda, francamente maus;

3 – os VERGONHOSOS RESULTADOS escolares em Portugal falam por si. E aos que me respondem lembrando que alunos das nossas escolas marcam pontos lá fora em competições internacionais (o que é um facto honroso e indesmentível) respondo dizendo que esses são alunos excepcionais preparados por professores excepcionais. Ponto final;

4 – a sistemática RECUSA ÀS AVALIAÇÕES, por parte de muitos professores (os jornais têm falado em milhares), com o apoio dos sindicatos, face às diversas propostas feitas pelos governos, ao longo de mais de uma dezena de anos é responsável pela permanência dos incompetentes à frente das nossas crianças. Não são os bons professores que temem ser avaliados, são os outros, e não são assim tão poucos;

5 – os sindicatos, NIVELANDO, POR IGUAL, os bons, os menos bons e os maus professores, ao apoiarem os que se opõem às avaliações, exigindo promoções automáticas, ditadas pelo tempo de serviço, tem grande responsabilidade numa parte importante da degradação do ensino público;

6 – a tradicional e endémica FALTA DE VERBA atribuída à Educação;

7 – a “BALDA” que se seguiu nas Universidades, a seguir à revolução de 1974, com os “aptos” e as “passagens administrativas”;

8 – o NÍVEL SÓCIOCULTURAL de milhares de famílias carentes de tudo;

9 – a PREPARAÇÃO CIENTÍFICA E PEDAGÓGICA dos professores.

É minha convicção que:

1 – Os professores devem SABER MUITO MAIS do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos manuais de ensino. Para tal, os professores necessitam de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm;

2 – há, pois, que LIBERTÁ-LOS DAS TAREFAS que não sejam as de ensinar;

3 – é necessário e urgente fomentar, como inerência de cargo, a DIGNIFICAÇÃO E O RESPEITO pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar;

4 – é necessário e urgente que a Escola recupere todas as competências fundamentais à DISCIPLINA;

5 – é necessário e urgente rever toda a política dos MANUAIS DE ENSINO, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e à correspondente supervisão;

6 – impõe-se repensar a POLÍTICA DE EXAMES e de classificação do aluno”;

7 – é necessário resolver o grave problema da COLOCAÇÃO DE PROFESSORES, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias;

8 – a REMUNERAÇÃO dos professores tem de ser compatível com a sua real importância na sociedade. Um professor universitário (que é avaliado, pelo menos três vezes ao longo da carreira) não é nem mais nem menos importante do que um do ensino secundário ou do básico;
9 – é preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na ESCOLHA DOS TITULARES, como nas dotações orçamentais que permitam dar às escolas as necessárias condições de trabalho;

10 – é urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver VONTADE POLÍTICA (despida de constrangimentos partidários) para promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial” poderosa e, de há muito, instalada.

António Galopim de Carvalho

Retirado do Facebook | Mural de António Galopim de Carvalho

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