PORQUE É QUE O HOMEM TEM TENDÊNCIA PARA O ÓDIO | Umberto Eco

[artigo de Umberto Eco na “Bustina di Minerva”, do L’ Espresso, em 28.Outubro.2011]

<*Silvio detesta todos os comunistas, Bossi todos os sulistas, da mesma maneira que Appelius tinha aversão a todos os ingleses. Porque o ódio é um sentimento que, de uma só vez, abraça multidões imensas. E por isso, é fácil e satisfatório. Ao passo que o amor é selectivo e, portanto, mais difícil*>.

Nos últimos tempos escrevi sobre o racismo, sobre a construção do inimigo e sobre a função política do ódio pelo Outro ou o Diferente. Julgava ter dito tudo, mas numa recente discussão com o meu amigo Thomas Stauder emergiram (e são daqueles casos em que nenhum de nós se lembra quem dos dois disse o quê, mas as conclusões coincidiam) alguns elementos novos (ou, pelo menos, novos para mim).

Nós tendemos, com uma ligeireza um tanto pré-socrática, a entender o ódio e o amor como dois opostos, que se confrontam simetricamente, como se aquilo de que não gostamos, odiássemos, e vice-versa. Mas entre os dois polos há, pelo contrário, e como é óbvio, uma infinitude de cambiantes. Mesmo se usarmos os dois termos de modo metafórico, o facto de eu gostar muito de pizza mas não adorar sushi não quer dizer que odeie sushi. Gosto é menos do que de pizza. E tomando os dois termos no seu sentido próprio, o facto de amar uma pessoa não significa que odeie todas as outras, o oposto do amor pode perfeitamente ser a indiferença (eu amo os meus filhos e foi-me indiferente o taxista que me transportou há duas horas).

Mas a questão de fundo é que o amor isola. Se eu amo loucamente uma mulher, pretendo que ela me ame a mim e não a outros (pelo menos, no mesmo sentido), uma mãe ama apaixonadamente os filhos e deseja que eles a amem de maneira privilegiada (mãe há só uma) não admitindo nunca amar com a mesma intensidade os filhos alheios. Portanto, o amor é à sua maneira egoísta, possessivo, selectivo.
É verdade que o mandamento do amor impõe amar o próximo como a nós mesmos (a todos, os seis mil milhões de próximos), mas o que este mandamento, na prática, nos recomenda é que não odiemos ninguém, não que amemos um esquimó desconhecido tanto quanto o nosso pai ou o nosso neto. O amor privilegiará sempre o meu netinho em relação a um caçador de focas. E mesmo que eu não pense (como pretende a famosa lenda) que não me importa nada se morre um mandarim na China (sobretudo se isso me puder trazer alguma vantagem) e que saiba que os sinos dobrarão sempre também por mim, eu serei sempre mais tocado pela morte da minha avó do que pela do mandarim.

Ao contrário, o ódio pode ser colectivo, e deve sê-lo para os regimes totalitários, pois desde pequeno que a escola fascista me pedia para odiar “todos” os filhos da Álbion e o Màrio Appellis recitava todas as noites na rádio o seu «Deus amaldiçoe os ingleses». E é isso que querem as ditaduras e os populismos, e muitas vezes também as religiões na sua versão fundamentalista, porque o ódio pelo inimigo une os povos e fá-los incendiar a todos pelo mesmo fogo.
O amor aquece-me o coração em relação a poucas pessoas, o ódio aquece o meu coração, e o de quem está do meu lado, em relação a milhões de pessoas, a uma nação, a uma etnia, a pessoas de cor ou língua diferentes. O racista italiano odeia todos os albaneses ou os romenos ou os ciganos, Bossi odeia todos os sulistas (quando até recebe um ordenado que também é pago com os impostos dos sulistas, o que é mesmo a obra-prima da aversão, em que ao ódio se une o prazer do dano e do embuste), Berlusconi odeia todos os juízes e pede-nos para fazermos o mesmo, e para odiarmos todos os comunistas, mesmo que à custa de os vermos onde já lá não estão.

O ódio não é, portanto, individualista, mas sim generoso, filantrópico, e abraça de uma só vez multidões imensas. Só nos romances é que nos é dito como é belo morrer por amor ; normalmente é representada como belíssima a morte do herói que é colhido por ela ao fazer detonar uma bomba contra o odiado inimigo.

Eis porque a história da nossa espécie foi sempre maioritariamente marcada pelo ódio, pelas guerras, pelos massacres, e não pelos actos de amor (menos confortáveis e frequentemente muito trabalhosos, no caso de os querermos estender para além do círculo do nosso egoísmo).
A nossa propensão para as delícias do ódio é tão natural que, para os governantes dos povos, se torna fácil cultivá-la, ao passo que para o amor somos só convidados por seres distantes que têm o hábito desagradável de beijar leprosos.

28 de Outubro de 2011 – Umberto Eco

Retirado do Facebook | Mural de Tereza Bento

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