Um pouco sobre as origens do nosso País | Jorge Alves

Bom dia, amigos. Se estiverem de acordo, vamos falar hoje um pouco sobre as origens do nosso País. Decerto todos ouviram falar do Condado Portucalense. Mas o que era exactamente esse condado? Como surgiu? E porquê essa designação? Alguns de vocês estarão decerto a pensar que surgiu com o pai de D. Afonso Henriques. Mas não. Surgiu muito antes. Mais de 200 anos antes. Uma ressalva – estamos a falar da Alta Idade Média, altura em que os textos existentes eram muito escassos. Para piorar ainda um pouco mais a situação, poucos chegaram até nós. Fazer um retrato do que se passou há tantos anos é um pouco como montar um puzzle às cegas. O que daí resulta é algo nebuloso e com pouco grau de certezas. Mas há algumas.

Sabemos, por exemplo, que onde se situa hoje a cidade do Porto já durante a ocupação romana havia então dois núcleos importantes – Portus, no que é hoje a Ribeira, e Cale, na Penaventosa, onde está o Morro da Sé. Com o passar dos anos, Cale expandiu-se e desceu até ao rio, de onde surgiu o topónimo Portucale. Erradamente, muita gente julga que Cale corresponderia à actual Gaia. Mal, já se vê. O texto mais antigo onde surge o topónimo Portucale é-nos apresentado pelo bispo galaico-romano Idácio de Chaves, que viveu no século V (há mais de 1.500 anos!) e que nos relata a desordem resultante da desagregação do Império Romano e de como tribos bárbaras vindas do Norte e do Leste da Europa se apossaram da Península Ibérica a partir do ano 408.

Suevos, Alanos e Vândalos espalharam-se pelo que é hoje Portugal e Espanha, destruindo o que restava da herança romana. Os Suevos apoderaram-se de toda a região da Galiza até ao Douro e fundaram um reino, o qual englobava naturalmente a cidade de Portucale. Ali construíram uma muralha defensiva a rodear o Morro da Sé, onde exerciam o poder. Curiosamente, a tribo que mais trabalho deu aos Suevos foi a dos Vândalos, que chegaram a estar solidamente implantados na região do Porto antes de dali serem escorraçados para Sul e, depois, para o Norte de África, onde acabaram por desaparecer sem deixar rasto. Como sabemos, os Vândalos passaram para a História como um tribo temível, sem medo de nada, e o seu nome passou a ser sinónimo de gente com pouco ou nenhum respeito pela propriedade alheia.
Voltemos aos suevos, cujo reino, entretanto cristianizado, haveria de perdurar quase 200 anos, até que novos invasores se impuseram – os visigodos, ou godos do Ocidente, que também abraçaram Cristo. Estes ficaram por Portucale até 716, altura em que foram corridos por novos invasores – os árabes. Os guerreiros visigodos que sobreviveram refugiaram-se num pequeno enclave nas Astúrias. Não se julgue que os árabes não os arrasaram por completo porque não puderam. Errado. A elite árabe achava que não valia a pena. Porquê perder homens em combate para ficar com umas terras inóspitas e frias? Todos sabemos, porém, que esse foi um erro de cálculo dos árabes. Poucos anos depois, o rei desses cristãos, Afonso I, juntou os seus guerreiros e fez uma incursão até ao Mondego. Matou todos os mouros que subjugou, reuniu os cristãos que ainda ali habitavam e levou-os para as Astúrias.

O resultado foi que a região entre o Mondego e o Minho ficou praticamente deserta e naturalmente desolada. Todo esse território passou então a ser designado por Portucale, adoptando o nome do que viria a ser a cidade do Porto. Já vimos que essa região vivia momentos caóticos, mas isso não significava que não estivesse ainda de posse dos árabes, que a reocuparam após a retirada de Afonso I. Era então a altura dos senhores da guerra, nobres cristãos que juntavam uma horda guerreira e se apossavam do que lhes caía nas mãos, motivo por que receberam o nome de presores. Foi o caso do sucedido no ano 868, quando um conde vindo da Galiza, de nome Vímara Peres, se apossou da cidade de Portucale, dela expulsando os mouros. Aproveitando o impulso, o conde correu também com os árabes de entre Douro e Minho, conforme nos relata a Crónica Laurbanense nos anais do Mosteiro de Lorvão.

