Morreu há três dias o maestro José Atalaya | Júlio Isidro

O FIM DE UMA PARTITURA

Morreu há três dias o maestro José Atalaya.

Nem uma linha, nem uma voz, nem um excerto musical, para informar ou recordar quem foi este maestro que aos 93 anos partiu num triste adagio. O que nós lhe devemos na divulgação da chamada música clássica, através de concertos onde o maestro explicava de modo simples o que os nossos ouvidos reactivos recusavam descobrir para depois começar a gostar. Esteve para ser engenheiro ,mas trocou a resistência de materiais pelos resistentes à música que chamavam erudita para a remeterem só para os eleitos.

Nos anos 50 já estava na vanguarda, com a atracção pela obra de Joly Braga Santos ou Pierre Boulez e o seu experimentalismo electrónico. Foi maestro fundador da Juventude Musical Portuguesa e , à frente da orquestra IMAVE – Instituto de meios Audiovisuais de Educação , percorreu escolas e universidades a cativar milhares de jovens para o fascínio e os porquês da música. O sucesso foi tão grande que os seus concertos falados e tocados, enchiam o Teatro de S. Carlos e o Rivoli com transmissão pela RTP e RDP.

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CARTA DE ÁLVARO CUNHAL QUANDO PRESO NA PENITENCIÁRIA DE LISBOA | ÁLVARO CUNHAL | 6 de Outubro de 1951

Exmo. Senhor Director da Cadeia Penitenciária de Lisboa Álvaro Cunhal, preso nesta Penitenciária, vem, perante V.Exª. expor o seguinte:

1 – Foi-me hoje devolvida uma carta, que tinha escrito à minha família [1], com a indicação de não poder seguir, por conter «ciência comunista». Dada a minha surpresa e o meu pedido para me serem indicadas as passagens da carta que motivaram essa opinião e a decisão correspondente, fui esclarecido que se tratava de tudo quanto nela dizia acerca da obra de Darwin.

Embora eu soubesse o que tinha escrito e, como sempre, me tivesse esforçado (dada a minha situação) para não dizer tudo quanto penso, fui ler e reler a carta censurada. E se, ao ser-me comunicada a decisão acima referida, senti apenas surpresa, depois de nova leitura do que tinha escrito fiquei verdadeiramente perplexo.

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