ZELENSKY SITIADO PELA CORRUPÇÃO QUE O RODEIA, por João Gomes, Facebook.

A demissão, ontem, do procurador-geral da Ucrânia, Ruslan Kravchenko, confirma o “estado da corrupção” que envolve a Ucrânia

A demissão não prova ainda que o próprio Kravchenko seja corrupto – não foi acusado formalmente e nega qualquer envolvimento – mas acontece precisamente quando a instituição que dirige está debaixo de uma investigação anticorrupção de enorme gravidade. O NABU e o SAPO, as duas principais estruturas anticorrupção ucranianas, investigam uma alegada organização criminosa que envolveria funcionários da Procuradoria-Geral, suspeitos de receber subornos para proteger centros de chamadas fraudulentos e de branquear milhões de hryvnias.

E um dos altos funcionários da própria Procuradoria, Serhii Kropyva, foi detido, conforma aqui anunciei. E é difícil imaginar uma situação mais devastadora para a imagem de um Estado. A Procuradoria-Geral existe para investigar crimes, perseguir os criminosos e defender a legalidade. Ora, quando são os investigadores anticorrupção a entrar na Procuradoria para procurar provas de corrupção, alguma coisa está profundamente errada.

Kravchenko diz que a sua demissão é uma decisão política e que não quer que o cargo seja utilizado como instrumento de confronto político. É uma explicação legítima e deve ser respeitada enquanto não houver prova em contrário. Mas a política não vive apenas das acusações formais. Vive também dos sinais. E os sinais que chegam de Kiev são cada vez mais difíceis de ignorar.

Porque este episódio não surge num vazio. Surge depois de sucessivas crises envolvendo altos responsáveis, instituições de segurança, estruturas governamentais e organismos do Estado ucraniano. E surge precisamente numa altura em que Kiev pede ao Ocidente mais armas, mais dinheiro, mais garantias financeiras e mais apoio político.

É aqui que aparece a pergunta que ninguém deveria ter medo de fazer: Que Estado está a ser financiado pelo Ocidente? Porque não estamos a falar de um país qualquer. Estamos a falar de um Estado que recebe enormes volumes de dinheiro público europeu e americano, que administra milhares de milhões destinados à guerra, que pretende aderir à União Europeia e que exige dos seus aliados confiança política e financeira. E a confiança, como sabemos, não se decreta. Constrói-se. Ou perde-se.

O problema de Zelensky é precisamente este. Mesmo que se rejeite a acusação de que o próprio Presidente seja corrupto – e não há neste episódio fundamento para fazer essa acusação -, é cada vez mais difícil separar politicamente Zelensky do sistema de poder que se desenvolveu à sua volta.

Um Presidente não controla necessariamente todos os actos de todos os funcionários. Mas é responsável pela qualidade do aparelho de Estado que dirige. E quando a corrupção aparece repetidamente em níveis elevados desse aparelho, a responsabilidade política deixa de poder ser simplesmente transferida para “alguns indivíduos”. A questão passa a ser sistémica.

E é aqui que a palavra “sitiado” ganha significado. Zelensky está sitiado não apenas pela Rússia no campo de batalha. Está sitiado por uma guerra que não termina. Está sitiado por uma economia dependente da ajuda externa. Está sitiado por uma pressão crescente de Trump para negociar. Está sitiado por uma Europa que continua a financiar a Ucrânia mas que exige reformas e transparência. E está, cada vez mais, sitiado pelas contradições do próprio aparelho de poder.

A situação torna-se ainda mais delicada porque são precisamente as instituições anticorrupção ucranianas que estão a produzir estes casos. Isso é importante. Não é Moscovo que está a denunciar a Procuradoria-Geral. Não é propaganda russa que deteve um funcionário da Procuradoria. São instituições ucranianas que investigam instituições ucranianas. E isso torna muito mais difícil esconder o problema atrás da velha explicação segundo a qual toda e qualquer denúncia de corrupção em Kiev serviria apenas os interesses russos. Não.

Há corrupção na Ucrânia porque há investigações ucranianas que a descobrem. E isso é simultaneamente um sinal preocupante e um sinal positivo. Preocupante porque revela a dimensão do problema. Positivo porque demonstra que ainda existem instituições capazes de investigar o próprio poder.

Mas há uma questão adicional que não pode ser ignorada. Quanto dinheiro circulou por estas estruturas durante quatro anos de guerra? Quanto dinheiro europeu? Quanto dinheiro americano? Quantas armas? Quantos contratos? Quantos equipamentos? Quantos fundos destinados à reconstrução? Quantos milhões destinados à administração do Estado? Quanto foi efetivamente utilizado onde deveria ser utilizado? E quem fiscalizou?

Estas perguntas tornam-se ainda mais importantes quando a Ucrânia pretende ser integrada na União Europeia. Porque a União Europeia não pode funcionar apenas como uma caixa multibanco para a Ucrânia.

Se Bruxelas exige reformas judiciais e combate à corrupção aos países candidatos, não pode fechar os olhos quando o problema aparece precisamente nas instituições encarregadas de aplicar a justiça. Apoio não significa cheque em branco. Solidariedade não significa ausência de fiscalização. E amizade entre Estados não significa cumplicidade perante aquilo que esteja errado.

Talvez esta seja, aliás, uma das maiores dificuldades políticas de Zelensky neste momento. Durante a guerra, qualquer crítica ao poder pode ser apresentada como uma tentativa de enfraquecer a resistência nacional. Mas chega um momento em que a própria sobrevivência do Estado exige exatamente o contrário: mais transparência, mais fiscalização e menos proteção política.

Porque a guerra pode justificar poderes excepcionais. Pode justificar medidas extraordinárias. Mas não pode justificar que a corrupção se transforme numa característica permanente do Estado. E muito menos pode justificar que quem denuncia a corrupção seja tratado como inimigo.

É por isso que a demissão de Kravchenko é mais do que uma demissão. É um sintoma. Um sintoma de um poder político que começa a ser obrigado a olhar para dentro quando preferiria que todos olhassem apenas para Moscovo.

Mas há uma batalha que não pode ganhar com discursos, conferências de imprensa ou imagens cuidadosamente preparadas. É a batalha pela credibilidade do próprio Estado ucraniano. E essa batalha, neste momento, parece estar a ser travada dentro das próprias paredes do poder.

Zelensky talvez não esteja acusado de corrupção. Mas está, cada vez mais, sitiado pela corrupção que o rodeia.

João Gomes

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