Vassalo de Afonso III, do Reino das Astúrias, Vímara Peres procedeu a um metódico trabalho de repovoamento da região de que se apossara e que tinha agora o nome de Condado Portucalense, o qual regeu com elevado grau de autonomia. Nessa altura, por finais do século IX, todas as regiões costeiras atlânticas eram assoladas pelas hordas vikings. A cidade de Portucale, centro de poder do condado, não era excepção e deixou de ser considerada segura por estar paredes-meias com o mar. Vímara Peres decidiu então procurar refúgio no interior, onde os governantes pudessem estar a salvo da fúria dos homens do Norte. Fundou então um povoado que naturalmente ficou com o seu nome – Vimaranis, a actual Guimarães, onde o próprio Afonso III haveria de reunir a sua corte para decidir qual a melhor forma de repovoar o condado.
Em Guimarães haveria de morrer o conde Vímara Peres. Sem resolver, contudo, a questão das constantes invasões vikings, cujo chefe, Gunderedo, persistia em continuar a infernizar as costas galegas e portuguesas. Só a junção das forças portuguesas e galegas haveria de permitir a derrota final de Gunderedo, no ano de 968, o que possibilitou que as incursões se tornassem muito menos frequentes. Refira-se, a título de curiosidade, que um dos últimos raids vikings contra a cidade de Portucale teve lugar no ano 1000, tal como nos relata o historiador Adriano Vasco Rodrigues, antigo reitor do tripeiro Liceu Garcia de Orta e que chegou a dar uns valentes puxões de orelhas a este vosso amigo. Nesse ano, barcos vikings saquearam uma pequena aldeia de pescadores onde hoje se situa o Beco das Carreiras, no Parque da Cidade do Porto. Na altura, a linha de mar chegava ali, um quilómetro mais do que hoje, como resultado de a temperatura média ser mais elevada.
Mas voltemos ao condado. Os descendentes de Vímara Peres iriam governá-lo com mão firme. Saliente-se, de entre os condes que se seguiram a Vímara Peres, o papel desempenhado pela condessa Mumadona Dias, filha do conde leonês Diogo Fernandes. Mumadona casou com o conde Hermenegildo, senhor de Portucale. Após a morte do marido, cerca do ano 945, passou a governar sozinha o condado. Muito rica, foi a mulher mais poderosa de todo o Noroeste peninsular, Galiza incluída. Sob a sua governação, a região entre Minho e Mondego conheceu uma prosperidade notável. Piedosa, fundou um mosteiro nos campos de São Mamede, onde haveria de se recolher. De forma a proteger o mosteiro dos constantes ataques vikings, ergueu as primeiras muralhas do castelo de Vimaranis, dando assim continuidade à obra do primeiro conde.

Da mesma forma que apareceram, qual pandemia, os vikings desapareceram, remetendo-se para sempre aos fiordes da Escandinávia. O condado prosperou, limitando a luta contra os mouros, que ocupavam toda a linha a sul do Mondego. Como resultado desse desenvolvimento, o último conde, Nuno Mendes, ousou exigir uma maior autonomia ao seu senhor, Garcia II, então rei da Galiza. Decorria o ano de 1071. Claro que Garcia II não esteve de modas e entrou no condado com as suas tropas, as quais acabaram por chocar com as forças de Portucale nos campos de Mire de Tibães, na margem sul do Cávado, dando origem à batalha de Pedroso. Ali morreu o conde Nuno Mendes e, com ele, o condado, que passou para as mãos dos galegos. Mas não por muito tempo. Em 1087, um grupo de nobres franceses atravessou os Pirenéus, a pedido do então rei de Leão, de Castela e da Galiza, Afonso VI, que precisava de toda a ajuda na luta contra os mouros. Nesse grupo vinha Henrique, pai do nosso Afonso Henriques. O resto da História é conhecido – o condado ia renascer e, com ele, Portugal. Uma boa quarta-feira para todos.

20-05-2020

Jorge Alves

Retirado do Facebook | Mural de Jorge Alves 

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