Pátria ou Morte! O histórico discurso de Che Guevara na ONU em 1964 | In Jornalistas Livres

Senhor Presidente, distintos delegados:

A representação cubana perante esta Assembleia tem o prazer de cumprir, em primeiro lugar, com o agradável dever de saudar a incorporação de três novas nações ao importante número daqueles que aqui discutem os problemas mundiais. Saudamos, portanto, nas pessoas do seu Presidente e Primeiros Ministros, os povos da Zâmbia, Malawi e Malta e esperamos que estes países se incorporem desde o primeiro momento no grupo das nações não-alinhadas que lutam contra o imperialismo, o colonialismo e o neocolonialismo (…)

Em alguns casos, é a cegueira causada pelo ódio das classes dominantes de países latino-americanos contra nossa Revolução; em outros, mais tristes ainda, é o produto dos deslumbramentos com o brilho de Mammon².


(² Termo bíblico usado para descrever riqueza material, ganância, cobiça, ou literalmente, dinheiro.)


Como todos sabem, depois da tremenda convulsão denominada “Crise do Caribe”, os Estados Unidos contraíram com a União Soviética determinados compromissos que culminaram na retirada de certos tipos de armas que as contínuas agressões daquele país – como o ataque mercenário em Playa Girón e as ameaças de invasão à nossa pátria – obrigaram-nos a posicionar em Cuba, em um ato de legítima e inalienável defesa.

Os norteamericanos também pretendiam que as Nações Unidas inspecionassem nosso território, no que nos recusamos enfaticamente, já que Cuba não reconhece o direito dos Estados Unidos, nem de qualquer outra pessoa no mundo, de determinar o tipo de armas que possa ter dentro de suas fronteiras.

Nesse sentido, apenas aceitaríamos acordos multilaterais, com obrigações iguais para todas as partes.

Como disse Fidel Castro: “Enquanto o conceito de soberania exista como prerrogativa das nações e dos povos independentes e como direito de todos os povos, não aceitamos a exclusão de nosso povo desse direito. Enquanto o mundo for governado por esses princípios, enquanto o mundo for governado por esses conceitos que têm validade universal, porque são universalmente aceitos e consagrados pelos povos, não aceitaremos que sejamos privados de qualquer desses direitos, nós não renunciaremos a nenhum desses direitos.”

O senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, U Thant, entendeu nossas razões. No entanto, os Estados Unidos buscaram estabelecer uma nova prerrogativa arbitrária e ilegal: a de violar o espaço aéreo de qualquer pequeno país. É assim que têm voado pelo céu de nossa pátria aviões U2 e outros tipos de dispositivos espiões  que, com toda impunidade, navegam por nosso espaço aéreo. Emitimos todos os alertas necessários para que cessem as violações aéreas, bem como as provocações que os marinheiros ianques realizam contra os nossos postos de vigilância na zona de Guantánamo, os voos rasantes sobre os nossos navios ou de outras nacionalidades em águas internacionais, os ataques de piratas a navios de diferentes bandeiras e a infiltração de espiões, sabotadores e armas em nossa ilha.

Queremos construir o socialismo; nós nos declaramos apoiadores daqueles que lutam pela paz; Declaramo-nos dentro do grupo dos países não-alinhados, apesar de sermos marxistas-leninistas, porque os não-alinhados, como nós, lutam contra o imperialismo. Queremos paz (…)

Esta nova disposição de um continente, da América, se materializa e se resume no grito que, dia a dia, nossas massas proclamam como expressão irrefutável de sua decisão de lutar, paralisando a mão armada do invasor. Proclama que conta com a compreensão e o apoio de todos os povos do mundo e especialmente do campo socialista, liderado pela União Soviética.

Essa proclama é: Pátria ou morte!

NOTAS 1 e 2

¹ O Movimento dos Países Não Alinhados (MNA) reúne mais de 100 países, quase todos nações em desenvolvimento, com o objetivo de criar um caminho independente no campo das relações internacionais que permita aos membros não se envolver no confronto entre as grandes potências.

² Termo bíblico usado para descrever riqueza material, ganância, cobiça, ou literalmente, dinheiro.


“Patria o muerte!”, com essa frase o então Ministro da Indústria de Cuba, Ernesto Che Guevara, encerrou seu discurso em 11 de dezembro de 1964, perante a Assembleia Geral das Nações Unidas. Quase 60 anos depois, o discurso e a consigna escolhida por ele para seu encerramento, seguem sendo farol para o continente latino-americano.

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