INTIMIDADES | Tiago Salazar

Se vos contar uma história baseada em factos reais vão acompanhar-me até ao fim? Vão voltar atrás, e reler, e tentar entrar na intenção do autor? Vão perorar aí em baixo, clicar numa das opções reactivas? Vão comentar com acidez ou escárnio sem clicar no gosto por desdém irritativo? Faltam aqui patilhas do não gosto, não curto, não me identifico, ou uma que me apraz, vai-te catar. Mas isto hoje é sério. Ser levado a sério implica toda uma reputação de conduta retrospectiva. Como para votar num indivíduo há que apurar do seu currículo, de públicas virtudes e impúdicas particulares. O Bill, por exemplo, ganhou ou perdeu mais pelo facto de se aprestar a um fellatio na sala oval? Entre os machos, marcou pontos de virilidade, sobretudo os de pele rosada e cheínhos. Entre as fêmeas púdicas, recebeu as ovações de porco, canalha, sacana, facínora, no pressuposto de que o adultério é um crime solitário. Não sabemos se o Bill vivia numa relação aberta e a Hillary não andava em coboiadas, ou se o casamento não era apenas um contrato social de onde a sexualidade estava arredada. Que sabemos, no fundo, dessas coisas pudibundas que alimentam o voyeurismo, aqui, a jusante, ou na Ferrante, que fala disso, desabrida como poucos?

Um dia li um prosa pícara de uma senhora escritora sobre as suas aventuras sexuais com um punhado de escritores de egos inchados no sentido oposto das suas pichas curtas e murchas. Pus-me a pensar se fosse eu um dos visados, e logo desviei o pensamento para o consolo estatístico e a alegria dos bons genes. Ao ler o relato das tristes figuras dos actos praticados por cada um, fiquei a pensar na sina dos homens que caem nas mãos de uma escritora (ou escritor). Em suma, nenhum dos três juntava o talento para a escrita à performance do coito. O coito é como o tango, e pode ser uma maravilha de rodopios ou uma tanga. Basta meter-se ao barulho o embaraço da queca de ocasião. A falta de intimidade (e de jeito de uma ou ambas as partes). O receio das doenças venéreas e do recheio pútrido. O imperativo do preservativo. Ou então apenas um velocino mal aparado, uma pentelheira vintage, um cheiro nauseabundo (do corpo ou das traseiras da pensão) para o entesoar do esplendor ficar comprometido.

Tive um amigo que andava doente (sem saber do quê), começou a definhar e, por inerência, mirrou. A mulher (hoje ex) não resistiu a tanto sofrer e padecer, e foi procurar consolo para o ingurgitamento noutra freguesia. O meu amigo curou-se e endireitou-se da doença. Quanto ao resto suponho que cumpra, a ver pela sua arte. A prática da arte diz muito do resto. É como a inteligência que não pode dar-me o desejo de comer; pode porém dar-me o desejo de não comer senão o que me for útil.

Tiago Salazar

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

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