OS TRUQUES DA EXTREMA-DIREITA ALEMÃ, por João Gomes

A Alemanha está a atravessar uma transformação económica profunda. A indústria, durante décadas o grande motor do modelo alemão, enfrenta simultaneamente a concorrência chinesa, custos energéticos elevados, perda de competitividade e a transição tecnológica no sector automóvel. A pressão sobre a Volkswagen e outros grandes fabricantes é real, e a concorrência dos construtores chineses tornou-se particularmente intensa.

É aqui que a mensagem da AfD tenta ganhar força. A AfD percebe que a questão ucraniana também é uma questão alemã. Quando Alice Weidel fala em Alemanha como “mediador neutro” entre Washington e Moscovo, não está necessariamente a apresentar apenas uma proposta de política externa. Está também a falar para um eleitorado preocupado com o seu próprio futuro.

Durante décadas, a Alemanha construiu uma parte importante da sua prosperidade sobre três pilares: energia relativamente barata, uma extraordinária capacidade industrial e acesso a grandes mercados externos.

– A relação económica com a Rússia fornecia energia.

– A China absorvia uma enorme quantidade de produtos alemães.

– Os Estados Unidos constituíam outro grande mercado e o principal garante da arquitetura de segurança ocidental.

Esse modelo está hoje profundamente abalado. A Alemanha perdeu a energia russa barata, enfrenta uma China que deixou de ser apenas cliente para passar a ser concorrente industrial, e vê crescer a incerteza quanto à relação futura com os próprios Estados Unidos. Não é por acaso que o debate sobre a China voltou a ocupar um lugar importante na política económica alemã: Berlim procura simultaneamente manter relações económicas com Pequim e defender os seus interesses estratégicos. E é neste contexto que a AfD diz aos alemães: talvez o problema não seja apenas a China ou a Rússia; talvez seja a política externa escolhida pelo actual Governo.

A guerra também tem um preço político dentro da Alemanha e é aqui que Friedrich Merz entra no problema. Merz procura afirmar uma Alemanha mais forte militarmente, mais empenhada na segurança europeia e mais próxima das posições de Washington e dos aliados da NATO. Mas existe uma contradição política difícil de resolver: uma Alemanha que procura reforçar a sua posição militar ao mesmo tempo que enfrenta dificuldades económicas e industriais precisa de explicar aos seus cidadãos quanto lhes custará essa transformação. E a AfD explora precisamente essa contradição.

A mensagem é simples: enquanto o Governo fala de rearmamento, apoio à Ucrânia e confronto estratégico com a Rússia, há fábricas em dificuldades, trabalhadores preocupados, empresas a reduzir empregos e uma indústria automóvel que já não domina os mercados como dominava. A crise da indústria alemã não pode, evidentemente, ser atribuída apenas à guerra da Ucrânia. Seria uma simplificação grosseira. A transformação tecnológica do automóvel, os erros estratégicos de alguns fabricantes, a concorrência chinesa, a dependência histórica do mercado chinês, os custos energéticos e problemas estruturais de produtividade têm responsabilidades muito maiores.

Mas politicamente a associação é inevitável e a AfD sabe explorá-la. A própria Weidel tem centrado a sua mensagem económica precisamente nos custos da energia, na desindustrialização e na perda de competitividade alemã.

E existe ainda uma questão que nenhum político alemão pode ignorar: a memória histórica. Aqui há algo particularmente importante que deve ser referido. A Segunda Guerra Mundial continua a ser uma presença na consciência política alemã. Não significa isto que os alemães de hoje pensem como os alemães de 1939, evidentemente. Mas significa que guerra, militarização, destruição e confronto com a Rússia têm na Alemanha uma carga histórica que não pode ser comparada simplesmente com a de outros países europeus.

Durante décadas, a cultura política alemã assentou numa espécie de princípio: “Nunca mais a guerra.” A Ostpolitik, a aproximação à União Soviética e depois à Rússia, o comércio como instrumento de diálogo e a ideia de que a mudança através do comércio poderia produzir relações mais pacíficas fizeram parte dessa construção.

Pode discutir-se hoje se essa política foi ingénua ou excessivamente dependente da Rússia. Mas ela não nasceu do acaso. Nasceu também da História alemã. É precisamente essa memória que a AfD procura, à sua maneira, reutilizar politicamente quando defende que Berlim deve falar com Moscovo em vez de simplesmente aprofundar a lógica de confronto.

Mas há aqui um “teatro” extraordinário. E é talvez esta a parte mais interessante da questão. A AfD pode defender uma aproximação a Moscovo sem ser, ideologicamente, próxima do modelo político e económico russo. Aliás, há diferenças profundas. A AfD apresenta-se como defensora de uma economia de mercado, de menor intervenção estatal, de redução da burocracia e de uma maior liberdade económica. Weidel fala explicitamente em “princípios de mercado” e “abertura tecnológica”.

Ora, Moscovo, por sua vez, construiu uma economia em que o Estado mantém um peso extraordinariamente forte nos sectores estratégicos, nomeadamente energia, defesa, finanças e grandes empresas. Portanto, uma eventual aproximação política entre Berlim e Moscovo não significaria uma convergência ideológica entre a AfD e o Kremlin. Poderia significar simplesmente uma convergência de interesses. E isso é muito diferente.

