O complexo do sobrinho mimado da tia rica | Francisco Louçã in Jornal Expresso

Há, na ofensiva desembestada da direita contra o controlo público da TAP, um rancor que contrasta curiosamente com a pedinchice de financiamento sempre que esta ou outra empresa cai em dificuldades. Se a chuva de dinheiro se limitasse a salvar Neeleman, que aliás parece ter pouco que o recomende, a considerar as provas que deu nestes anos, cantariam os anjos no céu. Se esse dinheiro fosse somente uma carita transição para a venda à Lufthansa, como mandam as leis do mercado, era um sacrifício em prol do destino, mas aleluia que o mercado está salvo.

Agora o Estado querer dirigir a empresa que comprou, haver uma companhia de bandeira em Portugal e não se desbarretar perante a soberania alemã, isso é um atrevimento, que levanta no mesmo fervor espíritos tão diversos como Júdice, Figueiredo e Rangel. Vai ser caro, anunciam, lúgubres; se pagassemos abdicando do direito de exigir a adaptação da empresa às necessidades de Portugal, então seria um fulgurante negócio, como está bom de ver. É de notar que, entre os que agora se indignam com o custo, estão alguns dos que advogaram, intermediaram, consultoraram ou aplaudiram negócios como a privatização dos CTT, da EDP, da REN e outros esplêndidos contratos que acomodaram fortunas, são portanto especialistas de cartilha passada em questões de gestão da coisa pública.

Em tudo isto sobressai com pouco subterfúgio o complexo do sobrinho mimado da tia rica: se o estroina estampou o carro, lá baterá à porta, compungido, para pedir um subsídio. Assim é o capitalismo português, impante de liberalismo, sua majestade o mercado manda, até ao dia em que o negócio corre mal e o Estado for chamado a remediar o caso. Generosos sobretudo consigo próprios, os acionistas e os seus ideólogos acham detestáveis as regulações ou a intromissão do governo, a não ser quando se trate de requisitar os bolsos dos pobres contribuintes para salvar a empresa, pois gostam de sol na eira e chuva no nabal. Foi assim em 2009, foi assim a partir de 2011 e, já agora, foi sempre assim na TAP.

A crise é uma oportunidade e, nisso, não há nada de novo. Desde a recessão de 2009, as 500 empresas do índice S&P dos EUA usaram 92% dos seus resultados em dividendos aos acionistas e em compra das suas próprias ações (o que tem, entre outras virtudes, a de aumentar artificialmente o valor dos títulos e portanto a riqueza dos seus donos). No caso da Adidas, campeã da indústria alemã, o Estado financia-a agora 2,4 mil milhões de euros e uma parte dos trabalhadores esteve em lay off. Mas, nos últimos cinco anos, os dividendos e compra de ações próprias foram 4,7 mil milhões, 73% dos seus resultados. Nuns casos como no outro, durante estes anos a prosperidade foi usada não para criar capacidade produtiva mas para comprar o espada do sobrinho mimado.

Por isso, sair do guião da garantia do favor público cria insegurança entre os especuladores. Ao imaginarem que, em vez de lhes pagar os desatinos, o Estado pode um dia exigir responsabilidade, sofrem um choque, esse é um mundo irreconhecível e assustador. Compreendo portanto o sobressalto dos privatizadores, que agora desfilam pedindo tanto dinheiro quanto falta de memória. Se não aparecessem agora a reclamar o quinhão do sobrinho mimado é que deveríamos ficar preocupados.
Em todo o caso, há nesse frenesim um risco, além do do eventual predomínio dos interesses a que dão corpo, que é obscurecer as dificuldades da solução do controlo público. Não há nenhuma razão para ficarmos tranquilos, tudo isto pode correr mal e até é difícil evitar o descarrilamento: a Comissão Europeia pode impor condições inomináveis, ela afinal tem a mesma agenda Lufthansa que concita a simpatia dos privatizadores indígenas, o capital pode ser insuficiente e haver muita dívida escondida ou manipulável, e, além de tudo, não é possível reconverter a empresa sem um plano de transição para o emprego num país que saiba que vai ter menos turismo, menos voos e nenhum novo aeroporto complementar para a alteração do paradigma de transporte dada a proteção ambiental.

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

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