O conflito NATO - UE | por Carlos Matos Gomes

Voltando aos primórdios da união de facto, ou do casamento forçado entre a NATO e a UE.

As causas longínquas do que, com a guerra da Ucrânia, se veio a revelar um inultrapassável conflito, com um vencedor e um vencido, os EUA vitoriosos e a União Europeia destroçada (apesar de se agitar), encontram-se na entrada dos EUA na II Guerra Mundial

Os Estados Unidos entraram na II GM e intervieram na Europa não por motivos ideológicos (defesa da democracia, ou dos direitos do homem, ou de uma civilização), mas por motivos de interesse estratégico, de substituição da Europa (a Inglaterra) como centro do mundo. Esse estatuto de potência imperial implicava, à semelhança da Inglaterra imperial e colonial (sua antecessora), dispor de supremacia marítima e aérea, de dominar o sistema de trocas comerciais e o financeiro, de, em suma, substituir a Royal Navy pela US Navy (mais a USAF), substituir a libra pelo dólar, a City por Wall Street. A língua inglesa manter-se-ia o latim do novo império.

As causas da II GM são eminentemente económicas e sociais, uma questão de poder. A revolução russa criara esperanças de tomada de poder pelo proletariado industrial e essa esperança teve como réplica a reação violenta dos detentores do poder na Europa (o nazismo e o fascismo e governos autoritários em Inglaterra e em França). Os banqueiros e industriais alemães pensaram exatamente o mesmo que os banqueiros e industriais ingleses e americanos. Era necessário derrotar, se possível no ovo, os revolucionários socialistas e comunistas. Daí as boas, as excelentes relações entre a Inglaterra, a Alemanha e os Estados Unidos. Daí a complacência com que os “democratas” ingleses e americanos viram a ascensão do nazismo e do fascismo, daí a recusa das democracias europeias apoiarem os republicanos espanhóis. Daí, por fim, a relutância dos EUA em entrar na guerra, esperando que os europeus se digladiassem e mutuamente se enfraquecessem. Daí, ainda, imediatamente antes da guerra, as frustes tentativas de conjugação de esforços com a URSS, que acabaria por ser deixada isolada contra os alemães. As divergências no movimento internacional socialista e comunista europeu também facilitaram muito a tarefa de manter o essencial das relações sociais dos regimes saídos da revolução industrial.

A questão do nazismo nunca foi uma preocupação para as classes dirigentes inglesas e americanas. O governo inglês, os seus parlamentares, os “comuns” e os “lordes”, mantiveram uma política de boa relação, para não dizer de cumplicidade com a Alemanha nazi. Não é necessário recordar as simpatias de Eduardo VII, o duque de Windsor, pela Alemanha de Hitler, ordeira e anticomunista. Apenas quando a Alemanha ocupou a França e ameaçou fazer dela uma base de ataque às ilhas Britânicas soaram os alarmes e Churchill surgiu a dirigir a resistência. Mas os americanos continuaram de fora — a guerra era entre europeus. Roosevelt, em 1940, afirmava na campanha eleitoral que ia manter os EUA fora da guerra. Em 1941 Churchill pedia armas aos americanos — ferramentas — mas foi muito longo e difícil o processo de autorização do Congresso — e o secretário de Estado da Guerra, Henry L. Stimson, teve de lembrar que os EUA haviam permanecido seis anos sem se incomodarem com o facto de a Alemanha se estar a rearmar. (Kimball, Warren. Forged in War: Roosevelt, Churchill and the Second World War. New York: William Morrow & Co., 1997)

Apenas em Agosto de 1941 Roosevelt e Churchill se encontram e a entrada dos americanos na guerra obedeceu à análise que estes fizeram quanto aos seus interesses no presente e no futuro. Nada de idealismos, nem de defesa de princípios. A entrada dos EUA na guerra no teatro da Europa, com os elevadíssimos custos de sangue e recursos (estamos agora a relembrar o desembarque da Normandia), foi já feita como uma ação da “grande América”, de que, é certo, os europeus retiraram o proveito de um modelo liberal de sociedade (a parte ocidental, herdeira do liberalismo inglês) e o de um sistema de segurança social à custa da livre concorrência dos mercados (a parte oriental, agrícola e herdeira de regimes medievais absolutistas).

A NATO surgiu para impor a soberania dos EUA a metade da Europa e para não permitir o ressurgimento de uma Europa autónoma. Em claro, para impedir uma União Europeia! Não só para impedir uma Europa unificada como principalmente a aliança da Europa Ocidental com a URSS.

Este objetivo de separação das Europas é e foi visível nas manobras para impedir que partidos comunistas europeus se aproximassem do poder, caso de Itália e França. Foi visível na campanha que logo após a II Guerra Churchill conduziu contra a URSS, de demonização dos seus dirigentes e desvalorização do seu papel na derrota da Alemanha nazi. A URSS representou neste jogo o papel do homem do saco com que nas histórias infantis se leva as crianças a obedecer às ordens paternas. Os europeus foram tratados como infantes sem discernimento e muitos continuam a acreditar nas fábulas.

A alternativa ao comunismo — à mudança da essência do poder — foi oferecer aos europeus da órbita americana um estado de bem-estar através das sociais-democracias e das democracias cristãs. O welfare state, que está a ser desmantelado diante dos nossos olhos nesta guerra da Ucrânia, para proveito dos sistemas privados e neoliberais de saúde e pensões, segundo o modelo americano, foi a moeda de troca da aceitação do estatuto colonial. Dir-se-á que foi um colonialismo confortável. Foi, de facto, mas a leveza e o bom trato dos serviçais não altera a essência do estatuto de servidão e este será exercido com todo o rigor sempre que os servos se julguem libertos! Os americanos vão deixar de pagar os subsídios de férias, de desemprego e os serviços nacionais de saúde e de pensões dos europeus. Será uma das consequências desta guerra.

A paz do pós- Segunda Guerra na Europa não foi uma benesse da NATO, nem, logo, dos americanos. Não foi grátis, muito pelo contrário. A paz na Europa foi conseguida à custa do fim dos impérios coloniais europeus na Ásia e em África — à custa das guerras na Coreia, na China, Indochina, na Palestina, no Médio Oriente, no Congo, no Tanganica, e mais recentemente na Guiné, em Angola e em Moçambique, e, ainda mais perto, na Jugoslávia, no Iraque e na Síria. A NATO serviu para retirar os europeus do Mundo e deixá-lo para as duas superpotências. Na Europa, a NATO, tal como o Pacto de Varsóvia, serviram como forças de imposição da ordem política e social interna, sufocando movimentos políticos e sociais alternativos: a agitação radical da Alemanha e da Itália, o Maio de 68 em França, as revoltas de Praga e de Budapeste, por exemplo.

Pergunta-se muitas vezes se o mundo sem a NATO seria melhor? Seria diferente. Teria uma distribuição de riqueza diferente, de certeza, uma justiça social diferente… um estatuto diferente de dignidade dos povos. Teria um sistema de alianças mais flexível, com mais direitos para os povos de regiões do mundo que não controlam os seus territórios e matérias-primas, que são forçados a trocas desiguais.

Por fim, fala-se atualmente em aumentar despesas militares para fazer frente, de novo, à ameaça russa. A questão não é, como alguns movimentos antimilitaristas a têm colocado, de optar entre os canhões ou a manteiga. A questão é a de ter aparelhos militares adequados às ameaças e aos objetivos e ter liberdade para os utilizar.

Liberdade de ação é um dos princípios da guerra, quem a não tem, é vencido. A Europa da União Europeia não tem e escusa de gastar recursos a fingir de conta que conta.

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