A AfD poderia querer comprar novamente energia russa, restabelecer relações comerciais, reduzir as sanções e procurar uma solução negociada para a Ucrânia porque entende que isso beneficia a Alemanha – sem necessariamente adoptar o modelo político russo. É precisamente aí que a análise que se pode fazer se torna mais interessante.

E Moscovo também não seria um parceiro fácil. Há ainda outro aspecto que frequentemente desaparece neste debate. Se a AfD chegasse um dia ao Governo federal e procurasse uma aproximação profunda à Rússia, não teria necessariamente uma relação de amizade política com Moscovo. A Rússia tem os seus próprios interesses. Moscovo quer segurança estratégica, influência regional, mercados, tecnologia, reconhecimento das suas posições geopolíticas e uma arquitetura europeia de segurança diferente da actual. Já Berlim quer preservar a sua indústria, os seus mercados, a sua soberania económica e a sua posição de potência europeia.

Esses interesses podem coincidir num determinado momento – por exemplo, na energia ou numa negociação sobre a Ucrânia – mas podem igualmente entrar em conflito. Por isso, a ideia de que uma AfD no poder seria simplesmente uma espécie de “aliada alemã de Putin” é demasiado simplista. A política internacional não funciona assim. Estados e governos aproximam-se quando os interesses coincidem e afastam-se quando deixam de coincidir.

E é precisamente aqui que Merz enfrenta um problema sério. A enorme vitória da AfD nas eleições regionais da Saxónia-Anhalt, com 43,8%, mostra que a questão já deixou de poder ser tratada como um fenómeno marginal. A CDU de Merz ficou nos 17,2%, e a AfD ficou a apenas três lugares da maioria absoluta no parlamento regional.

Isto não significa que os alemães tenham votado todos a favor da Rússia ou contra a Ucrânia. Significa, antes, que uma parte muito significativa do eleitorado está a dizer que não está satisfeita com a direção política, económica e social do país. E a AfD encontrou uma narrativa capaz de juntar várias insatisfações: imigração; perda de poder de compra; crise industrial; energia cara; descontentamento com Berlim; oposição ao atual rumo europeu; rejeição do aumento das despesas militares; crítica ao apoio à Ucrânia; desejo de reabrir relações económicas com Moscovo.

A declaração de Weidel sobre a necessidade de falar com Putin insere-se, portanto, num quadro político muito maior.

E talvez a questão fundamental não seja saber se a Alemanha deve escolher Moscovo ou Washington. A verdadeira questão é saber se a Alemanha consegue voltar a construir uma política externa própria, baseada nos seus interesses económicos e de segurança, sem deixar de ser europeia, sem abandonar os seus compromissos internacionais e sem transformar a Rússia num inimigo permanente. Porque há uma coisa que a História económica alemã demonstra: a Alemanha prosperou quando conseguiu ser simultaneamente uma potência industrial, comercial e diplomática. E agora enfrenta uma situação nova.

A China já não é apenas o enorme mercado para onde a Alemanha exportava Mercedes, BMW, Volkswagen, máquinas industriais e produtos químicos. É também uma potência tecnológica e industrial que concorre diretamente com essas empresas. A Rússia já não é o fornecedor energético relativamente previsível de outrora. Os Estados Unidos já não são necessariamente o parceiro económico e estratégico previsível de décadas passadas. E a própria Europa está a tentar responder simultaneamente à guerra, à competição chinesa e à necessidade de reindustrialização. A Comissão Europeia prepara, aliás, novas regras destinadas a favorecer empresas europeias nas compras públicas, precisamente perante a pressão económica chinesa.

É neste cruzamento de crises que a AfD cresce. E talvez seja esse o aspecto mais importante a retirar do texto publicado: Alice Weidel não está simplesmente a dizer aos alemães “sejam amigos da Rússia”. Está a dizer-lhes algo politicamente mais sofisticado: “Olhem para o vosso país. Olhem para as vossas fábricas. Olhem para os vossos empregos. Olhem para a vossa economia. E perguntem se a política externa de Berlim está realmente a defender os interesses alemães.”

É uma mensagem eleitoral poderosa. Mas não significa que as soluções da AfD sejam necessariamente as melhores para resolver os problemas alemães. E muito menos significa que uma aproximação a Moscovo resolveria automaticamente a crise estrutural da indústria alemã.

A Alemanha está perante uma escolha histórica muito maior do que a simples escolha entre Putin e Zelensky, ou entre Washington e Moscovo. Está a decidir que país quer ser depois de décadas em que o seu modelo económico parecia praticamente inabalável. E é precisamente porque os alemães sabem, talvez melhor do que muitos outros europeus, onde podem conduzir as escolhas erradas em matéria de guerra, militarização e confronto, que a palavra “paz” pode voltar a adquirir uma força eleitoral extraordinária.

A AfD percebeu isso. E Friedrich Merz não pode continuar a fingir que não percebeu.

João Gomes

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