CIMEIRA DO BRICS TERMINA COM CONCLUSÕES, por João Gomes, Facebook.

Terminou a Cimeira do BRICS e, desta vez, não ficou apenas a fotografia dos líderes. Há uma declaração conjunta com conclusões concretas.

Entre os pontos mais importantes está a defesa de uma ordem internacional mais representativa, com maior peso dos países do chamado Sul Global e a reforma das instituições internacionais, incluindo as estruturas financeiras e políticas dominadas historicamente pelo Ocidente.

O BRICS reafirma também a intenção de aumentar o comércio nas moedas nacionais, desenvolver sistemas de pagamentos transfronteiriços e reduzir a dependência dos mecanismos financeiros tradicionais. Não nasceu, porém, nenhuma “moeda BRICS”, nem foi decretado ainda o fim do uso do dólar.

Sobre o Médio Oriente, a declaração manifesta profunda preocupação com a escalada militar e apela à contenção, ao diálogo e à diplomacia. Na questão palestiniana, a posição é mais explícita: apoio ao direito à autodeterminação, à criação de um Estado palestiniano, à solução de dois Estados e rejeição da deslocação forçada da população de Gaza.

Sobre a Ucrânia, o BRICS mantém uma linguagem diplomática, sem condenação da Rússia e sem adoptar a narrativa ocidental do conflito. Defende antes a resolução através do diálogo e do respeito pelos princípios da Carta das Nações Unidas.

Outro ponto relevante é a oposição às sanções e medidas económicas unilaterais, consideradas prejudiciais ao comércio internacional e ao desenvolvimento dos países afectados.

A inteligência artificial, a tecnologia e os minerais críticos entram igualmente na agenda, com o objectivo de aumentar a cooperação entre os membros e garantir ao Sul Global maior acesso às novas tecnologias.

Na energia, o BRICS adopta uma posição pragmática: defende a transição energética, mas reconhece que os combustíveis fósseis continuarão a desempenhar um papel importante nas economias em desenvolvimento.

Não nasceu, portanto, uma nova ordem mundial pronta a funcionar amanhã de manhã. Mas também seria errado concluir que nada aconteceu. O BRICS continua demasiado heterogéneo para ser uma espécie de “NATO económica” contra o Ocidente. Índia e China têm rivalidades, os países do Golfo têm interesses próprios e nem todos vêem Washington ou Moscovo da mesma maneira.

Mas há uma tendência que já não pode ser ignorada: os países do BRICS estão a tentar criar mais instrumentos próprios – financeiros, comerciais, tecnológicos e diplomáticos – para dependerem menos das estruturas dominadas pelo Ocidente.

E talvez essa seja a verdadeira conclusão desta cimeira: não se trata ainda de substituir o mundo existente, mas de construir alternativas para que ninguém possa continuar a dizer que existe apenas um centro de poder no planeta.

João Gomes