ANNIE, A FILHA REBELDE DO DIRETOR DA PIDE | por Paulo Marques

O que começou por ser uma reportagem dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz para o jornal Expresso (distinguida com o Grande Prémio Gazeta 2002, principal galardão de jornalismo concedido em Portugal) acabou num livro. “A Filha Rebelde”, obra editada pela Temas e Debates, em 2003, constitui o desenvolvimento dessa reportagem.

Trata-se da história de Ana Maria Palhota Silva Pais (1935 – 1990), conhecida pelo petit nom Annie, a filha única do último diretor da PIDE, o major Fernando Silva Pais, que dirigiu a polícia política do regime fascista durante os seus últimos doze anos (de 1962 a 1974), que se apaixonou pela revolução cubana, deixando-se envolver pelo clima de efervescência política e social vivido em Havana nos agitados anos 60.

Annie era uma mulher extremamente bonita, culta e com uma sólida formação, determinada, corajosa, que vivia com todas as facilidades e mordomias, e que abandonou todo o seu passado e estatuto, todas as suas referências familiares, todas as suas amizades, para, sob o fascínio da figura de Che Guevara, se entregar à revolução cubana com a qual se identificou.

Eis a história:

Em 1960, em Lisboa, Annie conhece o diplomata suíço Raymond Quendoz. Nesse mesmo ano casam. Passados dois anos o marido é colocado na embaixada de Havana, na ilha de Cuba. Annie acompanha-o. Porém, infeliz no casamento, em 1965, com a colaboração de elementos do governo cubano, desaparece por três meses. Quando volta a apresentar-se, fica a saber-se que a jovem tomara a inesperada e extraordinária decisão de aderir ao movimento desencadeado pelos guerrilheiros da Sierra Maestra.

O compromisso da portuguesa com a revolução é total: o governo cubano atribui-lhe um pequeno apartamento, arranja-lhe trabalho e, Annie, vive de senhas de racionamento (em virtude do bloqueio norte-americano), usa farda, dedicando-se de corpo e alma ao regime cujos ideais o pai combate sem tréguas em Portugal.

Em Cuba exerce vários cargos em diversas estruturas do regime comunista, mantendo-se sempre politicamente bem relacionada com as altas esferas do país; viaja por todos os continentes ao serviço da causa revolucionária; é tradutora-intérprete do presidente Fidel Castro; e mantém uma relação amorosa com o comandante René Vallejo, casado, secretário, médico particular e sombra de Castro – uma alta individualidade da revolução cubana – e, mais tarde, com José Abrantes, general e ministro do Interior.

Entretanto, em Portugal, quando o major Silva Pais se vê na obrigação de informar Salazar do sucedido e de pôr o seu lugar à disposição, este (já ao corrente do acontecimento), muito benevolente, diz-lhe «para não se preocupar e continuar o seu trabalho». E o assunto, durante anos, não sairá dos corredores do poder, sendo apenas comentado em surdina.

Sabe-se também que, apesar de Annie ter dececionado os pais, apesar da sua relação extremamente conflituosa com a mãe, mantém com estes uma correspondência mais ou menos regular, recebe a mãe em Cuba e desloca-se por diversas vezes ao seu país a fim de visitar os progenitores.

Annie viria a morrer, de cancro, com 54 anos de idade. Foi enterrada em campa rasa no cemitério Cólon, em Havana.

Hasta siempre, Annie!

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Marques

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